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Capítulo 2

Autor: Monalisa
last update Data de publicação: 2026-07-23 03:56:22

POV Kael

Já fazia quase um dia inteiro desde que atravessáramos a fronteira da floresta, e o cheiro daquele lugar continuava me incomodando.

Os humanos nunca percebiam. Talvez porque estivessem acostumados. Mas, para um lycan, o ar parecia pesado, carregado de fumaça, gasolina, metal e concreto quente. Era um cheiro morto, sem vida, que fazia meu lobo querer voltar para a floresta o mais rápido possível.

Engraçado…

Ela não tinha esse cheiro.

A lembrança surgiu antes que eu pudesse impedi-la, e franzi o cenho. Pelo que eu conseguia me lembrar, pelo menos. Anos já deveriam ter sido suficientes para esquecer o cheiro de alguém, principalmente de alguém que eu nunca mais tinha visto.

Mas meu lobo parecia determinado a me contrariar.

Insistia em guardar aquela memória como se tivesse acontecido ontem.

Não era o cheiro dos humanos.

Também não era exatamente o de uma lycan.

Era…

Fechei os olhos por um breve instante.

Um aroma almiscarado, frio e limpo, misturado ao perfume delicado de lírios brancos e ao cheiro de terra molhada depois da chuva.

Um aroma que eu nunca havia sentido em mais ninguém.

Estranhamente viciante.

Meu lobo jamais conseguira esquecê-lo.

No começo, ela ainda aparecia nos meus sonhos. Sonhos vívidos demais, tão reais que, por alguns segundos ao acordar, eu acreditava que tudo aquilo tinha acontecido de verdade.

Com o tempo, desapareceram.

Ou era isso que eu gostava de acreditar.

— Kael!

A voz de Cassian me arrancou dos pensamentos.

Levantei a cabeça no exato instante em que um renegado surgiu entre as árvores, investindo contra mim com as garras estendidas.

Desviei no último segundo, e o golpe passou a centímetros do meu rosto. Antes que ele pudesse reagir, acertei um soco direto na mandíbula.

O estalo do osso quebrando ecoou pela floresta.

O renegado cambaleou, mas não dei tempo para recuperar o equilíbrio. Agarrei seu pescoço e o arremessei contra o tronco de uma árvore com força suficiente para fazer a madeira estremecer.

Ele rugiu de dor.

Ainda assim, avançou outra vez.

Sorri sem humor.

— Vai precisar fazer melhor do que isso.

Antes que eu terminasse a frase, outro rosnado ecoou alguns metros à direita.

Virei a cabeça a tempo de ver um segundo renegado saltar sobre Cassian.

Meu coração disparou.

— Cassian!

Não pensei.

Meu corpo já estava em movimento antes mesmo que eu percebesse.

Atravessei a distância em segundos e atingi o renegado em cheio antes que suas garras alcançassem meu irmão. O impacto lançou o desgraçado contra uma árvore.

Não esperei que se levantasse.

Num único movimento, enterrei as garras em seu pescoço e o arranquei de uma vez.

O corpo caiu sem vida aos meus pés.

Meu peito ainda subia e descia com força quando me virei para Cassian. Passei os olhos rapidamente por ele, procurando qualquer ferimento.

Nada.

Soltei o ar que nem percebia estar prendendo.

Cassian arqueou uma sobrancelha.

— Tô inteiro.

Empurrei o ombro dele com mais força do que o necessário.

— Inteiro por pouco.

Ele bufou.

— Eu tinha a situação sob controle.

— Tinha?

Apontei para o corpo do renegado.

— Porque, da minha perspectiva, você estava a dois segundos de ser estraçalhado.

Cassian revirou os olhos.

— Você sempre exagera.

Cruzei os braços.

— Você tem uma filha esperando por você em casa. A Ellie merece um pai inteiro. Então para de dar esse tipo de mole.

Cassian sustentou meu olhar por um instante antes de sorrir de canto.

— Tá bom, Alfa.

Revirei os olhos.

