Home / Lobisomem / A LUNA FORA DOS PADRÕES / CAPÍTULO 8: O Preço do Aço

Share

CAPÍTULO 8: O Preço do Aço

Author: Lu Viana
last update publish date: 2026-09-25 06:52:01

O silêncio nas forjas durou até o som pesado das botas de Rowan ecoar pela escadaria de ferro da passarela.

Cada passo do Alfa descia com a cadência ritmada de um predador que não precisava de pressa para encurlar ninguém. Os ferreiros ao redor baixaram os olhos, dando um passo discreto para trás em reverência involuntária. Até mesmo o velho Harek recuou um palmo da bigorna, segurando o pedaço de ferro partido como se fosse uma relíquia.

Eu permaneci exatamente onde estava.

Tirei as luvas pesadas de couro cru, jogando-as sobre a bancada. O linho da minha camisa continuava colado à curva do meu peito pelo suor e pela fuligem, e a respiração saía quente dos meus pulmões. Não baixei a cabeça quando a sombra colossal de Rowan cobriu o espaço entre nós.

Ele parou a dois passos de mim.

A aura do Alfa Supremo de Frostveil era quase física; uma parede invisível de densidade que fazia a pele da minha nuca arrepiar. Seus olhos cinzento-tempestade desceram sobre o meu rosto enfarruscado, seguiram o contorno do meu pescoço molhado de suor, deslizaram pelo decote da camisa de linho que mal continha a curva firme dos meus seios fartos e pararam nas minhas mãos calejadas.

Não havia nojo. Não havia o desprezo fútil com que os nobres de Silver Moon me mediam. Havia apenas uma fome crua, concentrada, perigosamente controlada pela disciplina militar.

Rowan estendeu a mão grande e pegou a lâmina que eu havia acabado de forjar sobre o cepo.

Ele não usou luvas. O aço ainda conservava o calor residual da têmpera e da fricção do impacto violento contra o ferro, mas as palmas calejadas do guerreiro fecharam-se sobre o metal sem hesitação. Seus dedos longos testaram o equilíbrio da peça, girando a lâmina no ar com a destreza assustadora de quem matava desde jovem. O aço cortou o ar em um zumbido perfeito, sem a menor vibração parasita.

— Uma quebra-escudo com três dobras e alma tenaz — disse Rowan, a voz rouca e profunda vibrando direto na base da minha coluna. Ele fixou o olhar afiado no velho armeiro. — Quantas lâminas desse nível suas bigornas entregam por mês, Harek?

O mestre ferreiro limpou a garganta ressecada, a empáfia da manhã completamente desfeita.

— Nenhuma, Alfa. Esse método exige cálculo de temperatura a olho limpo e domínio de fundente que se perdeu com a queima dos arquivos nas guerras antigas. Se tentarmos dobrar o minério negro sem a proporção exata de sílica, o aço racha na têmpera.

— Pois agora temos quem saiba — retrucou Rowan, sem tirar os olhos de mim. Ele cravou a lâmina verticalmente no topo do cepo de carvalho com um único movimento seco do pulso. O aço afundou três dedos na madeira maciça e parou, firme como rocha. — A partir de hoje, Freya assume a supervisão da têmpera e da armaria de defesa da Muralha Leste. Todos os lotes de ferro negro passarão pelas mãos dela antes de serem distribuídos às guarnições.

Um murmúrio de surpresa correu pelos ferreiros e aprendizes no fundo da caverna. Dar a uma recém-chegada do Sul a chave da produção de armas de uma fortaleza militar era um decreto ousado — uma afronta direta à ala conservadora de Kenneth.

Torin deu um passo à frente, cruzando os braços com um sorriso de canto discreto.

— Kenneth vai cuspir sangue quando souber, senhor.

— Deixe que cuspa — rebateu Rowan, a mandíbula quadrada travada com frieza imperial. — O inverno não perdoa velhos teimosos, e lâminas cegas não param as investidas da fronteira. Quem manda nas forjas é quem faz o metal obedecer.

