LOGINEu não fazia a menor ideia de onde estava.
Tudo o que eu sabia sobre o norte resumia-se aos avisos sussurrados com desdém nas fronteiras de Silver Moon: um território inóspito, cercado por despenhadeiros intransponíveis e habitado por lobos selvagens que não seguiam as leis polidas das cortes do sul. Eu nunca tinha visto aqueles picos pontiagudos de perto, nunca pisara naquela terra escura e pedregosa, e a geografia daquela cordilheira era um enigma completo para mim. Eu estava cega, perdida e em fuga. O ar rarefeito da altitude cortava o fundo da minha garganta a cada puxada desesperada de fôlego, mas o frio congelante da montanha era incapaz de aplacar o incêndio que devorava minhas entranhas. O cio acumulado de seis meses não estava apenas me enfraquecendo; ele estava desmantelando minha sanidade camada por camada. Minhas pernas tremiam com uma violência que eu mal conseguia conter. Cada passo sobre as raízes retorcidas e as pedras soltas exigia um esforço monumental. O peso do meu próprio corpo — os quadris largos, as coxas fartas e o busto pesado — parecia triplicado pela exaustão, mas era essa mesma estrutura física robusta que ainda me impedia de desabar desfiladeiro abaixo. A febre hormonal transformava meu sangue em chumbo líquido. Minha pele, ensopada de suor sob o tecido do vestido escuro, ardia em uma hipersensibilidade torturante. O atrito mais sutil da malha contra os meus mamilos enrijecidos enviava choques agudos e elétricos direto para o centro do meu ventre, fazendo meu útero contrair em espasmos dolorosos e famintos. Uma umidade densa e quente escorria entre as minhas coxas, tornando cada movimento uma lembrança constante da minha vulnerabilidade biológica. O pior de tudo era o cheiro. Isolada no mundo humano e sem acesso às curandeiras ou às ervas tradicionais da floresta, eu estava completamente desarmada contra a minha própria natureza lupina. O aroma doce, cru e inebriante do meu sangue fértil explodia pelos meus poros, saturando o vento gelado da noite. Para qualquer predador que habitasse aquelas matas escuras, eu não era apenas uma intrusa; eu era um farol escancarado no meio da escuridão. A névoa começou a baixar entre os troncos monumentais de pinheiros que eu sequer sabia o nome. A vegetação do norte era densa, hostil e armada de espinhos grossos que rasgavam a barra da minha saia e arranhavam minhas canelas a cada investida pela mata fechada. Meus pés, calçados apenas com sapatos urbanos que não foram feitos para a rocha bruta, escorregavam no lodo e na geada fina. Minha loba, despertada à força após meses de torpor induzido pelo trauma do laço rompido por Zander, debatia-se em agonia dentro do meu crânio. Ela não compreendia o perigo daquelas terras desconhecidas. Tudo o que o instinto animal exigia era alívio, terra úmida e um macho capaz de quebrar aquela febre implacável. Os ossos da minha mandíbula estalaram, meus dentes caninos cresceram contra a gengiva sensível e minha visão humana começou a falhar, oscilando entre borrões de escuridão e clarões febris. Tropecei em uma raiz exposta. O impacto contra o solo pedregoso foi seco e impiedoso. As pedras pontiagudas rasgaram as palmas das minhas mãos e abriram cortes nos meus joelhos, fazendo o sangue fresco escorrer sobre o cascalho congelado. Soltei um gemido rouco, incapaz de empurrar o próprio corpo para cima. O suor escorria pelas minhas têmporas, colando mechas espessas do meu cabelo castanho ao pescoço em brasa. Minha respiração saía curta, em golfadas rápidas de vapor que se dissipavam no ar congelado. A sensação de desorientação era total: eu não sabia se estava no topo de um precipício, no coração de uma reserva de caça ou a poucos metros de uma fortaleza armada. A floresta ao redor parecia infinita, silenciosa e mortal. De repente, a própria respiração da montanha mudou. O farfalhar constante das copas das