LOGINEm um mundo onde todos carregam um lobo dentro de si, Lira sempre foi considerada uma falha. Diferente de sua irmã gêmea, Lívia, ela nunca despertou seu lado animal - e por isso passou a vida sendo ignorada, diminuída e tratada como se não valesse nada pela própria família. Ela tenta ser forte, mas, tudo desaba quando ela encontra o noivo nos braços da própria irmã gêmea. Cansada de tanta crueldade, Lira foge de casa e perde a consciência no meio da floresta fria e perigosa.
View MoreO sol nascia suavemente sobre as colinas cobertas de mata, banhando de luz dourada as casas de madeira e pedra que formavam a nossa alcatéia. Para todos ali, aquele brilho matinal era um sinal de força, de vida, da essência que corria em cada veia: o lobo, parte de si mesmos, que despertava cedo ou tarde, dando poder, instinto e identidade a cada um. Mas para mim, Lira, aquela luz parecia sempre chegar mais fraca, como se nem ela mesma tivesse coragem de tocar‑me.
Cresci ouvindo as mesmas frases, repetidas tantas vezes que se tornaram parte do meu próprio pensamento: “Que pena… nasceu sem o dom”, “Uma gêmea forte e completa, a outra… apenas sombra”, “Como pode ser filha nossa se não traz nada dentro de si?”. Ao meu lado, desde o primeiro suspiro, estava Lívia — minha irmã idêntica na aparência, mas tão diferente em tudo o resto. Ela despertara seu lobo ainda na infância: ágil, destemida, com olhos que brilhavam como fogo, sempre elogiada, sempre cercada de atenções, o orgulho e a alegria de nossos pais. Eu… eu permaneci quieta, calada, esperando. Mas o que todos esperavam nunca chegou. Nossa casa era espaçosa e cheia de vida quando se tratava dela. Os presentes, os convites, os olhares de admiração — tudo fluía para Lívia. Comigo, o silêncio. Eu passava os dias tentando ser útil, arrumando, ajudando, estudando, aprendendo tudo o que podia, na esperança de que, mesmo sem um lobo, houvesse algo em mim que valesse a pena. Mesmo assim, nas reuniões da alcatéia, nas festas, nas conversas entre vizinhos, eu sentia os olhares pesados, as palavras baixas, o desprezo disfarçado de piedade. “Fraca”, “incompleta”, “sem valor”. Palavras que cortavam fundo, mas que aprendi a guardar no peito, sorrindo e fingindo não ouvir. Até que apareceu Rômulo. Ele era um jovem alfa, forte, promissor, com um futuro brilhante dentro da liderança da alcatéia. Quando escolheu‑me para ser sua noiva, ninguém acreditou — nem eu mesma. Lembro‑me do dia em que ele segurou minhas mãos com firmeza e olhou nos meus olhos: “Lira, não importa o que dizem. Vejo o seu coração, e isso é o que realmente conta”. Aquelas palavras foram como uma luz que finalmente brilhou para mim. Pela primeira vez, senti que havia encontrado o meu lugar, a pessoa que me veria de verdade, que me amaria e me daria o valor que nunca tive. Desde então, vivi apenas para esse sonho. Cada detalhe do casamento, cada pensamento, cada esperança — tudo girava em torno de construir uma vida ao lado dele. Eu acreditava sinceramente que, ao seu lado, deixaria de ser invisível. Que finalmente seria suficiente. Naquela manhã especial, saí cedo de casa com o coração batendo forte no peito. Sabia exatamente onde ir: uma pequena loja de tecidos e roupas, escondida numa rua calma, onde costumavam fazer peças únicas e delicadas. Caminhei pelas ruas da vila sentindo o ar fresco da manhã, ignorando os olhares curiosos e os comentários que ainda chegavam até mim. Nada disso importava mais. Em breve, tudo mudaria. Ao entrar no ambiente acolhedor, cheio de cheiro de tecidos novos e flores secas, meus olhos percorreram cada peça exposta — até que pararam em um vestido pendurado discretamente no fundo, como se estivesse esperando apenas por mim. Era