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Capítulo 4

Author: Sete Setes
Talvez minha recusa em obedecer à ordem dele ferisse seu orgulho.

Talvez Gabriel simplesmente não quisesse mais fingir.

A partir daquele dia, ele passou a favorecer Isadora sem o menor pudor.

Ela se tornou sua acompanhante em todos os jantares de negócios. O bônus que conquistei com tanto esforço também acabou, diante de todos, no nome dela.

Protegida por Gabriel, Isadora ficava mais arrogante a cada dia.

Começou a dar ordens aos chefes de departamento, a aprovar solicitações que estavam muito além de sua autoridade e até a invadir reuniões da alta cúpula, como se já ocupasse o lugar de companheira do presidente.

A assistente apareceu várias vezes, furiosa, para reclamar.

E eu sempre lhe dava a mesma resposta:

— Não se preocupe.

Eu falava com sinceridade.

Em poucos dias, embarcaria para longe dali.

Minha indiferença, porém, parecia enfurecer Isadora muito mais do que qualquer discussão.

Certa tarde, ela perdeu de vez a paciência e invadiu meu escritório.

— O presidente Gabriel já mandou você para casa esfriar a cabeça. — Sua voz saiu aguda, quase estridente. — Por que ainda insiste em ficar aqui, ocupando uma sala que nem pertence mais a você?

Fechei o notebook com calma, sem me apressar.

— Isadora, você realmente acredita que um pouco da atenção de Gabriel basta para tomar o meu lugar?

Me levantei e a encarei.

— Eu faço parte do núcleo executivo do Conselho dos Lycans. Tenho em minhas mãos um Selo Fundador, com direito a voto na escolha do próximo presidente. Esse é um poder que você jamais vai conseguir roubar de mim.

Contornei a mesa e parei diante dela.

— Já que está tão desesperada para se livrar de mim... que tal fazermos uma aposta?

Um sorriso discreto tocou meus lábios.

— Se Gabriel lhe entregar, por vontade própria, o Selo Presidencial, eu me demito imediatamente. Minhas ações, meus títulos, todos os meus direitos... você pode ficar com tudo.

Inclinei levemente a cabeça.

— Mas, se ele se recusar, você desaparece da minha frente para sempre.

Pela primeira vez, uma sombra de incerteza atravessou o rosto de Isadora.

Mas a arrogância logo voltou a dominar sua expressão.

— Está bem. — Ergueu o queixo. — Temos um acordo.

Dois dias depois, a porta do meu escritório se abriu outra vez.

Desta vez, Isadora entrou ao lado de Gabriel.

Assim que chegou à minha mesa, ela bateu alguma coisa contra o tampo. O objeto metálico girou uma vez sobre a superfície antes de parar diante de mim.

O Selo Presidencial.

O símbolo máximo da autoridade administrativa do Conselho.

Isadora abriu um sorriso triunfante.

— Você perdeu.

Atrás dela, Gabriel cruzou os braços e soltou um suspiro.

— Lívia, já chega.

Seu tom carregava a mesma condescendência de sempre.

— Isadora ainda é jovem. Está aprendendo. Ela não tem toda essa astúcia que você adquiriu em anos de negociações e jantares de negócios. Essa aposta nunca foi justa. Você me encurralou, então eu não tive escolha a não ser lhe entregar o selo.

Então sua voz baixou.

— Quanto a você... se pedir desculpas pelo que fez nos últimos dias, eu pego o selo de volta.

Ele falava como se ainda me oferecesse uma recompensa.

— Eu ainda vou assumir você como minha companheira. A cerimônia do vínculo pode seguir exatamente como planejamos. E vou comprar um anel maior, muito mais caro.

Isadora arregalou os olhos e me lançou um olhar cheio de rancor.

Eu, porém, só conseguia encarar Gabriel.

Ele colocou o símbolo mais poderoso de todo o Conselho nas mãos de uma secretária medíocre apenas para me forçar a pedir desculpas.

Esperava que eu baixasse a cabeça.

Que admitisse a derrota.

Que, como tantas vezes antes, cedesse primeiro.

Mesmo depois de tudo, Gabriel ainda acreditava que eu só fazia birra.

De repente, comecei a rir.

As lágrimas caíram junto.

— Não. Eu não preciso da sua piedade.

Me inclinei sobre a mesa, puxei o termo de transferência e assinei sem hesitar.

— Eu aceito o resultado. Perdi a aposta. Estou indo embora.

No silêncio do escritório, o arranhar da caneta contra o papel soou quase ensurdecedor.

Gabriel ficou imóvel, como se o corpo inteiro petrificasse.

Ele nunca imaginou que eu preferiria deixar o Conselho a lhe pedir desculpas.

— Ótimo! — Explodiu, tomado pela raiva. — Foi você que assinou. Depois não venha se arrepender!

Se virou bruscamente para a porta aberta e gritou para o corredor:

— A partir de hoje, o cargo, a equipe e todas as prerrogativas de Lívia passam para Isadora!

O rosto da minha assistente desabou.

Do outro lado, alguns membros do Conselho já se apressavam em agradar à nova favorita.

— Isadora, é só dizer do que precisa.

— O que vocês ainda estão esperando? Esvaziem a sala para ela! Lívia não faz mais parte do Conselho.

Alguns bajuladores invadiram o escritório.

Jogaram meus documentos, minha placa de identificação e até a foto de Gabriel e minha, que ficou anos sobre a mesa, dentro de uma caixa de papelão velha.

Observei o sorriso que Isadora mal conseguia esconder.

Não gritei. Não tentei impedir ninguém.

Enxuguei a última lágrima do rosto e saí.

Atrás de mim, vozes confusas começaram a se espalhar pelo corredor.

Abri a porta do escritório do presidente dos Lycans e me acomodei, sem hesitar, na ampla cadeira que simbolizava o poder máximo do Conselho.

Quando Gabriel e Isadora apareceram logo depois, ambos paralisados de espanto, tirei uma pasta da bolsa.

O documento já estava em vigor, com todos os selos exigidos.

— Gabriel, a partir deste momento, você está destituído do cargo de presidente dos Lycans.

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