Rowan deu mais um passo na minha direção. A distância entre nossos corpos encurtou tanto que pude sentir o calor do peito dele atravessando o couro da túnica, carregado daquele perfume inebriante de pinho cortado, tempestade e ozônio que havia impregnado meus sentidos na noite da montanha. Minha loba deu uma volta ansiosa sob a minha carne, arranhando meu íntimo com uma lembrança viva do peso implacável do corpo dele sobre o meu na rocha congelada.

Ele inclinou o rosto alguns centímetros, falando baixo o bastante para que apenas eu ouvisse por cima do zumbido das fornalhas:

— Seu ombro aguentou o peso do martelo, garota de ferro?

Ergui o queixo, encarando as chamas cinzentas dos olhos dele sem vacilar.

— O ferro da minha linhagem não pede licença a mordidas, Alfa.

Um lampejo carmesim cruzou a íris de Rowan — o lobo da besta despertando por uma fração de segundo em resposta ao meu desafio. Um meio sorriso quase imperceptível tocou o canto dos lábios dele.

— Ótimo. Porque você vai precisar de cada gota dessa força. Lave a fuligem do rosto e alimente-se. Ao meio-dia, você sobe à Torre da Guarda.

Franzi o cenho, surpresa.

— Pensei que meu lugar fosse na bigorna.

— As armas servem para a guerra, Freya — disse ele, dando meia-volta com a capa de pele chicoteando o ar frio da caverna. — E você vai me mostrar onde as armaduras dos soldados do seu antigo lar são fracas o bastante para que as minhas lâminas as atravessem como manteiga.

Antes que eu pudesse responder, o som de passos apressados ecoou pela rampa de acesso.

Um batedor jovem da guarda da fronteira, com o casaco de pele coberto por uma crosta grossa de neve fresca e o peito arfando de exaustão, irrompeu nas forjas. Ele parou diante de Rowan e bateu o punho fechado contra o peito.

— Alfa! — a voz do rapaz veio trêmula pelo esforço na neve funda. — Os sentinelas da Garganta das Agulhas interceptaram movimentação na linha divisória. Uma patrulha de batedores de Silver Moon subiu a serra com cães de caça.

O ar na oficina pareceu perder vários graus em uma fração de segundo.

Rowan estreitou os olhos cinzentos em duas fendas perigosas. A presença esmagadora de seu Comando fez até o estalar das brasas parecer distante.

— Batedores do Sul cruzaram a linha neutra? — perguntou Torin, a postura endurecendo em prontidão militar.

— Não cruzaram o monólito, comandante — explicou o sentinela, recuperando o fôlego —, mas estão rondando as pedras da fronteira feito urubus. Disseram que estavam caçando nas encostas baixas e captaram o vento de uma fêmea desgarrada em pleno cio subindo a montanha na noite passada. Eles seguiram o rastro de calor até as pedras altas... mas disseram que o cheiro sumiu de repente, como se ela tivesse evaporado no ar.

Meu coração deu um baque seco contra as costelas.

Eles haviam sentido. Enquanto eu corria desesperada pela floresta humana com o sangue fervendo, o vento levara o aroma desgovernado do meu cio represado até os postos avançados do Sul. Mas quando Rowan quebrou a febre na neve, cravou a mordida de contenção e Marta me fez engolir a infusão amarga de raiz-de-gelo, meu corpo havia esfriado. O rastro simplesmente desaparecera no gelo.

— Eles estão desconfiados — continuou o batedor, olhando de soslaio para mim. — Os cães farejadores deles estão enlouquecidos no marco de fronteira, rosnando para o nosso lado. O líder da patrulha sulista teve a audácia de exigir passagem para revistar as nossas encostas, alegando que uma loba fugitiva de Silver Moon pode ter morrido na neve do nosso território.

Torin soltou uma praga baixa, a mão caindo pesada sobre o pomo da espada.

