FAZER LOGINO tapa estalou antes que Helena pensasse nas consequências.
A mão dela acertou o rosto de Leonardo com tanta força que o som pareceu ecoar na mansão Vasconcelos. Por um segundo, até ele ficou imóvel, com o rosto virado para o lado e a expressão vazia de quem nunca imaginou que aquela mulher, sempre tão quieta, sempre tão educada, sempre tão preocupada em não causar vergonha, teria coragem de levantar a mão contra ele. Helena também tremeu, não de arrependimento, mas de raiva. A palma ardia, o peito queimava, os olhos estavam cheios de lágrimas que ela se recusava a derramar na frente dele.
— Nunca mais encosta em mim desse jeito — ela rosnou, empurrando a mão dele para longe de seu rosto. — Nunca mais fala da casa dos meus pais como se fosse uma merda sua e nem de mim como se eu fosse uma puta que você pode só pagar para ter. EU NÃO SOU UM OBJETO!
Leonardo levou os dedos ao canto da boca, devagar, como se ainda estivesse tentando entender o que tinha acontecido. Depois sorriu, mas o sorriso não tinha mais aquela calma debochada de antes. Havia raiva ali, uma raiva fria e perigosa.
— Você vai se arrepender disso.
— Mais, Leonardo? Os sete anos que dediquei a você são o maior arrependimento da minha vida!
Ela não esperou resposta. Passou por ele e entrou na mansão com os passos duros, quase tropeçando no próprio salto, mas sem diminuir o ritmo. A casa estava iluminada demais, perfumada demais, viva demais para uma noite em que sua vida tinha acabado. Flores brancas e douradas estavam sendo colocadas em vasos enormes perto da escadaria, empregados caminhavam de um lado para o outro com bandejas de taças, caixas de bebidas caras, arranjos, toalhas novas, como se ali fosse acontecer uma celebração importante. E iria mesmo, só não era para ela. Era a celebração da mulher que tinha roubado seu casamento e do homem que a descartou como um erro incômodo.
Helena parou no meio do hall, sentindo o estômago embrulhar.
— Que palhaçada é essa?
Uma empregada abaixou os olhos depressa, constrangida, enquanto outro funcionário fingia não ter ouvido. No centro da sala principal, havia um vestido pendurado em um manequim, coberto por um plástico transparente. Era claro, elegante, caro, com bordados delicados na cintura. Helena soube antes mesmo de perguntar, era de Isadora. A casa que um dia foi chamou de sua estava sendo enfeitada para apresentar a amante grávida do marido como nova senhora daquele lugar, antes mesmo que suas roupas tivessem sido retiradas do closet.
— Bonito, não é?
A voz de dona Odette veio da lateral da sala, afiada como uma lâmina. A mãe de Leonardo apareceu usando um conjunto bege impecável, o cabelo preso em um coque, as joias brilhando no pescoço fino. Sempre pareceu uma mulher elegante para os outros, mas Helena conhecia o veneno escondido atrás daquela postura. Odette a olhou de cima a baixo, demorando nos sapatos gastos, nos olhos vermelhos, na bolsa apertada contra o corpo.
— Isadora tem bom gosto. Combina melhor com esta casa do que você jamais combinou.
— Eu vim pegar minhas roupas e meus documentos. Depois disso, nunca mais piso aqui.
— Suas roupas? — Odette riu baixo. — Você quer dizer as roupas que meu filho comprou durante o casamento?
Helena apertou a alça da bolsa, sentindo a raiva subir outra vez. Não tinha forças para mais uma humilhação, mas aquela família parecia decidida a arrancar dela até o último pedaço de dignidade.
— Eu quero o que é meu.
— Você entrou nesta família como uma pobretona, Helena. Vai sair da mesma forma.
— Minhas roupas pessoais e meus documentos não pertencem aos Vasconcelos.
— Tudo que está nesta casa foi comprado com dinheiro dos Vasconcelos. E depois do escândalo que você fez lá fora, acha mesmo que vou deixar levar alguma coisa sem supervisão? — Odette virou o rosto para dois empregados parados perto da escada. — Acompanhem ela. Não deixem tocar em nada que não seja seus documentos. Se tentar esconder joias, bolsas ou roupas de marca, chamem a segurança.
