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Capítulo 3 — Expulsa

Autor: A.C. Borges
last update Fecha de publicación: 2026-07-21 12:19:05

A mãe de Aren desceu o último degrau sem pressa, como se Maia não merecesse sequer que ela desviasse o caminho. A antiga Luna mantinha o peito erguido, vestida com trajes pesados de veludo escuro.

— Você nunca deveria ter pisado nesta fortaleza — a voz saiu baixa, firme. Todo o salão ouviu. — O vínculo foi uma ilusão. Um erro nascido do sangue fraco da sua linhagem.

— O sangue dos Valença ergueu a primeira muralha desta alcateia, quando os D'Ávila ainda se escondiam em cavernas! — o grito de Nara rasgou o ar.

A tia de Maia se debateu com violência, tentando se soltar dos dois guerreiros que a prendiam pelo colar das vestes. O rosto dela estava vermelho de raiva, os olhos brilhando em desafio para o Conselho.

— A Deusa não erra! Vocês é que estão podres por dentro!

O ancião líder nem se deu ao trabalho de responder. Com um movimento seco de queixo, deu a ordem silenciosa. A mão pesada de um dos guardas atingiu a bochecha de Nara num estalo alto. O impacto atirou a mulher de joelhos contra o granito, e um fio grosso de sangue escuro escorreu do canto do seu lábio.

O estômago de Maia revirou de fúria. Ela deu dois passos rápidos na direção da tia, mas a haste de uma lança cruzou seu peito, parando a milímetros da cicatriz prateada sob o tecido rasgado do vestido.

— Cale a boca da traidora — ordenou a matriarca, sem se dar ao trabalho de olhar para Nara caída no chão. Em seguida, voltou os olhos estreitos para Maia. — Você não tem mais nome aqui. Não tem linhagem, não tem alcateia, não tem a proteção do Norte. Você é uma exilada. Uma carcaça sem matilha.

Aquilo não era só desprezo. Queriam vê-la longe dali antes que a noite acabasse.

A cicatriz voltou a arder. Ela sustentou o olhar do ancião, travando a mandíbula para esconder o tremor das pernas.

— Se eu sou tão fraca e insignificante para o Norte... por que vocês parecem estar se borrando de medo de mim?

O ancião trincou os dentes.

— Fora daqui antes que a lei de sangue seja executada no meio deste salão.

No chão, Nara ergueu o rosto machucado. Seus olhos encontraram os de Maia por um segundo, transmitindo um aviso mudo e desesperado: vai embora agora.

Maia não esperou a segunda ameaça. Girou sobre os calcanhares, deu as costas ao trono, à matriarca, às centenas de lobos que a observavam em silêncio, e caminhou até as pesadas portas de madeira da fortaleza. A cada passo, a cicatriz no peito queimava direto no osso — lembrando que o laço fora cortado e que agora ela estava sozinha no mundo.

Ela cruzou o portal e mergulhou no frio da noite.

O ar da montanha queimou quando entrou nos pulmões. A neve começava a cair, cobrindo os galhos secos da trilha. Maia acelerou o passo, transformando a caminhada numa corrida desajeitada. As pernas tremiam, o corpo ferido implorava por descanso, mas a raiva e a adrenalina mantiveram seus pés em movimento para o fundo da mata fechada, onde as luzes das tochas da fortaleza finalmente sumiram.

A dor no peito não diminuía. Cada passada batia contra a cicatriz como um ferro quente pressionado na pele. Maia tropeçou numa raiz, os joelhos afundando na neve fina, e por um segundo cogitou ficar ali, deixar o frio terminar o que a rejeição tinha começado.

Não.

Ela cravou os dedos na terra gelada e se ergueu. As pernas doíam, o corpo pesava, mas a raiva ainda estava viva em algum lugar debaixo do choque — e era a única coisa que sobrava pra mantê-la de pé.

Maia limpou o rosto com as costas da mão suja de terra e voltou a andar, mais devagar agora, contando os próprios passos só para não pensar em mais nada.

No ponto mais alto da torre principal, o vento uivava contra a pedra fria.

Aren permaneceu imóvel na sacada do gabinete, acompanhando a silhueta de Maia até perdê-la de vista entre os pinheiros escuros. No seu próprio peito, no ponto exato onde o vínculo havia sido rompido, uma pontada aguda fazia os músculos dele se contorcerem.

A porta de madeira pesada se abriu atrás dele. O capitão da sua guarda pessoal deu dois passos para dentro e parou em posição de sentido.

— Supremo, os anciãos do Conselho exigem que a morte oficial dela seja declarada até o meio-dia. Os caçadores da primeira fileira já foram acionados para garantir que a garota não passe da fronteira do Oeste.

Aren não piscou. O olhar permaneceu fixo na imensidão negra da floresta.

— Cancele a ordem do Conselho — a voz de Aren saiu grave, e o capitão enrijeceu a coluna. — Reúna a minha guarda pessoal. Os homens em quem eu confio.

Ele se virou devagar, os olhos escuros desprovidos de qualquer hesitação.

— Achem a garota. Tragam-na viva para mim antes do amanhecer.

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