INICIAR SESIÓNHelena andou por horas.
O salto machucou seus pés, a bolsa pesou no ombro, mas ela não conseguiu parar. Passou por vitrines, faixas de pedestres, pessoas rindo ao telefone como se o mundo não tivesse acabado naquela manhã, e para eles não acabou mesmo mas para ela... Sete anos reduzidos a papéis assinados. Sete anos trocados por uma amante grávida, sete anos tentando ser boa o bastante, silenciosa o bastante, até descobrir que nunca passou de uma mulher esperando ser substituída.
Quando entrou em uma cafeteria pequena, já era fim de tarde. O cheiro de pão quente e café recém-passado a lembrou que não comia desde cedo, então escolheu uma mesa no canto, pediu uma fatia de bolo simples e um café. Tentou comer, mas o doce desceu seco, preso na garganta. A dona do lugar, uma senhora de cabelos grisalhos e olhar manso, observava de longe, como se reconhecesse aquele tipo de tristeza que estava estampada nos olhos dela. As duas se encararam por alguns instantes e a senhora ofereceu um sorriso gentil e pequeno, e aquilo foi o suficiente para Helena desabar.
Cobriu a boca com a mão, tentando abafar os soluços, mas as lágrimas vieram quentes, carregando tudo que segurou diante de Leonardo. Chorou pela traição, pela humilhação, pela amiga falsa, pelo filho que nunca veio, pela mulher que se culpou enquanto o marido construía outra vida em segredo. Quando conseguiu respirar, chamou a senhora para pagar.
— Desculpa. Eu só tive um dia ruim.
— Tem dia que a gente não mata o leão, minha filha. Mas você sempr epode tentar no dia seguinte e no próximo, é só não desistir.
Helena tentou sorrir. Entregou o cartão e esperou, ansiosa para ir pra qualquer lugar, mas a máquina apitou. Recusado. Pegou outro cartão, depois outro, sentindo o sangue fugir do rosto a cada nova tentativa. Recusado. Recusado. Recusado. A vergonha subiu por seu pescoço, quente e sufocante.
Não era erro do banco, ela sabia.
Era Leonardo.
Ele controlava as contas, os cartões, as senhas dela desde sempre.
— Eu posso deixar minha bolsa aqui e voltar depois com dinheiro — murmurou, com os olhos ardendo. — Não costumo fazer isso, juro que não quero te passar a perna pra cmer de graça.
A senhora empurrou o cartão de volta com delicadeza.
— Vá para casa, menina.
— Eu preciso pagar de algum jeito.
— Hoje não precisa não se preocupe.
— Não sou caloteira, eu só… — a boca dela tremeu de novo, uma nova crise de choro ameaçando vir.
— Eu sei que não, pode ir. O café e o bolo foram um presente pra adoçar um pouquinho que seja seu dia difícil.
Helena saiu com a dignidade ferida de um jeito que nem o divórcio conseguiu ferir. Mal pisou na calçada, quando o celular vibrou. Era uma ligação do banco, e os ombros de Helena cairam, pensando em como aquele dia poderia ficar pior. Atendeu ainda tentando limpar as lágrimas, mas a voz formal da atendente a fez parar no meio da rua.
— Senhora Helena Duarte Vasconcelos? Entramos em contato referente ao imóvel da Rua das Acácias, colocado como garantia em contrato de penhor. Existe uma dívida em aberto, com risco de execução nos próximos dias.
A rua desapareceu ao redor dela.
— Isso é impossível — Helena apertou o celular contra o ouvido. — Essa casa era do meu pai. Ninguém podia colocar essa casa em garantia a não ser eu e eu não comprei nada.
Aquela casa era a unica coisa que ainda tinha, sue unico bem, a unica lembranã da sua família.
— Consta no sistema autorização do senhor Leonardo Vasconcelos como representante legal, ele é seu marido, não é?
A casa da Rua das Acácias, portão azul, varanda pequena, pé de jabuticaba no quintal. A última coisa que os pais deixaram. Helena desligou sem ouvir o restante, ele podia ter levado o casamento, os cartões, a paz, mas não aquela casa.
Quando chegou à mansão dos Vasconcelos, a noite já tinha descido sobre a cidade. Leonardo estava na entrada, como se a esperasse, com o celular em uma das mãos e a mesma tranquilidade cruel no rosto. Helena parou diante dele antes que o medo pudesse fazê-la recuar, sentindo a raiva subir pelo peito, quente e dolorida.
— O que você fez com a casa do meu pai?
Ele guardou o celular no bolso com calma.
— Boa noite para você também.
— Responde!
— Não estou com paciência para escândalo.