Rowan permaneceu impassível, mas a mandíbula quadrada travou com uma frieza cortante. Ele ajeitou a capa de urso sobre os ombros monumentais e virou-se devagar para a saída da caverna.

— Revistar o meu território? — a voz de Rowan saiu tão baixa, gutural e carregada de ameaça que os pelos dos meus braços se arrepiaram por inteiro. — Parece que a paz de trinta invernos deixou os cães de Silver Moon esquecidos do que acontece com quem fareja o chão de Frostveil.

Ele parou na rampa de subida e lançou um olhar sobre o ombro, fixando as orbes cinzentas diretamente nos meus olhos.

— Torin, dobre a guarda da Muralha Leste e mantenha a forja trancada — ordenou o Alfa, com um peso soberano que ecoou por toda a abóbada de pedra. — Eu mesmo vou até a Crista das Agulhas ensinar àqueles vermes que nada do que entra nas minhas montanhas pertence ao Sul.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • A LUNA FORA DOS PADRÕES   CAPÍTULO 12: Ferro e Fogo

    O ar entre nós estalava com a voltagem de um raio contido entre quatro paredes de cantaria. A borda de carvalho da mesa cravava-se na parte de trás das minhas coxas, mas eu não me sentia encurralada. Eu me sentia viva. Cada fibra dos meus músculos, cada gota de sangue forjada na poeira e no calor das bigornas da Linhagem de Ferro respondia à insolência predatória daquele macho. Zander passara anos tentando me diminuir. Dissera que meus ombros eram largos demais para uma companheira nobre, que minhas coxas e meus quadris fartos eram uma afronta à delicadeza da corte, que minhas mãos calejadas envergonhavam os salões de seda de Silver Moon. E, no fim, aquele covarde fugira na primeira oportunidade, fraco demais para suportar o peso da fêmea que o destino colocara em seu caminho. Mas Rowan não estava fugindo. Ele estava ali, imenso, uma muralha viva de força bruta, cicatrizes e autoridade selvagem, farejando minha pele limpa como se eu fosse o único banquete capaz de saciar um invern

  • A LUNA FORA DOS PADRÕES   CAPÍTULO 11: Sangue na Neve

    A noite fechou-se sobre a Fortaleza dos Espinhos com o peso de uma mortalha gélida. Do lado de fora da fresta estreita na rocha, o vento uivava como centenas de feras famintas, chicoteando as ameias de granito e atirando punhados de gelo contra a cantaria bruta. Dentro da câmara, o único som que rompia o silêncio pesado era o estalar lento das toras de pinho na lareira, que soltavam fagulhas alaranjadas na escuridão. A servente idosa de passos ligeiros havia entrado pouco antes do anoitecer, escoltada por um dos sentinelas de Torin. Ela depositara sobre a mesa de carvalho negro uma travessa de cerâmica fumegante com ensopado espesso de carne de cervo, raízes amargas cozidas e um naco generoso de pão escuro de cevada. A mulher mal ousara levantar os olhos do chão; suas narinas tremeram ao captar o odor denso de Rowan misturado à cinza da forja na minha pele, e ela fez uma reverência quase apressada antes de se retirar, ouvindo a t

  • A LUNA FORA DOS PADRÕES   CAPÍTULO 10: O Confinamento e a Vigília

    ​ ​A caverna das forjas pareceu subitamente vazia e gelada no instante em que a silhueta de Rowan desapareceu pela rampa de pedra. ​O calor das fornalhas ainda estalava nas paredes de rocha, mas a atmosfera perdera aquele pulso magnético e sufocante que o Alfa carregava consigo. Soltei o ar com força pelos dentes, sentindo os tremores da adrenalina começarem a cobrar o preço nos meus músculos. ​Desatei as tiras de couro cru do avental com puxões secos, jogando a peça de proteção sobre a bigorna fria de Harek. Fui até o caixote de madeira no canto, resgatei minha túnica pesada de lã cinzenta forrada de pele e vesti-a com pressa para conter o choque térmico que começava a gelar o suor acumulado nas minhas costas e no meu peito. ​Torin aproximou-se a passos lentos. Ele limpou com desdém uma lasca de metal incandescente presa ao cano de sua bota e fez um sinal com a cabeça em direção ao arco das escadas. ​— O Alfa falou, garota de ferro

