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A Lua Não Espera Para Sempre
A Lua Não Espera Para Sempre
Author: Sete Setes

Capítulo 1

Author: Sete Setes
A claridade pálida do quarto ardia nos olhos.

Com movimentos tranquilos, dobrei a última camisa e a acomodei na mala.

A porta se abriu, e Gabriel surgiu no vão, imponente o bastante para preencher toda a entrada. Seu olhar caiu sobre a bagagem no chão. A mão que afrouxava o nó da gravata parou.

— Você chegou cedo. Já comeu?

A naturalidade em sua voz quase me feriu mais do que o gesto de poucas horas antes, quando ele jogou o nosso anel do vínculo nas mãos de outra loba.

Engoli a ardência que subia pela garganta e continuei a arrumar a mala, sem levantar os olhos.

Era sempre assim.

Gabriel apagava o conflito com a mesma facilidade com que o criava.

Em tantas outras ocasiões, bastavam algumas palavras suaves, um presente trazido no caminho ou o abraço silencioso dele por trás, no meio da noite. Eu sempre baixava a guarda primeiro e deixava a discussão morrer.

Mas, naquela noite, o cansaço me consumia por inteiro. Já não me restava força para travar mais uma batalha por nós.

— A sua querida secretária, Isadora, não lhe passou o recado? — Perguntei, sem tirar os olhos da mala.

O rosto de Gabriel se fechou no mesmo instante.

— Lívia, foi você que trouxe Isadora para o Conselho dos Lycans. Então essa hostilidade toda é contra quem, afinal?

Uma risada amarga quase me escapou.

Sim. Ele estava certo.

Fui eu que abri as portas do nosso mundo para Isadora.

Nós duas saímos da mesma alcateia, um território esquecido, escondido no coração das florestas do norte.

Antes da minha partida, o Alfa da Alcateia da Coroa Lunar me chamou de lado e me fez um pedido:

— Cuide dela. Lobos como nós só chegam mais longe quando se apoiam.

Por isso, quando Isadora se formou e não conseguiu emprego, fui eu que lhe abri as portas do Conselho dos Lycans.

Eu lhe ensinei cada regra, acompanhei cada passo e fiz de tudo para protegê-la.

Naquela época, ela parecia quieta, doce e profundamente grata.

Talvez por isso eu nunca percebesse como seus olhos seguiam Gabriel sempre que ele entrava em uma sala.

A verdade era simples: um homem como Gabriel atraía atenção por onde passava.

Ele era um Alfa de poder quase absoluto, presidente do Conselho Continental dos Lycans e um magnata dos investimentos, dono de uma fortuna bilionária.

Naquela cidade, lobas dispostas a devorá-lo com os olhos não faltavam.

Gabriel, porém, nunca concedeu a nenhuma delas mais do que um olhar indiferente.

Por isso, tratei a paixão silenciosa de Isadora como algo inofensivo. Não me preocupei.

Até aquela reunião do Conselho.

Isadora cometeu um erro absurdo, capaz de provocar um prejuízo de milhões de dólares.

Seguindo as normas, eu lhe dei uma advertência verbal. Escolhi cada palavra com cuidado, sem dureza, muito menos maldade.

Ainda assim, seus olhos se encheram de lágrimas, e seu corpo começou a tremer como se eu a submetesse à pior das humilhações.

Foi então que Gabriel explodiu.

— Chega, Lívia! Isadora é só uma loba jovem, recém-saída de uma alcateia pequena. Você precisa mesmo ser tão dura com ela? — Gritou diante de todos os funcionários.

As palavras me atravessaram o peito como uma lâmina.

Cerrei os dentes e segurei as lágrimas.

— Por causa do erro dela, todos aqui vão trabalhar até depois da meia-noite pelos próximos três dias!

Gabriel soltou uma risada displicente.

Como se o prejuízo de milhões e setenta e duas horas de trabalho extra fossem detalhes sem importância.

Então, ele percorreu a sala com os olhos, passando por cada membro do Conselho dos Lycans.

— Então todos vocês resolveram perseguir Isadora? Ótimo. A partir de agora, ela será minha secretária particular e responderá diretamente a mim. Quem voltar a incomodá-la pode entregar o cargo no Conselho.

A voz fria se calou, e Gabriel saiu da sala de reuniões sem olhar para trás.

Isadora correu atrás dele, com os olhos brilhando de admiração.

Pisquei com força e me arranquei daquela lembrança.

Gabriel continuava ao lado da mala, me encarando com uma frieza impenetrável.

Em algum momento, meus sentimentos deixaram de importar para ele. Cada conversa entre nós se transformou numa disputa que Gabriel precisava vencer.

O lobo que cancelava todas as reuniões só para passar mais tempo comigo...

O homem que me apertava contra o peito e jurava que nunca mais permitiria que alguém me fizesse chorar...

Esse Gabriel já não existia.

A tela do celular se acendeu ao meu lado.

[Voo confirmado. Destino: território da Alcateia da Coroa Lunar. Partida em três dias, às 6h10.]

Fiquei olhando para a mensagem por um longo instante.

Então endireitei os ombros e encarei Gabriel.

— Você tem razão. Eu venho agindo como se tudo girasse ao meu redor. Exigi demais de você.

A dor no peito quase me derrubou. Ainda assim, reuni o pouco de força que me restava e forcei as palavras para fora.

— Daqui em diante, você não vai mais precisar suportar nada disso.

Gabriel ficou imóvel.

Por um segundo, a segurança em seu rosto vacilou.

Ele esperava que eu gritasse, que exigisse uma explicação por ele jogar o nosso anel do vínculo nas mãos de outra loba.

Mas eu apenas admiti a culpa, serena demais para quem acabava de desistir de tudo.

O silêncio cresceu entre nós, pesado, sufocante.

Por fim, Gabriel arrancou a gravata e me lançou um olhar gelado.

— Faça como quiser.

A porta bateu com força atrás dele.

Naquela noite, Gabriel não voltou.

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