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CAPÍTULO 7: As Forjas da Muralha

Author: Lu Viana
last update publish date: 2026-09-24 00:09:39

CAPÍTULO 7: As Forjas da Muralha

A aurora mal havia rompido a linha dos picos denteados quando o som rítmico de aço contra ferro começou a reverberar pela rocha da Fortaleza dos Espinhos.

O quarto ainda estava imerso em sombras azuladas e frias, mas o cheiro de brasa, cinzas minerais e fumaça densa invadia a ventilação, agindo sobre meus sentidos como um chamado de sangue. A queimação entre as minhas pernas havia cedido à dormência das ervas de Marta, restando apenas uma rigidez muscular nos quadris e a mordida de contenção no meu ombro esquerdo, que latejava em pontadas surdas sob o curativo de linho.

Vesti a túnica cinzenta, ajustei o cinto largo de couro cru na cintura e prendi os cabelos compridos em uma trança grossa e apertada para que nenhum fio ficasse solto perto do fogo.

Ao destrancar a pesada porta de carvalho, encontrei um guerreiro encostado na parede de pedra oposta. Tinha os braços cruzados sobre o peito e uma cicatriz grossa rasgando o supercílio direito até a maçã do rosto. Seus olhos castanho-escuros desceram sobre mim com um julgamento quieto, mas desprovido do ódio cego do velho Kenneth.

— O Alfa disse que você saberia o caminho pelo cheiro do carvão — disse ele, a voz ríspida como atrito de cascalho. — Sou Torin, comandante da guarda. Vamos ver se as mãos de uma fêmea de Silver Moon sabem segurar uma tenaz ou se o aço do Norte vai rachar os seus pulsos.

— Silver Moon nunca me ensinou nada sobre metal — respondi, sustentando o olhar dele. — Minha linhagem sangrou sobre a bigorna muito antes de as cortes do Sul trocarem armaduras por brocados de seda.

Torin soltou um resfolegar que quase pareceu um riso seco e me fez sinal para segui-lo.

Descemos por escadarias em espiral esculpidas na própria espinha da montanha até que o calor começou a expulsar a geada do ar. O corredor abriu-se para uma caverna colossal escavada ao longo da muralha leste: as Forjas de Frostveil.

O lugar era um inferno organizado de fuligem e poder. Dez fornos gigantescos rugiam com fogo alaranjado e azul, alimentados por dutos de ar forçado. Dezenas de operários e ferreiros de ombros largos trabalhavam em ritmo furioso, martelando lâminas de machado, malhas de anéis e pontas de lanças pesadas. O vapor sibilava toda vez que uma peça rubra era mergulhada nas tinas de têmpera.

No centro da nave principal, diante da maior bigorna de ferro maciço do recinto, estava um homem idoso, atarracado e corpulento, com a barba queimada pelas fagulhas e braços tão grossos quanto toras de carvalho.

— Mestre Harek — chamou Torin, a voz superando o estrondo dos martelos. — Esta é a fêmea do Sul sob guarda do Alfa. Freya da Linhagem de Ferro. Ela veio cumprir a parte dela no sustento da fortaleza.

O velho ferreiro parou o martelo no ar e virou-se devagar. Seus olhos pequenos e cobertos por sobrancelhas espessas de poeira de carvão avaliaram meu corpo de cima a baixo com um escárnio mal disfarçado. Ele olhou para os meus quadris largos, para o volume do meu peito sob a lã e soltou um cuspe escuro no chão de pedra.

— Uma mulher do Sul na minha oficina? — a voz de Harek soou como ferro raspando em ferro fundido. — O Alfa enlouqueceu ou decidiu que precisamos de enfeites perto das brasas? As donzelas de Silver Moon quebram as unhas se segurarem uma faca de caça. Aqui nós dobramos minério bruto de montanha para resistir a dentes de feras e ao gelo que racha aço comum.

Alguns dos ferreiros mais jovens nas bigornas próximas pararam o trabalho para rir, trocando olhares desdenhosos.

Minha loba eriçou-se sob a pele. Dei três passos à frente, parando a menos de um palmo da bigorna dele. O calor da fornalha atingiu meu rosto, familiar, acolhedor e vivo.

— Você está perdendo trinta por cento do carbono dessa barra — apontei para a peça de metal incandescente que ele acabara de tirar do fogo. — Está aquecendo rápido demais com carvão comum sem purificar o enxofre. Quando temperar essa lâmina no óleo frio, o núcleo vai ficar quebradiço. No primeiro golpe contra um escudo de carvalho na Crista das Agulhas, essa espada vai se partir ao meio como vidro.

O riso dos homens morreu no ar.

Harek estreitou os olhos, as veias grossas do pescoço saltando sob a fuligem.

— O que uma forasteira pensa que sabe sobre a forja de Frostveil?

— Eu sei que o ferro do Norte é rico em magnetita, mas vocês o tratam com a brutalidade de quem só conhece força bruta, e não a alma do minério — dei um passo para trás, desabotoei a pesada túnica de lã forrada e atirei-a sobre um caixote de madeira, ficando apenas na camisa de linho cru. Peguei um avental pesado de couro curtido pendurado em um gancho e passei-o pela cabeça com a naturalidade de anos de ofício. — Dê-me uma barra bruta e uma bigorna vazia, mestre Harek. Se o aço que eu dobrar trincar no teste de impacto, eu mesma me coloco para fora dos portões desta fortaleza antes do anoitecer.

Harek encarou Torin, que apenas ergueu uma sobrancelha, encostado em um pilar de sustentação com um olhar de expectativa calculada.

