LOGINUm ano depois, a Alcateia da Coroa Lunar estava irreconhecível.Para atrair mais lobos das regiões vizinhas, tanto para negociar quanto para se estabelecer no território, Luca e eu decidimos convidar alguns influenciadores conhecidos para divulgar a alcateia.Quando fui recebê-los na fronteira, porém, encontrei Gabriel.Ele parecia exausto. As roupas estavam amarrotadas, e o cansaço pesava em seu rosto.Durante aquele ano, não o vi nenhuma vez. Ainda assim, Lina sempre me contava, entre risadas, as últimas notícias sobre ele e Isadora.Depois que Gabriel perdeu a presidência do Conselho, Isadora percebeu que ele já não possuía poder nem dinheiro e tentou fugir imediatamente.Gabriel a impediu e despejou sobre ela toda a sua fúria. Chamou-a de golpista e a acusou de destruir sua vida.Isadora, porém, não abaixou a cabeça.— Foi você que quis bancar o salvador no Conselho e me proteger de todo mundo! Você quis exibir seu poder. Agora não venha jogar a culpa em mim!Depois de uma discussã
Solicitei autorização para trabalhar remotamente.O avião pousou na pista da fronteira da Alcateia da Coroa Lunar. Assim que desembarquei, avistei o lobo que o Alfa mandou me buscar.Era Luca Ventura.Luca cresceu comigo. Nós éramos os únicos dois lobos da alcateia que conseguiram entrar numa escola da Cidade Central.Na infância, treinávamos juntos nas planícies cobertas de neve. No dia em que parti para estudar longe, o céu ainda estava escuro, e foi ele quem caminhou à frente com uma lanterna, iluminando meu caminho.Depois, fomos estudar em regiões diferentes e, aos poucos, perdemos contato.Mas agora, depois de enfrentarmos cada um à sua maneira o mundo lá fora, bastou voltarmos à alcateia para que a antiga intimidade surgisse outra vez.Luca usava uma jaqueta corta-vento bem ajustada. Assim que me viu, acenou com entusiasmo.Sem cerimônia, empurrei a mala pesada para ele.— Então você também chegou à idade de voltar para o Ritual da Escolha Lunar?Ele pegou a mala com facilidade
Gabriel observou meu rosto sereno, e um lampejo de inquietação atravessou seus olhos. Quase imperceptível. Logo, porém, ele recuperou a calma.— Não precisa prolongar esse impasse, Lívia. — Sua voz perdeu um pouco da dureza. — Eu sei que você está magoada. Volte para a alcateia, tire alguns dias de folga e esfrie a cabeça. Assim que eu resolver tudo por aqui, vou buscá-la. Nossa cerimônia do vínculo acontece como planejamos, e deixamos esse assunto para trás.Continuei sentada, apenas o encarando.— Gabriel, você realmente acredita que vai poder me manipular para sempre?Ele franziu o cenho, e a reprovação tomou conta de sua voz.— Você também não deveria refletir sobre as próprias atitudes? Se fosse obediente como Isadora, eu não precisaria lhe ensinar uma lição desse jeito. Uma loba dominadora demais só acaba prejudicando a si mesma.Antes que terminasse, a porta do escritório se abriu com um chute violento.— Poupe todo mundo desse seu machismo lupino nojento, Gabriel!O som firme d
Gabriel e Isadora caíram na gargalhada, como se eu acabasse de contar a piada mais absurda do mundo.Isadora agitou diante de mim o termo de desligamento, radiante de triunfo.Seu olhar dizia tudo: alguém que acabou de abrir mão do cargo, da equipe e de todos os direitos ainda se atrevia a delirar daquele jeito?Uma mistura de impaciência e pena surgiu nos olhos de Gabriel.— Lívia, até para fazer birra existe limite. Quando isso se espalhar, como você ainda pretende ocupar, com dignidade, o lugar de minha futura companheira?Veja só.Ele ainda acreditava que aquilo não passava de um capricho.Como se, sem meu cargo no Conselho, eu se tornasse uma loba frágil, condenada a viver ao lado dele como um enfeite obediente, abanando o rabo em troca de migalhas.Mas eu nunca fui extensão de homem nenhum.Eu era uma órfã da Alcateia da Coroa Lunar.Nas florestas geladas do extremo norte, minha avó me criou sozinha, me alimentando com leite animal, gole após gole.Aos dez anos, eu já caçava sozi
Talvez minha recusa em obedecer à ordem dele ferisse seu orgulho.Talvez Gabriel simplesmente não quisesse mais fingir.A partir daquele dia, ele passou a favorecer Isadora sem o menor pudor.Ela se tornou sua acompanhante em todos os jantares de negócios. O bônus que conquistei com tanto esforço também acabou, diante de todos, no nome dela.Protegida por Gabriel, Isadora ficava mais arrogante a cada dia.Começou a dar ordens aos chefes de departamento, a aprovar solicitações que estavam muito além de sua autoridade e até a invadir reuniões da alta cúpula, como se já ocupasse o lugar de companheira do presidente.A assistente apareceu várias vezes, furiosa, para reclamar.E eu sempre lhe dava a mesma resposta:— Não se preocupe.Eu falava com sinceridade.Em poucos dias, embarcaria para longe dali.Minha indiferença, porém, parecia enfurecer Isadora muito mais do que qualquer discussão.Certa tarde, ela perdeu de vez a paciência e invadiu meu escritório.— O presidente Gabriel já mando
Naquela tarde, minha amiga Lina me arrastou para um drinque de despedida.Ela ainda erguia a taça, brindando ao fim daquele "desastre amoroso sem salvação", quando a tela do meu celular se acendeu.Era a assistente do Conselho. Sua voz tremia do outro lado da linha.— Lívia, você precisa voltar para o escritório imediatamente. Agora!Agarrei o casaco e deixei algumas notas sobre a mesa.Lina não fez perguntas. Apenas apertou meu braço com força.— Vai.Quando cheguei ao andar do Conselho, o corredor diante da minha sala estava tomado por funcionários mais jovens.Ninguém dizia uma palavra.Todos se afastaram para me deixar passar, com a solenidade silenciosa de quem abria caminho para um cortejo fúnebre.Isadora distribuía ordens em voz alta junto à porta.Meus documentos estavam espalhados pelo chão como lixo. Anos de pesquisa, negociações exaustivas e contratos pelos quais eu sacrifiquei noites inteiras agora se misturavam sob os pés de todos.Dois homens corpulentos arrastavam minha