simplesmente perfeito. Feito de tecido leve e branco como a neve, com detalhes delicados de rendas que pareciam feitas à mão, caía com suavidade até o chão, com um corte que valorizava cada curva sem perder a doçura. Ao tocar o tecido macio, senti uma alegria tão grande que quase chorei. Era exatamente como eu havia sonhado: puro, belo, cheio de esperança. Com as mãos trêmulas de emoção, pedi para prová‑lo. Ao olhar‑me no espelho grande e antigo ali presente, quase não me reconheci — parecia finalmente uma mulher digna de ser amada. Paguei rapidamente, envolvi o vestido com muito cuidado e saí com passos leves, ansiosa para encontrar Rômulo e mostrar‑lhe o que escolhera. Queria ver o brilho nos seus olhos, ouvi‑lo dizer que eu era a mais bela de todas, confirmar mais uma vez que fizera a escolha certa ao me querer. Segui em direção à casa dele, com o coração cheio de uma felicidade ingênua e completa. Não imaginava que, ao cruzar aquela porta aberta, o meu mundo iria desabar de vez. Ao aproximar‑me do quarto onde ele costumava ficar, ouvi vozes baixas, carregadas de uma intimidade que me fez parar imediatamente. Uma delas era a de Rômulo. A outra… reconheceria em qualquer lugar, em qualquer canto do mundo: era a voz da minha própria irmã gêmea, Lívia. Algo gelado percorreu todo o meu corpo, mas me obriguei a dar mais um passo, empurrando suavemente a porta entreaberta. O que viu meus olhos fez o chão desaparecer sob os meus pés. Eles estavam entrelaçados, abraçados com uma paixão que nunca vi entre nós dois. Rômulo segurava‑a com carinho, beijava‑lhe o rosto, o pescoço, como se ela fosse tudo o que desejava. E Lívia sorria, daquele seu jeito confiante e vitorioso, enquanto passava os dedos pelos cabelos dele. — Você sim é tudo o que uma alfa merece — ouvi ele dizer, com a voz cheia de admiração. — Forte, brilhante, completa… diferente da sua irmã, que não passa de uma sombra vazia, sem graça e sem nada a oferecer. Ainda bem que logo deixarei para trás esse compromisso sem sentido. Você é a única que eu sempre quis. — Eu sabia que veria a verdade um dia — respondeu ela, com um tom de satisfação que me cortou como uma lâmina afiada. — Lira nunca foi nada ao meu lado. Só serviu para atrapalhar, mesmo sem querer. Agora finalmente tudo vai ficar como deveria ser desde o início. Senti o ar faltar nos meus pulmões, as pernas ficarem moles, o pacote com o vestido perfeito escorregar lentamente dos meus dedos e cair ao chão, fazendo um barulho pequeno mas que pareceu ecoar por todo o universo. Naquele instante, entendi tudo. Cada olhar que trocavam disfarçadamente, cada vez que Lívia aparecia “por acaso” onde estávamos, cada desculpa de Rômulo para adiar o nosso casamento… nunca fui mais do que um engano, uma obrigação da qual ele queria se livrar. E a minha irmã, a pessoa que deveria ser a minha primeira amiga e companheira, tramara tudo isso às minhas costas, alimentada por uma inveja que eu nem sequer imaginava existir. A dor foi tão forte que pareceu que iria partir‑me ao meio, mas misturou‑se de repente com uma fúria que nunca senti em toda a minha vida — um fogo que queimava cada gota de ingenuidade que ainda restava em mim. Não haveria mais esperanças. Não haveria mais sonhos. A partir daquele momento, só restava uma verdade dura e cruel: eu estava sozinha, e o mundo que eu conhecia acabara de ruir diante dos meus olhos.Nos primeiros dias depois do despertar, descobri rapidamente uma coisa: ter uma força imensa e sentidos que captam cada som, cada cheiro, cada movimento ao redor é maravilhoso… mas também pode ser terrivelmente embaraçoso quando ainda não sabemos lidar com tudo isso.Passei a vida toda a sentir‑me fraca, pequena e sem capacidade para quase