— E para de me chamar de Alfa. Somos só nós dois.

Ele soltou uma risada.

— Foi mal… irmão.

Balancei a cabeça, escondendo um sorriso.

— Melhor.

⸻

Algumas horas depois, deixei Cassian no hotel.

Ele estava exausto. Depois de quase um dia inteiro caçando renegados, qualquer um estaria.

Encontramos cinco.

Cinco corpos espalhados pela floresta.

Nenhum sobreviveu.

Voltaríamos para a alcateia na manhã seguinte, mas, antes disso, precisávamos descansar.

Depois de um banho para tirar o sangue e a sujeira do corpo, senti vontade de tomar alguma coisa forte.

Um bom uísque.

Caminhei sem rumo por algumas ruas até que um letreiro iluminado chamou minha atenção.

Howling Moon.

O lugar tinha um aspecto decadente. As paredes de tijolos aparentes, a fachada escura e o som alto de guitarras denunciavam que era um bar de rock.

Servia.

Empurrei a porta.

O ambiente estava cheio. Luzes baixas, música alta e cheiro de álcool se misturavam ao excesso de humanos espalhados pelo bar.

Caminhei até o balcão.

— Um uísque. Puro.

A garota atrás do balcão sorriu.

Os cabelos misturavam mechas roxas e azuis.

Híbrida.

Eu só não fazia ideia de quê.

Ela se afastou para buscar minha bebida.

Foi quando meu lobo farejou o ar outra vez.

Estranho…

O cheiro dela lembrava alguma coisa.

Muito de longe.

Um leve toque daquele aroma almiscarado.

Balancei a cabeça.

Impressão minha.

Ela voltou poucos segundos depois e colocou o copo diante de mim.

— Aqui está.

Assenti em silêncio.

Levei o copo aos lábios.

O primeiro gole queimou minha garganta.

Talvez aquilo fosse suficiente para calar meu lobo.

— Ei, Genevieve!

A voz de um homem atravessou o salão.

— Hoje vai ter aquela dancinha ou vai deixar a gente na vontade de novo?

Meu corpo inteiro enrijeceu.

Meu coração falhou uma batida.

Genevieve.

Levantei os olhos quase por instinto.

Ela estava do outro lado do bar, rindo.

Uma risada leve, aberta, daquelas que eu nunca tinha ouvido.

O cabelo loiro-prateado estava preso em um rabo de cavalo alto, deixando o pescoço completamente à mostra.

Parou diante de um senhor de cabelos grisalhos, segurou o rosto dele entre as mãos e sorriu.

— Hoje não, docinho. Quem sabe na próxima?

O velho resmungou alguma coisa que a fez rir ainda mais.

Meu lobo explodiu dentro de mim.

Rosnou.

Incomodado.

Possessivo.

Minha.

A palavra atravessou minha mente como um golpe.

Meus punhos se fecharam automaticamente.

Cerrei os dentes.

Era ridículo.

Eu a rejeitei.

Não tinha direito nenhum de sentir aquilo.

Mas meu lobo não parecia se importar com lógica.

Continuei olhando.

E foi só então que realmente a vi.

Ela estava linda.

Muito mais bonita do que na última vez que a vira.

O corpete preto moldava perfeitamente seu corpo. O decote valorizava seus seios, enquanto a calça de couro justa abraçava suas pernas e desenhava cada curva conforme caminhava entre as mesas. As botas de cano alto completavam o visual.

Ela parecia completamente à vontade naquele lugar.

Segura.

Confiante.

Sexy.

Como se tivesse nascido para ocupar aquele espaço.

Não restava quase nada da garota de dezoito anos que deixara a alcateia.

Agora havia uma mulher.

Uma mulher absurdamente bonita.

Meu lobo rosnou outra vez.

Minha.

Ignorei.

Ou tentei.

Pela primeira vez em muitos anos, agi como um adolescente.

Virei de costas antes que ela pudesse olhar na minha direção.

Meu coração batia rápido demais.

Por um momento, simplesmente não fazia ideia do que fazer.

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