MasukAo chegar em casa, o estado de Ruby era de dar pena. Ela estava toda arranhada, com os longos cabelos vermelhos bagunçados e cheios de nós, e o rosto marcado pelas lágrimas e pelos galhos da floresta.
Os empregados, que já viviam assustados naquela casa por causa dos gritos de Kylen, ficaram em choque ao ver a menina daquele jeito. Sabiam que algo terrível tinha acontecido. Imediatamente, uma das funcionárias correu para chamar Scarlett. Scarlett estava em seu ateliê, costurando mais um lindo vestido para a festa de 18 anos de Ruby. Por mais que tentasse ser realista, no fundo do seu coração ela ainda guardava a esperança de que a filha fosse uma verdadeira Luna e que tudo se resolveria. — Dona Scarlett! — gritou a empregada, entrando apavorada. — A senhorita Ruby... ela chegou e está toda desfigurada! Scarlett soltou o tecido caro no chão e saiu correndo do ateliê. Quando desceu as escadas e viu Ruby parada na entrada, com o uniforme da Academia Imperial rasgado e o corpo tremendo, ela levou as mãos à cabeça, sentindo o mundo girar. O pior pensamento passou pela mente de Scarlett: o Supremo Gideon havia descoberto a verdade? Tinha descoberto que Ruby não era filha legítima deles? Aproximando-se da filha com o coração na mão, Scarlett perguntou, com medo da resposta: — Minha filha... foi o Supremo? O Gideon te encontrou? Mas, antes que Ruby pudesse responder, Scarlett mudou de ideia. O mais provável era que os vizinhos e os outros moradores da cidade, com raiva pelo ocorrido no ritual, tivessem atacado a menina na rua. — Quem fez isso com você? — perguntou Scarlett, com a voz embargada de fúria e dor. — Fala para sua mãe que eu vou lá resolver isso agora! Em resposta, Ruby apenas desabou em lágrimas e correu para os braços da mãe, abraçando-a com todas as forças que lhe restavam. Ao verem a cena, os empregados rapidamente se retiraram do corredor para dar privacidade às duas. Antes que saíssem, Scarlett ordenou: — Arrumem uma banheira para a Ruby, agora! Encham a banheira com água quente! Enquanto os funcionários corriam para obedecer, Scarlett amparou a filha. Ruby já estava sem forças nas pernas de tanto tremer, esgotada pelo medo, pela corrida e por tudo o que tinha acontecido na floresta. A mãe foi trazendo a menina devagar para dentro da casa. Scarlett precisava pensar, acalmar o próprio coração e descobrir o que tinha acontecido. Afinal, Ruby só tinha 13 anos; era muita informação e muito sofrimento para uma menina tão nova. Ruby entrou na banheira, sentindo a água morna aliviar os machucados pelo corpo. Scarlett permaneceu ali ao lado, esperando por uma resposta que fizesse sentido. Quando a garota finalmente criou coragem para falar, contou apenas uma parte da verdade: — Eu... eu estava tentando encontrar o Templo do Luar — sussurrou Ruby, sem olhar nos olhos da mãe. — Queria conversar com a Deusa Lua... ou pedir perdão. Mas acabei me perdendo na floresta. Scarlett levou a mão ao rosto, soltando um suspiro pesado de frustração e alívio: — Mas eu não falei para você não ir lá, minha filha? Por que você é tão teimosa? Por favor, Ruby, não me faça dar razão ao Kylen! Por que você não foi para a escola? Ruby preferiu se calar. Ela não contou nada sobre os insultos e a água jogada pelos vizinhos nas ruas, não contou sobre o ataque dos lobos renegados e, muito menos, sobre o confronto com o lobo albino e o poder de cura. Era informação demais para a sua cabeça de treze anos processar de uma vez só. Ela apenas ficou quieta na banheira, tentando encaixar as peças daquele dia assustador enquanto ouvia o desabafo da mãe. Vendo o silêncio da filha, Scarlett respirou fundo. Pela primeira vez, sua voz deixou de lado a ternura e assumiu um tom de cobrança firme, de uma mãe que precisava preparar a filha para o pior: — A partir de amanhã, você vai para a escola todos os dias. E vai aprender a resolver os seus problemas de cabeça erguida, não importa o que aconteça, até o dia em que completar dezoito anos. Scarlett se aproximou da banheira, olhou no fundo dos olhos de Ruby e continuou, com a