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Capítulo 10: Sombras e Lembranças

Author: M.R Silva
last update publish date: 2026-07-26 20:23:36

Scarlett saiu do banheiro e bateu a porta com força, sem olhar para trás.

No silêncio do cômodo, Ruby deixou as lágrimas caírem livremente. No fundo, tinha a certeza absoluta de que fizera a coisa certa ao esconder a verdade sobre a floresta. Se contasse sobre os renegados, a luta e o lobo albino, seria a sua ruína. Scarlett a expulsaria de casa na mesma hora ou, pior ainda, a renegaria de vez.

“Que filha?”, pensou Ruby, encarando o vapor que subia da água. “Se nem sei de quem sou filha de verdade...”

Ela se lembrou das palavras cruéis do lobo renegado na floresta, dizendo que ela tinha o sangue da própria Deusa Lua. A ideia fez seu peito doer ainda mais. Se aquilo fosse verdade, significava que era uma filha ilegítima, rejeitada até pela própria divindade que todos adoravam. Tomada por uma tristeza profunda, Ruby afundou o corpo na água morna da banheira até o rosto ficar totalmente coberto, buscando na escuridão um momento de paz.

Enquanto isso, no topo da colina mais alta de Solver, erguia-se o imponente Castelo Imperial, a fortaleza do Supremo Gideon.

Os grandes portões de ferro se abriram e Kaelen, o jovem herdeiro de dezessete anos, caminhou pelos corredores de pedra. Ele já não tinha um único arranhão pelo corpo, mas andava ainda tonto e com a mente completamente confusa. Não conseguia lembrar com clareza de como tinha saído vivo daquele combate brutal contra os três renegados.

Tudo o que restava em sua memória era um rastro fraco, o eco de um choro feminino e um aroma inesquecível de flores e mistério que parecia impregnado em sua própria pele. Kaelen sabia que algo extraordinário tinha acontecido naquela floresta, e não descansou até descobrir quem era a dona daquela voz.

Quando Kaelen atravessou o grande portão do castelo, seus passos vacilaram. Ele vinha cambaleando, com a visão ainda meio turva e o peito subindo e descendo devagar. Ao verem a cena, os guardas imperiais postados no portão arregalaram os olhos e correram imediatamente para ajudá-lo a se manter em pé.

No segundo andar, no escritório principal, o Supremo Gideon analisava papéis e mapas sobre a mesa. Ele discutia com seus conselheiros sobre a presença cada vez mais frequente dos lobos renegados nas fronteiras da floresta de Solver. A situação estava saindo do controle, e ele precisava convocar uma reunião de emergência com os anciões para reforçar a segurança e banir de vez aqueles criminosos do território.

Ao lado de Gideon, a sua esposa, Kiara, permanecia sentada perto da janela, tomando seu chá em silêncio. Como as decisões políticas e de guerra cabiam apenas aos líderes e guerreiros, ela apenas observava a paisagem lá fora.

Foi quando olhou pelo vidro e viu a imagem de seu filho no pátio. Kaelen tinha saído mais cedo dizendo que iria para a floresta fazer um treinamento solo de caça e combate, querendo provar a si mesmo que era forte. O problema é que Kiara havia proibido terminantemente o jovem de andar sozinho sem uma escolta de guardas.

Ao ver Kaelen cambaleando entre os guardas imperiais, Kiara largou a xícara na mesa com estalo e se levantou em pânico. Gideon se assustou com o movimento repentino e perguntou:

— Kiara? O que foi? O que aconteceu?

— É o nosso filho, Gideon! — respondeu ela, já correndo em direção à porta. — Kaelen chegou! Ele está sozinho e mal consegue parar em pé!

Gideon franziu a testa, ajeitou a postura e seguiu a esposa às pressas.

Kiara desceu a grande escadaria e correu até a entrada do castelo imperial, encontrando Kaelen tentando afastar a ajuda dos guardas. Ao ver o filho naquele estado confuso, a raiva e a preocupação de mãe transbordaram:

— Quantas vezes eu já te disse para não sair deste castelo sozinho, Kaelen Alexander? — bradou Kiara, aproximando-se dele. — Não importa se você é filho do Supremo ou se nossa família é respeitada! Os lobos renegados não querem saber de títulos! Eles não respeitam nada nem ninguém! Você tem apenas dezessete anos, ainda é muito inexperiente para enfrentar lobos exilados sozinho! Você não está preparado!

Kaelen nunca fora um garoto carinhoso ou demonstrativo. Ele apenas ergueu o queixo, encarou a mãe com um olhar frio e retrucou com desdém:

— Eu não preciso de babá. Sei muito bem como me virar sozinho.

— Olhe o respeito com a sua mãe! — a voz grave de Gideon ecoou pelo salão assim que ele chegou ao topo das escadas.

O Supremo caminhou a passos firmes até o filho, impondo sua autoridade de líder:

— Kiara está completamente certa, Kaelen. Eu sei da sua capacidade e sei que você é um guerreiro talentoso, mas ainda não atingiu a maioridade e nem a maturidade necessária para encarar renegados em bando. Eles odeiam a nossa linhagem mais do que tudo nesta terra. Essa é a última vez que você desobedece uma ordem e sai sem a Guarda Imperial. Fui claro?

Kaelen nem se deu ao trabalho de responder ou se importar com a bronca dos pais. Apenas deu as costas, subiu as escadas em silêncio e foi direto para o seu quarto.

Ele fechou a porta com força, jogou-se de costas na cama e encarou o teto de pedra do quarto. Fechando os olhos, ele ignorou o sermão da família e focou a mente em uma única coisa: tentar reencontrar a memória perdida e entender que cheiro misterioso era aquele de terra molhada e flores selvagens que continuava impregnado em suas veias.

Kaelen sentou-se na cama. Ele abriu a gaveta do criado-mudo e pegou o cordão com a pedra que o pai lhe dera — o amuleto que ele costumava recusar a usar no peito. Encarou o cristal contra a luz da janela e pensou: se estivesse com o cordão na floresta, será que a pedra teria brilhado ao lado daquela garota?

Ele pensava na palavra Luna. Por ser o herdeiro do Supremo, Kaelen conhecia muito bem o peso desse título. Gideon sempre deixou claro que, quando Kaelen encontrasse sua verdadeira Luna, ele estaria pronto para liderar a sua própria alcatéia. Para a família real, a escolha da companheira ideal já havia sido determinada pela própria Deusa Lua desde o nascimento de cada líder.

Gideon sempre dizia ao filho que o grande ritual dos dezoito anos era apenas uma formalidade, uma cerimônia tradicional para comprovar a união diante dos anciãos e do povo da matilha. Mas a ligação verdadeira, a marca da alma, já nascia pronta.

Ainda encarando o colar na palma da mão, Kaelen Alexander sentia um conflito interno. Se a sua companheira já tinha sido escolhida pelo destino, por que passar por todo aquele teatrinho festivo? Ele considerava todo aquele evento no Templo do Luar um espetáculo desnecessário e superficial.

Mas agora, com a memória turva e o peito queimando com aquele cheiro inesquecível de floresta e flores selvagens, uma dúvida pela primeira vez abalava suas certezas: será que a garota que o salvou nas sombras era a verdadeira escolha da Deusa Lua? E como ele faria para reencontrá-la em meio a toda a matilha?

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