— Muito bem — rosnou o velho armeiro, batendo uma marreta pesada sobre o cepo de apoio. — Bigorna três. Tem um bloco de minério negro no braseiro. Dobre, limpe e faça a têmpera de uma lâmina de quebra-escudo. Se falhar, eu mesmo a arrasto para fora da oficina.

Arregacei as mangas de linho até os cotovelos, expondo meus antebraços fortes, talhados pelo trabalho pesado.

Enfiei a barra de minério negro no coração das brasas com a tenaz longa e comecei a puxar a alavanca do fole com cadência exata, oxigenando o fogo sem queimar o metal. O calor subiu em ondas, empurrando o suor para a superfície da minha pele, descendo pelo meu pescoço e colando o linho ao meu peito farto.

Passei o ciclo de forjamento seguinte imersa no único mundo que nunca me traiu.

A cada saída da fornalha na cor laranja-cereja exata, eu posicionava a peça sobre a bigorna e descia o martelo com toda a força dos meus ombros e das minhas costas. No primeiro golpe, uma pontada aguda ardeu no meu ombro esquerdo — os furos da mordida de Rowan protestando contra a tração muscular —, mas cerrei os dentes e canalizei a dor em cada impacto.

Clang! Clang! Clang!

Eu dobrava o aço sobre si mesmo, aplicava a areia de sílica como fundente para purificar a escória, aquecia novamente e voltava a bater com ritmo implacável. O peso dos meus quadris largos e das minhas pernas sólidas plantadas contra as lajes frias dava a estabilidade perfeita para absorver o recuo do ferro sem oscilar.

Os homens ao redor foram diminuindo o ritmo de seus martelos, até que quase todos observavam em silêncio a mulher de formas fartas dominar o aço com a técnica de um ferreiro ancestral.

Após a terceira dobra e a conformação da lâmina bruta com sua espiga maciça, mergulhei a peça na tina de salmoura morna com casca de carvalho triturada, girando a tenaz para garantir o resfriamento uniforme. O vapor subiu em uma coluna espessa com um sibilo furioso. Em seguida, enterrei o corpo da lâmina no leito de cinzas quentes da borda da fornalha por alguns minutos, permitindo que o calor suave aliviasse as tensões internas da têmpera sem perder o fio de corte.

Retirei o aço das cinzas e passei a escova de arame de bancada com firmeza, removendo a carepa escura. A lâmina cinzenta revelou veios ondulados e densos — o padrão inconfundível do aço dobrado de alta tenacidade.

Harek aproximou-se em passos lentos. Ele pegou uma barra pesada de ferro fundido usada para travar portões e fixou-a transversalmente sobre o cepo de sacrifício de carvalho.

— Vamos ver se aguenta impacto real sem dentes — disse o velho.

Limpei o suor da testa com a dobra do antebraço esquerdo, calcei luvas pesadas de couro cru e peguei a tenaz longa com anel de travamento. Prendi a espiga da lâmina com o aro de pressão, garantindo que o aço ficasse fixo sem qualquer oscilação, e apoiei o fio afiado transversalmente sobre a barra de ferro fundido. O dorso reto e espesso da lâmina ficou exposto para cima, oferecendo a base exata de impacto.

Mantive os braços estendidos segurando o final das hastes longas da tenaz, com o tronco recuado para evitar lascas. Olhei nos olhos de Torin.

— Marreta de sacrifício — ordenei, a voz firme sobre o crepitar das brasas. — Desça o golpe no dorso. Sem piedade.

Torin assentiu, ajustou as botas nas lajes e ergueu a marreta pesada de duas mãos acima dos ombros. Com a força bruta de um veterano de guerra, desceu o bloco de aço em um arco violento direto contra o dorso da lâmina.

BANG!

O impacto ensurdecedor reverberou pela caverna subterrânea como um disparo de canhão. A onda de choque fez o cepo de carvalho gemer na base. A lâmina agiu como uma cunha implacável, mordendo o metal inferior e partindo a barra de ferro fundido ao meio com um estalo seco. As duas metades da barra caíram pesadas sobre o chão de pedra.

A lâmina forjada permaneceu inteira: a linha de corte reta, lisa e sem uma única fissura ou deformação.

O silêncio na caverna foi absoluto.

Harek ajoelhou-se, pegou um dos pedaços de ferro quebrado com luvas de proteção e examinou o corte limpo com os olhos arregalados. Depois, passou os dedos trêmulos pelas ondas escuras da lâmina que forjei.

— Aço dobrado com alma tenaz... — murmurou o velho ferreiro, a voz desprovida de qualquer zombaria. Ele ergueu os olhos para mim, o respeito gravado nas rugas cobertas de fuligem. — Isso não é técnica de amador. É segredo de linhagem pura de forja.

— Eu disse — respondi, puxando o ar gelado para os pulmões. — Minhas mãos não pertencem à seda.

Antes que Torin pudesse falar, uma pressão pesada e magnética desceu sobre a caverna. O cheiro de pinho congelado, tempestade e ozônio espalhou-se pela galeria como uma névoa invisível de autoridade.

Ergui os olhos para a passarela superior de ferro que contornava as forjas.

Rowan estava lá.

Apoiado no parapeito de ferro, com sua capa de pele de urso sobre os ombros imensos, o Alfa observava tudo. Seus olhos cinzentos faiscavam nas sombras com uma intensidade voraz e predatória que fez o ar faltar nos meus pulmões. Ele havia assistido ao teste. E em seu olhar não havia apenas a avaliação fria de um líder medindo um recurso — havia o reconhecimento faminto de um lobo diante de sua igual.

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