voz forte e sem vacilar: — Esse foi o combinado que eu fiz ontem com o seu pai, e é o combinado que estou fazendo com você agora. Para não ser banida, você vai precisar que um Alfa a aceite como Luna. Para que isso aconteça, você vai fazer exatamente tudo o que eu mandar daqui para frente. Esse vai ser o seu único dever nesta casa. A mudança de uma voz suave para uma postura firme e furiosa não vem de maldade, mas do desespero puro. Scarlett está encurralada entre o medo de ver a filha ser banida por ser vista como uma humana sem poderes e o pavor de o casamento ruir com Kylen. Exigir força de Ruby é, no fundo, a única estratégia de sobrevivência que Scarlett conhece. Após ouvir aquelas palavras duras, Ruby olhou para a mãe com os olhos arregalados e um pavor silencioso no peito. Pela primeira vez na vida, ela sentiu medo de Scarlett. Sua mãe sempre tinha sido o seu refúgio, a pessoa da voz doce, dos abraços carinhosos e da ternura sem fim. Ver Scarlett ali, em pé ao lado da banheira, olhando-a nos olhos com uma expressão séria e furiosa, era assustador. Mas Ruby não sabia o peso que esmagava o coração da mãe. Scarlett engoliu o choro que apertava sua garganta e manteve o olhar firme para não fraquejar. Por dentro, ela estava em pânico. Tinha um medo mortal de que Ruby fosse realmente apenas uma humana, sem lobo e sem poder algum. Lembrava-se perfeitamente de como Kylen a havia colocado contra a parede na noite anterior. Scarlett sabia que estava prestes a perder tudo: se Ruby não se tornasse uma Luna aceita por algum Alfa até os dezoito anos, ela perderia a filha para o exílio e veria seu casamento ruir de vez. Ela precisava desesperadamente acreditar em um milagre — ou, no mínimo, ganhar tempo para encontrar uma saída e planejar uma fuga para as duas. — Você me entendeu, Ruby? — perguntou Scarlett, com a voz embargada, reprimindo uma lágrima. Ruby, ainda assustada com aquela nova versão da mãe, apenas concordou em silêncio, afundando o corpo um pouco mais na água quente da banheira. A partir daquele instante, o clima na mansão Silver havia mudado para sempre. A infância de Ruby tinha acabado ali.Antes da primeira luz, quando a alvorada ainda era apenas uma promessa escondida atrás das montanhas, o vale aprendia a respirar em silêncio. O vento descia pelas encostas carregando o gosto das cinzas, e os lobos uivavam para uma lua que parecia conhecer todos os nomes da perda. Naquele tempo, ninguém atravessava as fronteiras sem levar a mão ao punho da espada, ao amuleto da linhagem ou à memória de um morto.Os Lobos Vermelhos e os Lobos Brancos viviam separados não apenas por rios, pedras e trilhas esquecidas, mas pelo medo. Entre eles permaneciam as feridas do massacre que o tempo não conseguira fechar. Cada família guardava uma versão da tragédia; cada criança crescia ouvindo que o outro lado era feito de dentes, traição e sangue. E, sobre tudo, pairava a sombra de Gideon, não como um homem, mas como a forma escura que a culpa assumia quando ninguém ousava pronunciar seu nome.O vale se isolara do mundo, cercado por montanhas antigas e por uma desconfiança ainda mais antiga. As
Ao amanhecer, a comitiva chegou ao território neutro, onde as pedras claras da praça se estendiam entre as fronteiras dos povos. Ruby caminhava ao lado de Kaelen; Rubélia vinha logo atrás, com os registros protegidos contra o peito. O guerreiro da cicatriz, Nara, Kiara, Peterson e Garth formavam o círculo de testemunhas que atravessaria com eles a última porta do passado. Ao redor, sobreviventes, anciãos e representantes das grandes matilhas aguardavam em silêncio. Não era uma recepção. Era um julgamento.No centro da praça, o conselho ergueu o documento antigo. O pergaminho afirmava que uma criança nascida de duas linhagens permitiria a tutela temporária do vale, até que as matilhas julgassem seguro devolvê-lo aos seus habitantes. A cláusula, lida em voz grave pelo porta-voz do Norte, transformava o vínculo de Ruby e Kaelen em pretexto para uma nova ocupação. O vale seria colocado sob supervisão coletiva, suas fronteiras abertas às tropas e suas decisões entregues a mãos estrangeiras
