FAZER LOGINAdrian
A floresta parecia mais densa naquela noite. As árvores se erguiam como guardiãs antigas, suas copas entrelaçadas escondendo parte da lua que me acompanhava. Cada passo do meu cavalo no solo úmido ecoava pesado, como se até a terra me julgasse pelo que eu havia feito.
Elara.
O nome dela era como uma chama viva queimando dentro de mim. Quanto mais tentava apagá-lo, mais ele ardia, consumindo-me por inteiro. Eu podia sentir seu perfume ainda preso em minhas narinas, o calor do olhar assustado dela, a forma como o coração dela acelerou quando percebeu minha presença.
Eu deveria tê-la deixado em paz. Deveria ter ficado longe, obedecido ao pacto feito pelos nossos ancestrais. Mas como? Como resistir quando tudo em mim gritava por ela?
A cada passo do cavalo, a lembrança de sua voz suave, seu cabelo cor de fogo iluminado pela lua, me arrastava ainda mais fundo nesse abismo. Eu não era mais dono de mim. E isso me aterrorizava.
Quando a clareira da alcateia surgiu diante de mim, iluminada pelo fogo no centro, respirei fundo, tentando me recompor. Como Alpha, eu não podia demonstrar fraqueza. Mas Cael me conhecia demais para que eu conseguisse esconder algo.
Ele estava sentado em um tronco próximo ao fogo, afiando novamente sua espada. A lâmina refletia o dourado das chamas, mas seus olhos estavam sombrios quando me viram.
— Você foi até o vilarejo de novo, não foi? — perguntou sem rodeios, guardando a espada no coldre.
Desci do cavalo, os ombros tensos. — Sim.
Ele se levantou devagar, aproximando-se de mim como um irmão que se prepara para dar uma bronca necessária.
— Adrian… você sabe que não pode.
Rosnei baixo, a fúria já queimando sob minha pele. — Eu sou o Alpha desta alcateia. Não vou viver à sombra de pactos que não foram feitos por mim.
Cael cruzou os braços, firme, a expressão grave.
— Alpha ou não, você sabe que existe uma hierarquia. Os anciões não vão tolerar essa quebra. Aqueles pactos foram selados com sangue. Não importa quem você seja, Adrian, as consequências serão terríveis.
Senti o peito explodir em uma mistura de raiva e frustração.
— Consequências? Você fala como se eu tivesse escolha! — Dei um passo à frente, a voz rouca, carregada de uma urgência que mal conseguia controlar. — Você não entende, Cael. Ela não é apenas uma humana qualquer. Ela é minha luna. Predestinada. Meu corpo, minha alma, tudo em mim é arrastado para ela.
Cael apertou os olhos, como se buscasse paciência para lidar com a minha confissão. — Justamente por isso é ainda mais perigoso. Você vai colocar não só a si mesmo em risco, mas todos nós.
— Eu não consigo resistir — confessei, a voz mais baixa, quase um sussurro. — Estar perto dela é como respirar depois de se afogar. Quando a vi, quando ouvi sua voz… foi como se todo o resto desaparecesse. Você não entende, Cael. Não é apenas desejo. É… inevitável.
Ele me observou em silêncio por alguns instantes, antes de balançar a cabeça.
— Eu entendo mais do que você imagina. Mas inevitável ou não, ainda existe o pacto.
Passei as mãos pelos cabelos, frustrado, andando de um lado para o outro como uma fera enjaulada. — Aquele pacto foi feito há séculos, por alguém que já não existe. Eles decidiram, em nome de todos nós, que viveríamos separados. Mas e quanto a mim? E quanto a ela? Eu não estava lá para dar minha palavra. Eu não vou viver segundo as correntes de escolhas que não foram minhas.
— Esse é o preço de carregar o sangue da alcateia — Cael respondeu, firme. — Você não é apenas um homem, Adrian. É Alpha. Sua vida não é só sua. Todos nó dependemos das suas atitudes, das suas escolhas.
As palavras dele foram como golpes, mas a chama dentro de mim não apagava.
Parei diante dele, olhando diretamente em seus olhos. — Você não viu como eu vi. Não sentiu o que eu senti. Há algo nela… algo que vai além da simples humanidade.
Cael franziu o cenho. — Do que você está falando?
