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A caneta parecia pesada demais entre os dedos de Helena.
O ar da sala de advocacia da família Vasconcelos era frio, seco, com cheiro de madeira polida, café amargo e papel recém-impresso. Helena estava diante da mesa de vidro escuro, com os documentos do divórcio espalhados à sua frente, tentando manter as mãos firmes enquanto o peito apertava cada vez mais. Do outro lado, Leonardo olhava para o relógio de pulso pela terceira vez, impaciente, como se aqueles sete anos fossem apenas um compromisso chato atrasando sua manhã.
— Assina logo, Helena. Não tenho o dia todo não, tenho compromissos mais importantes depois daqui.
A voz dele atravessou a sala sem emoção.
Helena ergueu os olhos devagar, encarando o homem que um dia prometeu cuidar dela, o homem por quem abandonou sonhos e pedaços inteiros de si mesma. Leonardo estava impecável, o terno cinza ajustado, os cabelos escuros alinhados, a expressão dura de quem não carregava arrependimento algum. Não parecia o marido de uma mulher prestes a perder tudo, parecia um empresário encerrando um contrato.
— Sete anos para você acabam assim? — perguntou, tentando impedir que a voz tremesse. — Com pressa? Não se importa mesmo nem um pouco comigo? Não valho mais nada memso pra você?
Leonardo soltou uma risada baixa, sem humor. Todos naquela sala sabiam que ela estava em desvantagem, todos sabiam que os Vasconcelos já tinham decidido seu destino antes mesmo de chamá-la ali, mas ninguém parecia disposto a dizer isso em voz alta.
— Ai está você, sempre tentando transformar tudo em drama — Leonardo revirou os olhos. — Você sabia que esse casamento não tinha mais futuro.
— Eu sabia?
— Sete anos e nenhum filho. Minha família precisa de herdeiros, e você nunca conseguiu me dar isso.
A frase atingiu seu peito com um baque doloroso. Helena voltou a sentir o cheiro dos corredores de hospital, o gosto amargo dos remédios, a vergonha de chorar escondida depois de mais um exame negativo, todos os tratamentos para infertilidade que pareciam não adiantar de nada, as inseminações que nunca vingavam. Lembrou de Leonardo segurando sua mão e prometendo que nada daquilo importava. Mentiroso. Ele não enfrentou nada. Apenas esperou até se cansar dela.
— Então eu era só isso? — ela respirou fundo. — Uma reprodutora que falou no seu papel?
— Não distorça minhas palavras.
— Você acabou de dizer exatamente isso.
Leonardo desviou o olhar, pegou o celular no bolso e o colocou sobre a mesa. Helena baixou os olhos para os papéis exatamente quando a tela acendeu, foi rápido, mas não o bastante para poupá-la de mais uma decepção naquele dia. O nome de Isadora apareceu primeiro, seguido da mensagem que fez o chão sumir de vez sob seus pés..
“Amor, o médico confirmou, nosso bebê está bem. Depois que ela assinar, podemos anunciar? Não aguento mais fingir que sou só a melhor amiga dela… Quero viver nosso amor e formar nossa família!”
Helena ficou imóvel.
Leonardo respirou fundo ao perceber o olhar dela preso na tela, mas não teve a decência de parecer culpado.
Isadora.
Sua melhor amiga.
A mulher que chorou ao seu lado a cada tentativa frustrada, que entrou em sua casa, que abraçou suas dores e, pelas costas, ocupava sua cama e carregava o filho que Leonardo tanto exigia. A vida tinha suas formas cruéis de dar uma rasteira nas pessoas, não é? Além de perder o homem com quem jurou que passaria a vida, agora perderia também sua melhor amiga...
"Que esses dois traidores fiquem juntos então", ela pensou, engolindo em seco e apertando mais a caneta. "Esses malditos se merecem!"
— Você ia me contar? — Helena sussurrou. — Ou eu descobriria pelo anúncio?
— Isso não muda nada.
— Ela era minha amiga.
— Isadora me deu o que você nunca conseguiu.
Algo dentro de Helena se quebrou, algo que nunca poderia ser consertado e ela sabia. Pegou a caneta e assinou a primeira página, depois a segunda e a terceira. A mão tremia, mas a assinatura saiu firme. Leonardo a observava, talvez esperando gritos, lágrimas, súplicas.
Mas isso ele não teria, não a veria implorar por um casamento que já tinha enterrado enquanto dormia ao lado dela.
— Pronto — Helena empurrou os papéis para o advogado. — Acabou.
Leonardo franziu a testa.
— Não vai perguntar mais nada?
— Para quê? — ela se levantou, ajeitando a bolsa no ombro. — Você já me respondeu tudo sem eu nem precisar perguntar.
Saiu antes que as pernas falhassem.
O corredor parecia comprido demais enquanto ela caminhava sem olhar para trás, só quando entrou no elevador e viu o próprio reflexo no metal polido, percebeu o quanto estava pálida. Os olhos secos, os lábios sem cor, o rosto de uma mulher que acabara de ser descartada.