Alguns dias haviam passado desde a alvorada no vale, mas ninguém se permitia chamar aquilo de paz. A palavra parecia grande demais para as casas ainda cobertas de poeira, para as vigas que os carpinteiros substituíam sob o olhar atento dos jovens, ou para os curadores que continuavam tratando Ruby dos efeitos do ritual. Ela se cansava com facilidade, sentia o corpo atravessado por ondas de calor e silêncio, e mesmo assim recusava repousar enquanto as trilhas permanecessem sob vigilância.Nas montanhas, os observadores das grandes matilhas ainda se escondiam entre as pedras e os pinheiros. Não atacavam. Não partiam. Apenas esperavam, como se o futuro do vale pudesse ser medido pela quantidade de medo que ainda restava em seus habitantes.Rubélia convocou a assembleia na praça ancestral ao cair da tarde. Os Lobos Vermelhos chegaram sem gritos de celebração, trazendo bancos, lanternas e a memória de quem não podia mais ocupar lugar algum. A anciã ergueu o bastão diante da pedra central:
O silêncio ainda reinava na câmara sagrada quando Kaelen e Ruby atravessaram o limiar e saíram juntos à luz do sol. Ele trazia a mão firmemente entrelaçada à dela; Ruby mantinha o ventre protegido contra o peito do rei, como se o próprio corpo pudesse formar um escudo entre a criança e tudo o que ainda ameaçava nascer daquela manhã.À frente do santuário, a aldeia inteira aguardava. Mães seguravam os filhos pelas mãos. Anciãos permaneciam junto às pedras antigas. Curadores, jovens e guerreiros observavam o casal com a cautela de quem contempla uma ponte recém-construída sobre um abismo. O Teste das Cinzas reconhecera a legitimidade do vínculo, mas não apagara os crimes do passado, nem transformara Kaelen em soberano dos Lobos Vermelhos.A alvorada atravessava a névoa em fios dourados. Tocava os estandartes vermelhos, fazia brilhar o símbolo prateado das duas linhagens gravado na pedra ancestral e revelava, pouco a pouco, os rostos que a noite havia escondido. A chama da vingança não d
Kaelen já havia atravessado as passagens estreitas e alcançado o santuário quando as últimas labaredas rubras desapareceram. Chegou no instante exato em que o ritual se encerrou: as cinzas se aquietaram, transformadas em brasas serenas, e o primeiro raio de sol tocou a pedra ancestral, revelando nela o símbolo entrelaçado das duas linhagens. Sobre a marca antiga, uma pequena linha de luz prateada acendeu-se como uma respiração.A comitiva reduzida permaneceu do lado de fora, sem estandartes de guerra. Kiara acompanhava os curadores, que carregavam água, ervas e tecidos limpos. Garth mantinha a guarda de elite afastada, imóvel sob as árvores. Peterson controlava as trilhas e impedia que representantes das grandes matilhas interrompessem aquele momento. Kaelen entrou sozinho, sem coroa, armas ou símbolos de autoridade. Entrou apenas como homem, companheiro e pai.Ruby estava de pé diante da pedra, embora o cansaço lhe tornasse os ombros pesados. A gravidez já havia transformado seu corp
As cinzas estremeceram antes que qualquer voz pudesse atravessar o santuário. Suspensas entre Ruby e Kaelen, elas se abriram como um enxame de estrelas mortas, e as brasas antigas sob a pedra ancestral despertaram uma a uma.Labaredas rubras subiram ao redor dos dois, contornando seus corpos, envolvendo a pedra, sem tocar a pele. O fogo parecia vivo. Antigo. Atento. Não havia maldade em sua fome; havia propósito. Ele não procurava carne para consumir, mas intenções para revelar.O medo percorreu a comunidade. O guerreiro da cicatriz apertou a arma, e os rebeldes recuaram até as paredes do santuário. Do lado de fora, as grandes matilhas se agitaram, vozes atravessando as entradas estreitas enquanto seus representantes tentavam interpretar o ritual antes que ele terminasse, como se cada centelha pudesse ser transformada em decreto, ameaça ou argumento político.Rubélia ergueu o bastão, embora sua mão tremesse:— A chama branca e a chama rubra já reconheceram a legitimidade do vínculo. M