Respirei fundo, tentando colocar em palavras aquilo que até eu mal compreendia. — Quando a vi, senti uma pureza imensa dentro dela. O coração dela é como cristal, limpo, luminoso. Mas ao mesmo tempo… existe uma névoa, uma sombra que a envolve. Uma tristeza tão profunda que parece manchar a alma dela. É como se o mundo tivesse tentado apagá-la, mas, de alguma forma, ela ainda brilhasse.
Cael ficou em silêncio por um instante, como se absorvesse minhas palavras. Mas logo balançou a cabeça, voltando ao tom prático que sempre teve.
— Seja o que for que você sentiu, não muda o fato de que ela é humana. E humanos não pertencem ao nosso mundo.
Minha respiração estava pesada, os punhos cerrados. — Eu sei o que é pertencer, Cael. E sei que ela me pertence.
Ele suspirou, passando a mão pelo rosto. — Se os anciões souberem, você será punido. Alpha ou não, não estará acima da lei.
— Então que eles tentem me punir — respondi, a voz carregada de desafio. — Porque nada, nem mesmo os anciões, vai me manter longe dela.
Cael me olhou com uma mistura de frustração e preocupação genuína. — Você está jogando com fogo, Adrian. E pode arrastar todos nós para as chamas.
Não respondi. Apenas ergui o rosto para a lua, que brilhava acima da floresta, imensa e silenciosa. Dentro de mim, a decisão já estava tomada.
Eu sabia que estava quebrando regras antigas. Sabia que o peso do pacto podia cair sobre meus ombros como uma condenação. Mas não importava.
Porque havia uma verdade que nenhum pacto poderia apagar:
Elara era minha.
E nada me impediria de tê-la.
Não consigo entender, se ela é humana como pode ser minha predestinada? O destino estaria brincando comigo, talvez com ela ou com nós dois?
Mas uma coisa era certa, ela era minha e nada mudaria isso.
ElaraO sol nascia dourando o mundo, tingindo o céu de tons quentes que pareciam renascer com ele. A aldeia e a vila, antes separadas por ódio e medo, agora vibravam em um mesmo ritmo — o da vida. O da paz.As pessoas caminhavam lado a lado, humanos e lobos. As crianças corriam pelo campo, os mais velhos riam, e até o vento parecia mais leve, livre das sombras que o tempo deixou para trás. Ragnar, o lobo marcado por fúria, aproximou-se de Adrian e se ajoelhou diante dele, com os olhos marejados.— Fui cego... deixei o instinto me dominar — murmurou ele, com a voz rouca. — Peço perdão a todos.Adrian assentiu, e aquele simples gesto encerrou séculos de rancor. O perdão, pensei, era a verdadeira magia.Aos poucos, a celebração começou. Havia música, risos e o cheiro doce das flores silvestres. Maeve dançava entre os aldeões, o rosto iluminado, enquanto eu e Adrian nos afastamos, de mãos dadas, seguindo o caminho que subia a colina.— Está tudo tão... diferente — sussurrei, olhando para e
AdrianO vento soprava frio dentro do templo antigo, carregando o cheiro úmido das pedras, o eco distante das vozes dos anciões e o som abafado da chuva que começa a cair lá fora. O caos tinha cessado, e agora restava apenas o silêncio. Um silêncio tão pesado que parecia vivo, como se o mundo inteiro prendesse o fôlego diante do que acontecera.Eu me ajoelhei ao lado dela. Elara estava deitada sobre o altar de pedra, a pele pálida como a lua, os lábios frios, o corpo imóvel. As runas em volta dela ainda brilhavam em tons de prata e vermelho, pulsando com a energia que consumira tudo o que ela tinha.— Elara... — minha voz saiu como um sussurro trêmulo. — Por favor, me ouve. Não faz isso comigo. Não parte assim.Segurei a mão dela, fria e leve, como se fosse feita de névoa. O peito doía, um buraco se abrindo no meio de mim, queimando por dentro. Eu a beijei na testa, buscando nela algum sinal de vida, qualquer coisa — um sopro, um tremor, uma respiração. Mas nada.— Não é justo. — mu