— Eu perguntei o que você fez com a casa do meu pai, porra!
Leonardo desceu um degrau, aproximando-se. O perfume caro dele chegou primeiro, enjoativo, familiar demais. Helena ficou imóvel, mas as mãos tremiam ao lado do corpo. Ele a observou como quem avalia algo quebrado, algo que ainda podia ser usado se fosse pressionado do jeito certo.
— Usei como garantia, nada demais.
— Você não tinha esse direito!Aquela casa me pertencia!
— Você me deu procuração sobre todos os seus bens quando casamos.
— Para emergências, não para roubar a minha herança.
— Cuidado com o tom.
— Por quê? Vai tirar mais alguma coisa de mim? Não sobrou nada, seu desgraçado! O que você fez com a casa dos meus pais?
Leonardo sorriu de lado.
— Usei o dinheiro para comprar um carro para Isadora.
A frase deixou Helena sem ar. Só um silêncio pesado, enquanto a imagem se formava em sua mente: Isadora sorrindo dentro de um carro novo, passando a mão pela barriga, agradecendo ao homem que acabara de destruir a única lembrança viva dos pais dela.
— Você penhorou a casa do meu pai para dar um carro pra sua amante?
— Não seja melodramática, a casa ainda não foi tomada, ainda dá tempo de arcar com a dívida.
— Então pague essa merda!
— Não.
Helena sentiu uma lágrima escapar, mas limpou rápido demais para dar a ele o prazer de vê-la desabar. Leonardo percebeu mesmo assim, os olhos dele brilharam com satisfação, e aquilo a enojou mais do que a traição. Ele queria vê-la sem dinheiro, sem saída, sem chão, porque assim, mesmo divorciada, ela ainda dependeria da boa-vontade da família dele .
— Sem mim, você não tem dinheiro, não tem influência, não tem casa, nem mesmo a única herança que seus pais deixaram.
— Você é um monstro.
— Sou o único que ainda pode te ajudar.
— Você se divorciou de mim, porque está fazendo isso? Não temos mais nada! Não quero nada de você, só o que era meu! Qual seu problema, Leonardo?
— Vivi sete anos com você, gosto de você Helena — começou, segurando o queixo dela e olhando para a boca carnuda. — Gosto da sua aparência, do seu corpo. Ainda podemos nos ver às vezes e aí não vou deixar nada faltar para você…
Ele se aproximou mais, a voz baixa, venenosa, quase íntima.
— Posso ser generoso. Talvez até salve a casinha do seu pai, se você pedir direito. Não conseguiu me dar o que eu queria, mas ainda serve pra algo…
Helena encarou o homem que um dia chamou de marido, sentindo a dor tentar dobrar seus joelhos. À sua frente, restava a noite, a dívida, a ruína e aquele último pedaço de dignidade que Leonardo queria arrancar com as próprias mãos.
Ele a traiu, se divorciou dela e agora sua melhor proposta era mantê-la como amante, a chantageando com a unica lembrança que tinha de seus pais para isso.
— É só pedir com jeitinho, querida.
Bento chegou no quarto num segundo e, enquanto exami8nava a marca de Helena e a de Caio, seus lhos ficavam cada vez mas serios. Depois olhou para Caio como se tivesse visto algo impossível.— É um vínculo de mão dupla.André, parado atrás dele, ficou sério.— Isso é comum?Beto balançou a cabeça.— Isso não acontece desde os Alfas Supremos, eu mesmo nunca vi um pessoalmente. Acontece quando os dois tem uma ligação concretizada antes mesmo de sere marfcados, foi a energia dela que fez isso. — Então... O que fazemos agora? — o alfa perguntou, desviando os olhos de Beto para Helena e voltando para Beto de novo. — A marca dela mudou, e agora isso.— Não é algo perigoso. A marca dela mudou por causa da lua cheia, ao menos é o que eu acho. E a sua só mostra que o vinculo de vocês é verdadeiro, é uma conexão de alma, alfa. ***No café da manhã, enquanto todos se reuniam no grande salão, Gregor percebeu que algo não estava certo.Caio estava com o primeiro botão da camisa aberto quando che
Os beijos ficaram desesperados. As mãos exploravam com fome: ele apertou a bunda dela e a puxou para a beira do parapeito, abrindo as pernas dela em volta da cintura. Os dedos dele voltaram para entre as coxas, dois invadindo de uma vez, curvando-se para dentro, entrando até o fundo. Helena gemeu alto demais, a cabeça caindo para trás.Ele tirou os dedos, levou à boca, lambeu, com um sorriso puramente malicioso, depois alinhou a cabeça do pau na entrada dela e empurrou.Devagar no começo, porque ela era humana, porque ele era grande e porque mesmo a fera sabia a diferença entre fazer amor e machucar alguém. Helena segurou os ombros dele, soltando um gemido tremulo contra a boca dele enquanto ele abria caminho, centímetro por centímetro, até estar enterrado até o fim.O corpo dela tremeu em volta dele, apertado, quente, pulsando.Caio parou.A respiraç&
