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CAPÍTULO 2: A Fronteira de Gelo

Author: Lu Viana
last update publish date: 2026-08-31 07:05:11

A vegetação cerrou-se sobre mim como garras escuras à medida que a subida da montanha se tornava íngreme. O cheiro de terra molhada, musgo e agulhas de pinheiro substituiu o ar pesado da cidade, mas meus pulmões não encontravam ar suficiente. A cada respiração, o calor dentro de mim parecia sugar qualquer resquício de energia consciente.

Minhas pernas queimavam pelo esforço de subir a encosta pedregosa. Meus quadris largos e minhas coxas robustas, sempre motivos de zombaria na corte fútil de Silver Moon, eram o que me mantinham em pé, forçando a passagem entre raízes retorcidas e galhos baixos. A túnica estava ensopada de suor e orvalho gelado, colando-se ao meu peito pesado e marcando cada contorno da minha cintura.

Minha loba arranhava a barreira da minha mente com um desespero cego. Não era uma transformação coordenada; era um espasmo descontrolado de sobrevivência. O cio acumulado de seis meses agia como veneno e combustível ao mesmo tempo, enviando choques elétricos por toda a minha coluna vertebral. Meus ossos rangeram em um protesto mudo, os dentes caninos alongaram-se contra a minha gengiva e o mundo ao meu redor ganhou tons aguçados de azul e cinza.

O cheiro do meu próprio corpo estava forte demais. O almíscar denso e doce de uma fêmea no auge do calor hormonal expandia-se pela mata como uma fumaça invisível, levada pelo vento cortante que descia dos picos.

Qualquer sentinela num raio de cinco quilômetros já sabe que estou aqui.

O pensamento trouxe um lampejo de pânico lúcido, mas meus pés não paravam. Eu sabia o que acontecia com invasores que cruzavam as marcas territoriais de Frostveil. As lendas contavam que o Alfa Rowan não tolerava incursões, que seus guerreiros eram lobos selvagens e impiedosos, treinados no gelo para abater intrusos antes que pudessem explicar suas razões.

Mas a febre não me dava escolha.

Alcancei uma crista rochosa onde a floresta se abria abruptamente em um desfiladeiro. O ar aqui era tão gélido que pequenas partículas de neve flutuavam no vento, colidindo contra minha pele superaquecida com um chiado quase audível. Diante de mim, esculpidas no topo do platô cinzento, erguiam-se as torres colossais de pedra escura da Fortaleza dos Espinhos.

Foi quando atravessei a linha invisível.

O estalo do poder ancestral de uma marca de fronteira reverberou pelos meus ossos. Uma onda de magia territorial, densa e pesada como granito, atingiu meu peito com a força de um impacto direto. A soberania de Frostveil rejeitou minha intrusão, e a dor da cicatriz na minha clavícula — a marca podre da rejeição de Zander — ardeu como se ferro em brasa tivesse sido pressionado contra a minha pele.

Gritei, caindo de joelhos sobre as pedras afiadas cobertas de geada.

As pedras rasgaram a bainha da minha saia e cortaram a pele dos meus joelhos e palmas das mãos, mas a dor física era irrelevante comparada ao turbilhão que consumia meu sangue. O cio explodiu em uma onda final e implacável, drenando o restante das minhas forças. Minha visão escureceu nas bordas, o mundo girou e a loba dentro de mim soltou um ganido exausto, tombando na escuridão.

Deitada sobre a rocha fria, com a respiração curta e trêmula formando nuvens densas de vapor no ar, fechei os olhos, preparando-me para a morte ou para o dente de um guarda sem piedade.

Então, a floresta ao redor calou-se por completo.

Os pássaros noturnos cessaram os cantos. O sussurro do vento entre os pinheiros pareceu congelar no ar. Uma presença avassaladora, carregada de uma autoridade tão crua e dominante que fazia o próprio chão vibrar, emergiu da escuridão entre as árvores.

O ar foi tomado por um novo cheiro. Não o cedro falso e adocicado do sul, mas um perfume denso e magnético de tempestade de inverno, pinheiro queimado e ozônio puro.

Passos pesados e deliberados estalaram sobre o gelo fino da trilha.

Forcei minhas pálpebras pesadas a se abrirem, lutando contra o desmaio iminente. Entre as sombras densas dos pinheiros, um lobo negro colossal, de ombros largos como muralhas e olhos cinzento-tempestade que queimavam com uma luz sobrenatural, deu um passo em direção ao meu corpo caído.

Ele não rosnou. Não atacou.

A fera colossal parou a um passo de mim, farejando o ar saturado com o meu cheiro e fixando aqueles olhos cinzentos diretamente nos meus, como se estivesse diante de um enigma que o destino acabara de jogar aos seus pés.

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