árvores sob a ventania silenciou-se de forma abrupta, como se o próprio ecossistema tivesse prendido o fôlego diante de uma força maior. O ar gélido foi subitamente rasgado por um aroma avassalador, magnético e sufocante: ozônio concentrado de tempestade, madeira queimada e o odor ferroso de puro poder predatório. Minha loba ergueu as orelhas na escuridão da minha mente, congelando qualquer protesto. Um estalo pesado de cascalho quebrado ressoou a poucos passos de onde eu estava caída. Forcei minhas pálpebras febris a se abrirem, lutando contra as ondas de desmaio que turvavam minha visão. As sombras entre os dois pinheiros colossais à minha frente pareceram se condensar, movendo-se com uma lentidão deliberada e aterrorizante. Das trevas da floresta desconhecida, uma criatura gigantesca emergiu para a luz prateada da lua cheia. Era um lobo negro como azeviche lapidado, de proporções descomunais que eu jamais vira em qualquer lugar. Seus ombros eram largos como muralhas de pedra, a pelagem espessa brilhava com gotas de gelo acumuladas e a cernelha exibia a solidez de um monstro forjado para a guerra. Eu não fazia a menor ideia de quem ele era ou que nome carregava. Tudo o que meus sentidos registravam era o perigo iminente de uma fera dominante. A fera estancou. O focinho largo ergueu-se, farejando o ar saturado com o perfume doce, cru e desgovernado do meu sangue em calor. No segundo seguinte, as pupilas da besta dilataram-se em uma fúria carmesim incontida. Um rosnado gutural, baixo e ensurdecedor explodiu das profundezas do peito daquele animal, fazendo o chão de rocha vibrar sob o meu corpo inerte. O monstro deu um passo pesado em minha direção, fixando em mim um par de olhos cinzento-tempestade que queimavam com uma fome predatória absoluta, selando o momento em que meu corpo indefeso ficou completamente à mercê daquele predador desconhecido.O ar entre nós estalava com a voltagem de um raio contido entre quatro paredes de cantaria. A borda de carvalho da mesa cravava-se na parte de trás das minhas coxas, mas eu não me sentia encurralada. Eu me sentia viva. Cada fibra dos meus músculos, cada gota de sangue forjada na poeira e no calor das bigornas da Linhagem de Ferro respondia à insolência predatória daquele macho. Zander passara anos tentando me diminuir. Dissera que meus ombros eram largos demais para uma companheira nobre, que minhas coxas e meus quadris fartos eram uma afronta à delicadeza da corte, que minhas mãos calejadas envergonhavam os salões de seda de Silver Moon. E, no fim, aquele covarde fugira na primeira oportunidade, fraco demais para suportar o peso da fêmea que o destino colocara em seu caminho. Mas Rowan não estava fugindo. Ele estava ali, imenso, uma muralha viva de força bruta, cicatrizes e autoridade selvagem, farejando minha pele limpa como se eu fosse o único banquete capaz de saciar um invern
A noite fechou-se sobre a Fortaleza dos Espinhos com o peso de uma mortalha gélida. Do lado de fora da fresta estreita na rocha, o vento uivava como centenas de feras famintas, chicoteando as ameias de granito e atirando punhados de gelo contra a cantaria bruta. Dentro da câmara, o único som que rompia o silêncio pesado era o estalar lento das toras de pinho na lareira, que soltavam fagulhas alaranjadas na escuridão. A servente idosa de passos ligeiros havia entrado pouco antes do anoitecer, escoltada por um dos sentinelas de Torin. Ela depositara sobre a mesa de carvalho negro uma travessa de cerâmica fumegante com ensopado espesso de carne de cervo, raízes amargas cozidas e um naco generoso de pão escuro de cevada. A mulher mal ousara levantar os olhos do chão; suas narinas tremeram ao captar o odor denso de Rowan misturado à cinza da forja na minha pele, e ela fez uma reverência quase apressada antes de se retirar, ouvindo a t