Helena olhou para os empregados. Alguns desviaram o rosto, outros permaneceram imóveis, obedientes demais para parecerem humanos naquele instante. Ela sentiu vergonha de novo, mas agora a vergonha vinha acompanhada de uma fúria grossa, difícil de engolir. Durante anos, ouviu Odette insinuar que ela era inferior, que não sabia se portar, que nunca teria sangue azul o suficiente para ser uma Vasconcelos. Ainda assim, engoliu tudo por Leonardo. Por aquele casamento morto. Por uma família que só esperava a hora certa de jogá-la na rua.
— A senhora pode ficar com as roupas — Helena cuspiu. — Pode vestir todas na Isadora, se quiser. Tenho certeza que ela vai gostar já que parece adorar meus restos.
Odette estreitou os olhos.
— Olhe como fala comigo.
— Não sou mais obrigada a agradar ninguém aqui.
Um som de salto descendo a escada fez Helena virar o rosto. Isadora apareceu devagar, uma das mãos pousada sobre a barriga ainda discreta, o sorriso suave demais para não ser falso. Usava um robe de seda claro, os cabelos soltos em ondas loiras perfeitas e uma expressão de triunfo que fez Helena sentir vontade de vomitar. Aquela mulher tinha chorado em seu colo, dormido em seu quarto de hóspedes, chamado Helena de irmã. Agora descia as escadas da mansão como se já fosse dona de tudo.
— Helena… — Isadora murmurou, fingindo doçura. — Eu queria que as coisas tivessem sido diferentes.
— Queria tanto que engravidou do meu marido escondida, né sua vadia desgraçada?
Isadora perdeu o sorriso por um segundo, mas logo recuperou a expressão mansa, olhando para Odette como se buscasse proteção. Aquilo enojou Helena mais do que qualquer ofensa. A covardia. A falsidade. A cara de santa depois de ter enfiado uma faca onde mais doía.
— Eu e Leonardo nos apaixonamos — Isadora levou a mão à barriga. — Não planejamos te machucar… Foi amor, entende?
— Não quiseram me machicar? Dormir com o marido da sua melhor amiga, engravidar dele e perguntar quando podia anunciar não era para machucar? Era o quê? Um ato de caridade?
Odette deu um passo à frente.
— Chega. Isadora não precisa ouvir desaforo de uma mulherzinha da sua classe..
— Da minha classe? — Helena riu, mas a risada saiu quebrada. — Eu fui traída dentro da minha própria casa por uma vadia que me abraçava depois dos meus exames e eu su a sem classe?
— ALFA!O grito de Kaia veio do lado de fora.Caio se levantou imediatamente e colocou Helena atrás de si. Um segundo depois, André apareceu na entrada do porão avisando que tinham companhia. Helena guardou a caixa e acompanhou os dois até a parte externa da casa, onde encontrou Kaia diante de sete homens desconhecidos, todos usavam roupas escuras e pareciam magros e mal cuidados.Errantes.Renegados.E no meio deles estava Mirela.A antiga guerreira parecia completamente diferente da mulher arrogante que Helena conheceu. Estava mais magra, os cabelos desgrenhados e a cicatriz no rosto parecia ainda mais evidente. Quando viu Helena, abriu um sorriso que não tinha absolutamente nada de amigável.— Finalmente encontrei você.Caio avançou um passo.— Você foi banida, Mirela.— E você acha que eu me importo com isso agora? — ela respondeu, rindo. — Passei minha vida inteira servindo aos Draven. Fiz tudo que mandaram, suportei aquela desgraçada de humana ocupando o lugar que deveria ser me
A casa continuava praticamente igual desde a última visita, exceto pelas pequenas folhas verdes que agora brotavam do tronco, antes morto, no porão. Helena sentiu a marca esquentar assim que entrou, mas ignorou o chamado da Raiz e caminhou diretamente para a escada. Caio a acompanhou, enquanto André e Kaia verificavam os arredores antes de entrarem. A pedra estava no mesmo lugar, escondida sob um dos degraus. Helena se ajoelhou com algum cuidado por causa do ombro ainda dolorido e conseguiu removê-la depois de algumas tentativas, revelando uma caixa de metal escurecido que parecia estar ali havia muitos anos.— Meu Deus... — ela murmurou, puxando a caixa.Dentro havia documentos amarelados, um pingente de prata com símbolos que não reconheceu, algumas folhas cobertas por nomes escritos numa língua estranha e duas cartas dobradas cuidadosamente. Helena reconheceu a letra da mãe imediatamente, era a mesma caligrafia arredondada dos bilhetes que encontrava na geladeira quando chegava da