AdrianCaminhamos lado a lado, em silêncio. A floresta, agora calma, parecia abrir caminho para nós. O ar estava frio, mas havia algo diferente nele — como se a magia que antes destruía agora apenas observasse.Cada passo era um adeus. Cada respiração, uma promessa.Meu peito doía, pela perca do meu irmão. A dor era insuportável.Elara e acompanhava, chorando, compartilhava da mesma dor que eu sentia.Conforme íamos andando, reconhecemos os corpos pelo caminho, lobos e humanos que morreram numa batalha insana, sem um motivo concreto.Elara soltou um grito, a dor vinha de dentro do seu coração. Ela correu até uma árvore e se ajoelhou, seu choro constante, triste. Ela gritava:— Papai! Fique comigo! Não vá!Daren estava alí caído, ferido, tentando falar algo, mas sangue saía entre seus lábios dificultando as palavras.— Não diga nada, papai. O senhor tinha que ter ficado em casa.— Vim te proteger — Daren conseguiu balbuciar antes de falecer.Elara, chorando tentou pegar o pai no col
ElaraO mundo estava em silêncio. Um silêncio pesado, espesso, impossível de suportar.A lua branca brilhava sobre a devastação — o campo tomado de corpos, sangue e cinzas. As árvores gemiam com o vento, e o cheiro metálico ainda pairava no ar. Tudo parecia imóvel, suspenso, como se o tempo tivesse parado para assistir à dor.Meu coração batia em descompasso. Não sentia mais as pernas. Não sentia o chão. Só o desespero.E então eu o vi.Entre a poeira e a fumaça, o corpo dele. Adrian. Caído de lado, imóvel, o rosto parcialmente coberto pelo cabelo escuro manchado de sangue.Um som escapou da minha garganta — algo entre um soluço e um grito. — Adrian!Corri. Tropecei em pedras, em corpos, em lembranças. Cada passo doía. Cada batida do meu coração parecia arrancar um pedaço de mim.Quando alcancei-o, caí de joelhos ao seu lado, o corpo inteiro tremendo. As mãos sujas tocaram o peito dele — frio, coberto de sangue. — Não... não, por favor, não... — sussurrei, o choro engasgand
ElaraA terra tremia.Era como se o próprio coração do mundo batesse sob o chão, pulsando com o sangue da guerra. O ar estava denso, pesado de fumaça e magia quebrada. O som dos gritos, dos uivos e das espadas se chocando misturava-se ao rugido distante de trovões — mas não havia tempestade. Era a lua sangrando no alto do céu, vermelha, viva, derramando sua maldição sobre todos nós.Tentei me mover, mas meu corpo não respondia. Meus joelhos estavam feridos, os braços formigavam e a cabeça latejava como se estivesse sendo rasgada de dentro para fora. O feitiço anterior havia me drenado. O chão frio da clareira parecia sugar o que restava da minha força.Meu nome ecoava, distante, entre o caos. “Elara!”A voz de Adrian. Mesmo no meio da batalha, eu o sentia. Seu coração, o meu, ligados por algo que ultrapassava o corpo, o tempo e o medo.Tentei abrir os olhos. A fumaça das tochas ardia, a poeira e o sangue formavam um véu diante de mim. Vi sombras se movendo — lobos e homens, indisti
ElaraFizemos amor. Um amor desesperado, febril, como se o mundo fosse ruir ao amanhecer. E, de certa forma, estava ruindo.Agora, deitada sobre o peito dele, ouvia o som grave de sua respiração. Sua pele ainda estava quente, e o cheiro de terra, suor e luar se misturava ao meu. Ele passava os dedos distraídos pelos meus cabelos, mas o olhar fixo na distância denunciava o que ele tentava esconder: a preocupação.— Está sentindo? — perguntei, minha voz um sussurro. — Sim. — Ele respondeu sem hesitar. — O sangue da lua… já começou a chamar.As palavras dele pairaram no ar, pesadas como o destino.Lá fora, Cael rondava inquieto, e os outros lobos se moviam pela clareira com nervos à flor da pele. O vento trazia consigo o cheiro dos humanos — madeira, fogo, medo. Eles estavam perto. Muito perto.Adrian se levantou, o corpo nu iluminado pela luz carmesim que filtrava pelas frestas. Por um instante, ele parecia feito da própria noite: selvagem, imortal. Mas havia cansaço em seu olhar