— ALFA!O grito de Kaia veio do lado de fora.Caio se levantou imediatamente e colocou Helena atrás de si. Um segundo depois, André apareceu na entrada do porão avisando que tinham companhia. Helena guardou a caixa e acompanhou os dois até a parte externa da casa, onde encontrou Kaia diante de sete homens desconhecidos, todos usavam roupas escuras e pareciam magros e mal cuidados.Errantes.Renegados.E no meio deles estava Mirela.A antiga guerreira parecia completamente diferente da mulher arrogante que Helena conheceu. Estava mais magra, os cabelos desgrenhados e a cicatriz no rosto parecia ainda mais evidente. Quando viu Helena, abriu um sorriso que não tinha absolutamente nada de amigável.— Finalmente encontrei você.Caio avançou um passo.— Você foi banida, Mirela.— E você acha que eu me importo com isso agora? — ela respondeu, rindo. — Passei minha vida inteira servindo aos Draven. Fiz tudo que mandaram, suportei aquela desgraçada de humana ocupando o lugar que deveria ser me
A casa continuava praticamente igual desde a última visita, exceto pelas pequenas folhas verdes que agora brotavam do tronco, antes morto, no porão. Helena sentiu a marca esquentar assim que entrou, mas ignorou o chamado da Raiz e caminhou diretamente para a escada. Caio a acompanhou, enquanto André e Kaia verificavam os arredores antes de entrarem. A pedra estava no mesmo lugar, escondida sob um dos degraus. Helena se ajoelhou com algum cuidado por causa do ombro ainda dolorido e conseguiu removê-la depois de algumas tentativas, revelando uma caixa de metal escurecido que parecia estar ali havia muitos anos.— Meu Deus... — ela murmurou, puxando a caixa.Dentro havia documentos amarelados, um pingente de prata com símbolos que não reconheceu, algumas folhas cobertas por nomes escritos numa língua estranha e duas cartas dobradas cuidadosamente. Helena reconheceu a letra da mãe imediatamente, era a mesma caligrafia arredondada dos bilhetes que encontrava na geladeira quando chegava da
Helena continuava olhando para o prontuário, tentando entender o que aquele símbolo estava fazendo nos documentos de sua mãe. O círculo cortado ao meio era exatamente igual à marca que os Errantes haviam deixado sob sua janela, a mesma encontrada ao lado do corpo do sentinela assassinado na fronteira Draven. Aquilo não podia ser coincidência, não depois de tudo que tinha acontecido desde que Caio apareceu em sua vida. Ela passou os dedos pela data mais uma vez, sentindo um aperto desconfortável no peito enquanto André mexia no computador, procurando alguma coisa nos arquivos que tinha conseguido recuperar da clínica.— Minha mãe estava sendo perseguida? — perguntou, finalmente levantando os olhos. — É isso que você está tentando me dizer?André respirou fundo.— É uma possibilidade, Helena. Mas encontrei alguém que talvez possa esclarecer algumas coisas.Ele pegou o celular sobre a mesa e procurou um número, colocando a ligação no viva-voz enquanto Helena se aproximava. Caio permanece
A comemoração continuou depois da cerimônia, mas Helena mal conseguiu respirar durante a primeira hora. Pessoas se aproximavam para cumprimentá-la, crianças queriam olhar o diadema de perto e Sena aparecia a cada dez minutos chorando outra vez porque alguém tinha acabado de parabenizá-la pela nova posição.Foi só quando as fogueiras já estavam mais baixas que Caio segurou a mão de Helena.— Vem comigo.Ela estreitou os olhos.— Para onde?— Você faz perguntas demais.— Vladmir falou a mesma coisa, péssima comparação.Caio fez uma careta.— Vem logo.Ele a levou para uma parte mais afastada do jardim, perto de uma árvore onde ainda conseguiam ouvir a música e as conversas, mas ninguém estava perto o suficiente para escutar o que diziam. Helena achou estranho quando percebeu que Caio estava nervoso.Nervoso de verdade.— O que aconteceu?— Nada.— Você está com cara de quem vai me contar que existe outro Conselho secreto dentro do Conselho.— Não existe.— Você demorou para responder.—
Contar para os outros foi quase pior.André ficou em silêncio por três segundos antes de abrir um sorriso enorme e abraçar Caio, que reclamou imediatamente. Sena começou a chorar antes mesmo de Helena terminar a frase e perguntou se podia abraçá-la. Kaia olhou para a barriga, depois para Helena, depois para Caio e anunciou com naturalidade que os treinos continuariam, apenas adaptados a nova condição da Luna.— Ela não vai lutar grávida — Caio respondeu.Kaia cruzou os braços.— Vai sim, precisa aprender a se proteger.— Não vai.— Alfa, gravidez não transforma as pernas dela em vidro e nem deixa ela doente.— Kaia.— Caio — Helena repetiu no mesmo tom.André virou o rosto para esconder o riso.Caio olhou para todos.— Ninguém aqui leva minha posição a sério.— Finalmente percebeu — Kaia respondeu.A leveza durou pouco.Bento explicou que a gravidez não poderia sair daquela sala, se dois filhos carregassem a linhagem Primordial de Helena e o sangue de Caio unido pelo vínculo de mão du
Bento voltou menos de vinte minutos depois acompanhado de uma mulher que Helena já tinha visto algumas vezes na enfermaria, uma loba mais velha chamada Maura, de cabelos grisalhos presos num coque e mãos pequenas que pareciam delicadas demais para alguém acostumada a fechar feridas de lobos. Helena continuava sentada na cama exatamente como ele a deixou, com uma das mãos apoiada sobre a barriga sem nem perceber que fazia aquilo, enquanto tentava entender que diabos significava ouvir três pulsos lunares dentro de uma pessoa. Caio tinha aparecido cinco minutos antes, ainda com alguns ferimentos sendo tratados, e só não arrancou a porta do quarto quando Bento proibiu que ele entrasse até terminar o segundo exame.— Se vocês não falarem alguma coisa agora, eu juro que vou começar a imaginar doenças muito piores do que qualquer coisa que vocês possam dizer.Maura lançou um olhar repreensivo para Bento.— Você falou dos pulsos antes de confirmar?— Eu me surpreendi.— Você tem mais de sesse