Helena continuava olhando para o prontuário, tentando entender o que aquele símbolo estava fazendo nos documentos de sua mãe. O círculo cortado ao meio era exatamente igual à marca que os Errantes haviam deixado sob sua janela, a mesma encontrada ao lado do corpo do sentinela assassinado na fronteira Draven. Aquilo não podia ser coincidência, não depois de tudo que tinha acontecido desde que Caio apareceu em sua vida. Ela passou os dedos pela data mais uma vez, sentindo um aperto desconfortável no peito enquanto André mexia no computador, procurando alguma coisa nos arquivos que tinha conseguido recuperar da clínica.— Minha mãe estava sendo perseguida? — perguntou, finalmente levantando os olhos. — É isso que você está tentando me dizer?André respirou fundo.— É uma possibilidade, Helena. Mas encontrei alguém que talvez possa esclarecer algumas coisas.Ele pegou o celular sobre a mesa e procurou um número, colocando a ligação no viva-voz enquanto Helena se aproximava. Caio permanece
A comemoração continuou depois da cerimônia, mas Helena mal conseguiu respirar durante a primeira hora. Pessoas se aproximavam para cumprimentá-la, crianças queriam olhar o diadema de perto e Sena aparecia a cada dez minutos chorando outra vez porque alguém tinha acabado de parabenizá-la pela nova posição.Foi só quando as fogueiras já estavam mais baixas que Caio segurou a mão de Helena.— Vem comigo.Ela estreitou os olhos.— Para onde?— Você faz perguntas demais.— Vladmir falou a mesma coisa, péssima comparação.Caio fez uma careta.— Vem logo.Ele a levou para uma parte mais afastada do jardim, perto de uma árvore onde ainda conseguiam ouvir a música e as conversas, mas ninguém estava perto o suficiente para escutar o que diziam. Helena achou estranho quando percebeu que Caio estava nervoso.Nervoso de verdade.— O que aconteceu?— Nada.— Você está com cara de quem vai me contar que existe outro Conselho secreto dentro do Conselho.— Não existe.— Você demorou para responder.—
Contar para os outros foi quase pior.André ficou em silêncio por três segundos antes de abrir um sorriso enorme e abraçar Caio, que reclamou imediatamente. Sena começou a chorar antes mesmo de Helena terminar a frase e perguntou se podia abraçá-la. Kaia olhou para a barriga, depois para Helena, depois para Caio e anunciou com naturalidade que os treinos continuariam, apenas adaptados a nova condição da Luna.— Ela não vai lutar grávida — Caio respondeu.Kaia cruzou os braços.— Vai sim, precisa aprender a se proteger.— Não vai.— Alfa, gravidez não transforma as pernas dela em vidro e nem deixa ela doente.— Kaia.— Caio — Helena repetiu no mesmo tom.André virou o rosto para esconder o riso.Caio olhou para todos.— Ninguém aqui leva minha posição a sério.— Finalmente percebeu — Kaia respondeu.A leveza durou pouco.Bento explicou que a gravidez não poderia sair daquela sala, se dois filhos carregassem a linhagem Primordial de Helena e o sangue de Caio unido pelo vínculo de mão du
Bento voltou menos de vinte minutos depois acompanhado de uma mulher que Helena já tinha visto algumas vezes na enfermaria, uma loba mais velha chamada Maura, de cabelos grisalhos presos num coque e mãos pequenas que pareciam delicadas demais para alguém acostumada a fechar feridas de lobos. Helena continuava sentada na cama exatamente como ele a deixou, com uma das mãos apoiada sobre a barriga sem nem perceber que fazia aquilo, enquanto tentava entender que diabos significava ouvir três pulsos lunares dentro de uma pessoa. Caio tinha aparecido cinco minutos antes, ainda com alguns ferimentos sendo tratados, e só não arrancou a porta do quarto quando Bento proibiu que ele entrasse até terminar o segundo exame.— Se vocês não falarem alguma coisa agora, eu juro que vou começar a imaginar doenças muito piores do que qualquer coisa que vocês possam dizer.Maura lançou um olhar repreensivo para Bento.— Você falou dos pulsos antes de confirmar?— Eu me surpreendi.— Você tem mais de sesse







