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Capítulo 2

Author: Sete Setes
Passei a noite praticamente em claro.

Meu voo para o território da Alcateia da Coroa Lunar partia na manhã seguinte, mas ainda me restavam algumas pendências. Dediquei anos demais àquele lugar. Mesmo com um pé para fora, eu precisava deixar tudo em ordem.

Assim que cheguei à entrada, um assistente do Conselho correu na minha direção, pálido.

— Lívia, aconteceu uma coisa grave! Isadora assinou ontem à noite um contrato de compra de poções sem nenhuma autorização.

Parei no mesmo instante.

Pelas normas do Conselho, qualquer contrato acima de cem mil dólares só entrava em vigor depois da aprovação conjunta do presidente e do departamento financeiro.

Mas, amparada por Gabriel, Isadora simplesmente assinou.

— E o que aconteceu?

A sua voz tremia de nervosismo.

— A empresa recebeu o adiantamento e desapareceu. O financeiro só percebeu a movimentação suspeita hoje de manhã. Oitocentos mil dólares já saíram da conta, e nenhuma poção foi entregue.

Ele respirou fundo, quase sem conseguir recuperar o fôlego.

— A equipe de investigação está tentando localizar os responsáveis, mas ninguém sabe se vamos conseguir recuperar o dinheiro.

Aquela exaustão tão conhecida voltou a pesar sobre mim.

Puxei o ar e abri a porta do escritório de Gabriel.

Isadora se encolhia no sofá, com o rosto sem cor e o corpo levemente trêmulo. Gabriel estava sentado ao lado dela, levando um copo de água até seus lábios.

A cena me atingiu em cheio.

Aquele era o sofá que Gabriel comprou especialmente para mim no início do nosso relacionamento. Sempre que eu trabalhava até tarde, ele me puxava até lá e insistia para que eu descansasse.

— Este lugar é seu. Ninguém mais vai ocupar.

Eu quase conseguia ouvir sua risada outra vez.

Agora, outra loba ocupava o meu lugar.

Isadora foi a primeira a notar minha presença. Ela se endireitou depressa, com os olhos marejados.

— Lívia... por favor, não entenda errado. — Sua voz saiu baixa e quebradiça, carregada de uma fragilidade capaz de despertar pena. — Eu desmaiei de culpa. Gabriel só estava tentando me acalmar.

Era assim que um superior consolava uma subordinada, levando o copo à boca dela?

Atravessei o escritório sem dizer uma palavra e empurrei o relatório financeiro na direção de Gabriel.

— Oitocentos mil dólares. — Minha voz saiu dormente. — Quem vai arcar com esse prejuízo?

As lágrimas de Isadora correram ainda mais depressa.

— A culpa foi minha. Ontem, eu vi como o presidente Gabriel estava exausto e não quis incomodá-lo com uma simples aprovação...

— E o que você conseguiu com isso? — A interrompi. — Deu trabalho para todo mundo, colocou em risco a reputação de todo o Conselho dos Lycans e obrigou os funcionários a fazer horas extras pelas próximas setenta e duas horas para consertar o seu erro. Em algum momento, nem que fosse por um segundo, você pensou em outra pessoa além de si mesma?

Antes que Isadora respondesse, Gabriel parou de folhear o relatório e me lançou um olhar carregado.

— Lívia, você precisa mesmo encurralá-la desse jeito?

— Eu estou encurralando alguém?

Apontei para o valor estampado no documento.

— Só quero uma resposta: o que você pretende fazer com esse prejuízo?

A impaciência atravessou seus olhos.

— Já que não vamos receber as poções, basta cancelar os contratos com os hospitais.

Uma risada seca e vazia me escapou.

— Gabriel, você ainda se lembra do que eu fiz para fechar esses acordos? De quantos jantares participei, quantas mãos desconhecidas apertei, quantas taças engoli com um sorriso no rosto?

Minha voz se tornou mais cortante.

— Se cancelarmos tudo agora, perder a credibilidade será o menor dos nossos problemas. E os pacientes que dependem dessas poções para sobreviver? Vamos mandar todos esperarem pela morte?

Encarei Isadora por um instante.

— Espero que o choro dela não tenha apagado de vez o seu bom senso.

A frase atingiu o ponto exato. Uma faísca de raiva acendeu no olhar de Gabriel.

Ele tirou um cartão do bolso interno do paletó e o arremessou contra mim.

— São só oitocentos mil dólares. Eu pago o prejuízo do meu próprio bolso por ela. Agora você pode calar a boca?

O cartão rígido bateu na minha clavícula e deixou um risco vermelho sobre a pele.

Olhei para ele caído no chão.

Naquele instante, o último vestígio de calor dentro de mim se apagou.

Gabriel acreditava que sua fortuna bastava para encobrir qualquer desastre causado por Isadora.

Dinheiro podia repor o que se perdeu.

Mas não podia fechar a fenda que ele abriu dentro de mim.

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