A caverna das forjas pareceu subitamente vazia e gelada no instante em que a silhueta de Rowan desapareceu pela rampa de pedra. O calor das fornalhas ainda estalava nas paredes de rocha, mas a atmosfera perdera aquele pulso magnético e sufocante que o Alfa carregava consigo. Soltei o ar com força pelos dentes, sentindo os tremores da adrenalina começarem a cobrar o preço nos meus músculos. Desatei as tiras de couro cru do avental com puxões secos, jogando a peça de proteção sobre a bigorna fria de Harek. Fui até o caixote de madeira no canto, resgatei minha túnica pesada de lã cinzenta forrada de pele e vesti-a com pressa para conter o choque térmico que começava a gelar o suor acumulado nas minhas costas e no meu peito. Torin aproximou-se a passos lentos. Ele limpou com desdém uma lasca de metal incandescente presa ao cano de sua bota e fez um sinal com a cabeça em direção ao arco das escadas. — O Alfa falou, garota de ferro
O sangue pulsava com força descompassada nos meus ouvidos, martelando em compasso com o zumbido das fornalhas que esfriavam às minhas costas.A menção aos mastins de Silver Moon fez o chão sob minhas botas parecer suspenso sobre um abismo. Eu conhecia bem aquelas feras de caça; eram mantidas nos canis reais sob a supervisão direta da guarda de elite de Zander. Eram alimentadas com carne crua e sangue de presas em fuga, treinadas para farejar dissidentes, escravos em revolta ou alvos feridos através de dezenas de léguas de mata fechada. Se aqueles cães encontrassem o marco divisório e começassem a cavar a camada fina de neve soprada pelo vento, encontrariam vestígios.Uma lasca de couro da minha bota desgastada nas pedras pontiagudas. Fios de lã verde-oliva da túnica que vesti ao fugir de Oakhaven. O cheiro de cinzas ancestrais impregnado nos meus poros. Saberiam que a loba errante não era uma criatura indefesa qualquer, mas a herdeira da Linhagem de Ferro que ousara erguer o queixo
O silêncio nas forjas durou até o som pesado das botas de Rowan ecoar pela escadaria de ferro da passarela. Cada passo do Alfa descia com a cadência ritmada de um predador que não precisava de pressa para encurlar ninguém. Os ferreiros ao redor baixaram os olhos, dando um passo discreto para trás em reverência involuntária. Até mesmo o velho Harek recuou um palmo da bigorna, segurando o pedaço de ferro partido como se fosse uma relíquia. Eu permaneci exatamente onde estava. Tirei as luvas pesadas de couro cru, jogando-as sobre a bancada. O linho da minha camisa continuava colado à curva do meu peito pelo suor e pela fuligem, e a respiração saía quente dos meus pulmões. Não baixei a cabeça quando a sombra colossal de Rowan cobriu o espaço entre nós. Ele parou a dois passos de mim. A aura do Alfa Supremo de Frostveil era quase física; uma parede invisível de densidade que fazia a pele da minha nuca arrepiar. Seus olhos cinzento-tempestade desceram sobre o meu rosto enfarrusc
CAPÍTULO 7: As Forjas da Muralha A aurora mal havia rompido a linha dos picos denteados quando o som rítmico de aço contra ferro começou a reverberar pela rocha da Fortaleza dos Espinhos. O quarto ainda estava imerso em sombras azuladas e frias, mas o cheiro de brasa, cinzas minerais e fumaça densa invadia a ventilação, agindo sobre meus sentidos como um chamado de sangue. A queimação entre as minhas pernas havia cedido à dormência das ervas de Marta, restando apenas uma rigidez muscular nos quadris e a mordida de contenção no meu ombro esquerdo, que latejava em pontadas surdas sob o curativo de linho. Vesti a túnica cinzenta, ajustei o cinto largo de couro cru na cintura e prendi os cabelos compridos em uma trança grossa e apertada para que nenhum fio ficasse solto perto do fogo. Ao destrancar a pesada porta de carvalho, encontrei um guerreiro encostado na parede de pedra oposta. Tinha os braços cruzados sobre o peito e uma cicatriz grossa rasgando o supercílio direito até a maç