nada — e de repente, parecia que havia uma energia enorme a correr‑me nas veias, pronta para sair a qualquer momento, mais forte do que eu conseguia controlar. Os primeiros acidentes aconteceram quase de imediato: ao tentar abrir uma porta comum, puxei a maçaneta com mais força do que pensava e arranquei‑a de vez, fazendo‑a cair no chão com um barulho enorme. Quando me assustei com um som inesperado, dei um passo rápido demais e esbarrei numa mesa de madeira maciça, que se partiu ao meio como se fosse feita de papel. Até mesmo ao tentar fechar uma janela com suavidade, acabei por empurrar com tanta potência que a estrutura inteira saiu das dobradiça
Quando voltei a mim, a primeira coisa que senti foi a suavidade dos lençóis de algodão e o calor de mãos grandes e firmes a segurarem as minhas com carinho. Abri os olhos devagar, ainda atordoada e com a cabeça a girar levemente, e vi‑me rodeada por eles: Dante, Kaique e Enzo estavam ali, sentados à volta da cama, com expressões de profunda preocupação, mas também de uma ternura que me acalmou imediatamente. Ao lado, Cora permanecia atenta, pronta para ajudar se precisasse.— Não se assuste, querida — disse Dante suavemente, acariciando‑me o dorso da mão com o polegar. — Está segura, estamos todos aqui consigo. Não há nada nem ninguém que possa magoá‑la novamente.Respirei fundo, tentando organizar os pensamentos que ainda pareciam confusos e espalhados, mas uma pergunta queimava‑me nos lábios e não podia esperar mais:— Diga‑me… o que descobriu realmente? Quem foi capaz de fazer uma coisa destas comigo? E porquê?Cora assentiu com seriedade, aproximando‑se um pouco mais e mantendo‑se
Os dias seguintes passaram‑se numa calma que eu já começava a achar que seria eterna, como se finalmente tivesse encontrado um porto seguro onde as tempestades do passado não pudessem mais chegar. Bella, que se tornara a minha melhor amiga e confidente, apareceu uma manhã com os braços cheios de livros de capas coloridas e atraentes, os olhos brilhando de alegria ao me entregar tudo.— Sei que gosta de ler, e pensei que talvez gostasse de conhecer estas histórias — disse ela, sorrindo docemente. — Falam de amores fortes, de laços que o tempo não destrói e de pessoas que encontram o seu lugar exatamente onde menos esperavam. Espero que goste tanto quanto eu gostei.Agradeci‑lhe com o coração cheio de gratidão, e nos dias que se seguiram mergulhei de cabeça naquelas páginas, vivendo cada aventura ao lado das personagens, sentindo as suas alegrias e as suas dores como se fossem minhas. Eram histórias belas, cheias de paixão, entrega e fidelidade, e por vezes me pegava a suspirar, desejan
Os dias iam passando de forma calma e leve, e eu acabava perdendo a noção de datas e horários — pela primeira vez na vida, não havia cobranças, tarefas obrigatórias nem a sensação de estar sempre atrasada ou fora do lugar. Por isso, quando acordei naquela manhã, nem sequer lembrei‑me de que era o dia em que completava mais um ano de vida.Para mim, aquela data deixara de ter qualquer significado há muito tempo. Lembrava‑me bem de quando éramos pequenas: os aniversários eram sempre comemorações duplas, bolos grandes, presentes para as duas, atenção dividida igual. Mas com o tempo, tudo mudou pouco a pouco, até que restou apenas o aniversário de Lívia. As festas, os parabéns, os presentes, as palavras de carinho — tudo passou a ser dirigido exclusivamente a ela. Eu continuava ali, ao lado, quase invisível, ouvindo os parabéns como se fossem para uma pessoa estranha, e ninguém nunca mais mencionou que eu também nascera naquele mesmo dia.Acostumei‑me a isso. Aprendi a não esperar nada, a












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