  • A LUNA FORA DOS PADRÕES   CAPÍTULO 9: A Posse da Fera

    ​O sangue pulsava com força descompassada nos meus ouvidos, martelando em compasso com o zumbido das fornalhas que esfriavam às minhas costas.​A menção aos mastins de Silver Moon fez o chão sob minhas botas parecer suspenso sobre um abismo. Eu conhecia bem aquelas feras de caça; eram mantidas nos canis reais sob a supervisão direta da guarda de elite de Zander. Eram alimentadas com carne crua e sangue de presas em fuga, treinadas para farejar dissidentes, escravos em revolta ou alvos feridos através de dezenas de léguas de mata fechada. Se aqueles cães encontrassem o marco divisório e começassem a cavar a camada fina de neve soprada pelo vento, encontrariam vestígios.​Uma lasca de couro da minha bota desgastada nas pedras pontiagudas. Fios de lã verde-oliva da túnica que vesti ao fugir de Oakhaven. O cheiro de cinzas ancestrais impregnado nos meus poros. Saberiam que a loba errante não era uma criatura indefesa qualquer, mas a herdeira da Linhagem de Ferro que ousara erguer o queixo

  • A LUNA FORA DOS PADRÕES   CAPÍTULO 8: O Preço do Aço

    O silêncio nas forjas durou até o som pesado das botas de Rowan ecoar pela escadaria de ferro da passarela. Cada passo do Alfa descia com a cadência ritmada de um predador que não precisava de pressa para encurlar ninguém. Os ferreiros ao redor baixaram os olhos, dando um passo discreto para trás em reverência involuntária. Até mesmo o velho Harek recuou um palmo da bigorna, segurando o pedaço de ferro partido como se fosse uma relíquia. Eu permaneci exatamente onde estava. Tirei as luvas pesadas de couro cru, jogando-as sobre a bancada. O linho da minha camisa continuava colado à curva do meu peito pelo suor e pela fuligem, e a respiração saía quente dos meus pulmões. Não baixei a cabeça quando a sombra colossal de Rowan cobriu o espaço entre nós. Ele parou a dois passos de mim. A aura do Alfa Supremo de Frostveil era quase física; uma parede invisível de densidade que fazia a pele da minha nuca arrepiar. Seus olhos cinzento-tempestade desceram sobre o meu rosto enfarrusc

  • A LUNA FORA DOS PADRÕES   CAPÍTULO 7: As Forjas da Muralha

    CAPÍTULO 7: As Forjas da Muralha A aurora mal havia rompido a linha dos picos denteados quando o som rítmico de aço contra ferro começou a reverberar pela rocha da Fortaleza dos Espinhos. O quarto ainda estava imerso em sombras azuladas e frias, mas o cheiro de brasa, cinzas minerais e fumaça densa invadia a ventilação, agindo sobre meus sentidos como um chamado de sangue. A queimação entre as minhas pernas havia cedido à dormência das ervas de Marta, restando apenas uma rigidez muscular nos quadris e a mordida de contenção no meu ombro esquerdo, que latejava em pontadas surdas sob o curativo de linho. Vesti a túnica cinzenta, ajustei o cinto largo de couro cru na cintura e prendi os cabelos compridos em uma trança grossa e apertada para que nenhum fio ficasse solto perto do fogo. Ao destrancar a pesada porta de carvalho, encontrei um guerreiro encostado na parede de pedra oposta. Tinha os braços cruzados sobre o peito e uma cicatriz grossa rasgando o supercílio direito até a maç

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status