Quando o jantar terminou, Caio levou Helena ao terraço no terceiro andar.A noite estava fria, a lua quase cheia iluminando as montanhas e as luzes do território brilhando lá embaixo. Helena apoiou os braços no parapeito de vidro enquanto Caio ficou ao lado dela.— Minha mãe estava grávida quando aconteceu o massacre com o qual você sonhou — ele disse de repente.Helena virou.Caio olhava para a floresta.— O cahcina não aconteceu tão perto da nossa alcateia, mas quqando a arvore e a ultima luna primordial morreu... As sombras entraram nela. A voz dele estava calma demais.— Quando eu nasci, já estavam dentro de mim.Helena ficou em silêncio.— Minha mãe me amava — continuou. — Mas tinha medo, meu pai nem tentava esconder. Cresci ouvindo gente me chamar de monstrinho quando achava que eu não entendia.As mãos dele fecharam.— Crianças eram proibidas de brincar comigo. Guerreiros eram colocados perto de mim durante refeições. Meu pai mantinha prata no quarto para proteger a todos.Hel
Caio segurou Helena nos braços antes mesmo que ela terminasse de recuperar o fôlego.Ela ainda tremia, sentada na cama, a marca brilhando no pulso enquanto tentava separar o sonho da realidade. O quarto estava escuro, a respiração pesada dele perto de seu rosto e as sombras já começavam a se agitar pelas paredes, respondendo ao medo que crescia dentro do Alfa. Helena agarrou a camisa dele, ainda vendo a mulher de cabelos prateados, a taça e o líquido negro derramando como se estivesse vivo.— Me conta tudo — Caio pediu. — Exatamente como viu.Helena respirou fundo.— Gregor estava lá. Eu vi a taça do rito, aquela que você usa na lua cheia. Tinha alguma coisa preta dentro, Caio... Não parecia vinho, parecia… sei lá, parecia escuridão. E ela falou comigo.— A mulher?Helena assentiu.— Disse que vão envenenar a fera.As sombras atrás de Caio avançaram pelas paredes.— Gregor.— Também acho.— Vou expulsar ele daqui agora mesmo!Helena segurou seu rosto antes que ele se levantasse.— E v
Gregor deu um passo na direção dela, e o rosto elegante finalmente perdeu parte da calma.— Você é uma humana entrando em assuntos que existiam antes do nascimento de seus avós.— E mesmo assim você parece preocupado demais comigo.Um som baixo e ameaçador saiu da garganta de Gregor.E Caio se moveu na mesma hora, parando protetoramente na frente de sua companheira. As sombras explodiram atrás dele como fumaça negra, movendo-se perigosamente e assustando todos ao redor.— Rosne para ela de novo — Caio disse, baixo. — Só mais uma vez... E sabe o que farei com você.Gregor encarou o Alfa.— Está ameaçando um emissário oficial?— Estou avisando um homem dentro do meu território que, se ousar desrespeitar minha companheira, vai pagar caro.A palavra atingiu Helena de uma forma estranha de novo, como se algo dentro dela adorasse aquele som, aquelas letras, a forma como Caio falava aquilo.Companheira.— Helena está sob minha proteção e que não vou aceitar uma armação contra ela.— Isso não
O sol mal tinha terminado de nascer quando as presas começaram a juntar todos nos jardins.Helena ainda estava acordada, depois da descoberta do quarto revirado, ninguém tinha conseguido dormir direito. Sena permaneceu com ela até quase amanhecer, enquanto Caio, André e dois homens da segurança vasculhavam os corredores, checavam câmeras, interrogavam guardas e tentavam descobrir como alguém tinha entrado na ala do Alfa sem ser visto. A escova de cabelo, a blusa usada e a fotografia dos pais continuavam desaparecidas. Nada de valor financeiro foi tocado, nada que um ladrão comum levaria, só coisas pessoais demais, íntimas demais, carregadas do cheiro, do sangue ou da memória dela.Então, quando as presas começarama pedir que todos fossem aos jardins, Helena já sabia que aquele dia começaria mal.— O que é isso? — perguntou, saindo do quarto.Sena apareceu no corredor alguns segundos depois.— Convocação geral.— Caio sabe disso?Sena balançou a cabeça.— Não sei, mas as presas estão j







