LOGINO caminho até a casa de Asha foi silencioso, interrompido apenas pelo som dos meus passos arrastados na terra e pelos soluços baixos que ela tentava prender. Eu mantinha a cabeça baixa, não por vergonha dos olhares que ainda nos perseguiam, mas porque cada músculo do meu rosto protestava a cada movimento.
Assim que cruzamos a porta, Asha me guiou até uma cadeira e correu para buscar uma bacia com água morna e alguns panos limpos. Ela se aproximou devagar, ajoelhando-se na minha frente. Com uma delicadeza que contrastava totalmente com a brutalidade de Tamasi, ela começou a limpar o sangue seco no canto dos meus lábios. — Pronto... — ela sussurrou, a voz trêmula de puro nervoso. — Agora desabafe, Alya. Que loucura foi aquela na rua? Que história é essa de joias da sua mãe? E o dote? Você perdeu o juízo de vez? Deixei escapar um gemido dolorido quando o pano tocou o corte na minha bochecha, mas segurei o pulso dela delicadamente, fazendo-a parar. Olhei bem no fundo dos seus olhos. — Minha mãe sabia exatamente com quem era casada, Asha. Ela sabia das traições do meu pai e sabia que ele e o veneno da Tamasi fariam de tudo para que ela adoecesse, só para tomarem o que era dela. Por isso, antes de partir, ela escondeu a maior parte da sua herança onde ninguém jamais procuraria. O suficiente para comprar a minha liberdade três vezes. Asha arregalou os olhos, deixando o pano cair dentro da bacia. A água morna começou a manchar de vermelho. — Se você tem esse tesouro escondido, por que não usou antes para fugir desse casamento com o velho Ghania? Por que não fugiu da Tamasi de uma vez? — ela perguntou, perplexa. — Porque se eu aparecesse com uma fortuna do nada, Tamasi me acusaria de roubo e meu pai me arrastaria para a polícia. E também tem a Kiara... eu preciso protegê-la, não posso deixá-la para trás com aqueles monstros. Eu precisava de uma justificativa. Precisava de um nome forte, de um homem influente que ninguém ousasse questionar de onde veio o dinheiro. Lembrei-me do quarto luxuoso. Do toque dominante, da pele e do olhar misterioso daquele asiático que tinha feito meu corpo queimar na noite passada. Ele era a peça perfeita para o meu tabuleiro. — Eu vou usar o dinheiro da minha mãe para pagar o meu próprio dote, fingindo que foi o estrangeiro rico quem me enviou, e vou dizer que vou me casar com ele — revelei, sentindo um frio gélido, mas determinado, na boca do estômago. — Tamasi quer ouro? Ela vai ter o ouro dela. Em três dias, eu vou simular o meu próprio resgate. Asha levou as mãos à boca, horrorizada com o tamanho do perigo. — Ficou maluca, Alya? Se você disser que vai se casar com esse tal estrangeiro, ele terá direitos legais sobre a sua herança por direito de casamento! Nós nem sabemos o caráter dele. Como você sabe se ele vai aceitar esse acordo? E se a sua família exigir ver o homem? E se eles quiserem que ele apareça na vila para assinar os papéis? O que você vai fazer? Olhei para o reflexo do meu rosto castigado no espelho velho pendurado na parede da sala. Limpei o resto de sangue que insistia em escorrer e respirei fundo, sabendo que estava caminhando na corda bamba entre a vida e a morte. — Se eles exigirem a presença dele... — cerrei os punhos, engolindo a dor. — Eu vou ter que ir até o inferno para encontrar aquele desconhecido de novo. E rezar para que ele aceite terminar o que começamos naquela noite. Olhei fixamente para a única pessoa em quem eu realmente podia confiar naquele lugar inteiro. — Amanhã temos que ir à cidade de Pune para trocar as joias por dinheiro e depois voltar à boate para encontrá-lo. Asha, invente uma história diferente para a Kiara. Eu a amo, mas ela ainda é filha da Tamasi. Eu sabia perfeitamente o controle manipulador que Tamasi exercia sobre ela, e não podia arriscar o meu único plano de sobrevivência. Asha balançou a cabeça de forma compreensiva, grata pela confiança profunda que eu estava depositando nela. De repente, batidas violentas ecoaram contra a madeira da porta, fazendo o som estrondar pela casa. Asha e eu demos as mãos na mesma hora, sobressaltadas pelo susto. — QUEM É? O QUE QUER? — Asha gritou, com a voz trêmula de pavor. Ninguém respondeu, mas os socos na porta continuaram, ainda mais fortes. — NÃO ABRIREI A PORTA! — Asha esbravejou novamente, tentando parecer firme. — Sou eu, Kiabir! — a voz do outro lado finalmente respondeu. Nós duas soltamos o ar dos pulmões de uma vez, aliviadas. Asha correu até a tranca e abriu a porta. Kiabir, o meu melhor amigo de infância, praticamente invadiu a sala ao me ver. Ele correu direto ao meu encontro e colocou as mãos trêmulas no meu rosto ferido. Seu semblante mudou imediatamente para uma expressão de tristeza profunda ao ver meus machucados. — Foi aquela desgraçada da Tamasi... — ele constatou. Afastando as mãos do meu rosto, ele deu um passo para trás e fechou os punhos com força, a voz carregada de uma raiva pura e contida. Eu desviei o olhar, incapaz de encarar seus olhos. Eu já sabia que ele estava ciente de todo o escândelo da vila. Asha, cruzando os braços, não segurou a língua: — E onde você estava enquanto a Alya estava sendo brutalmente espancada no meio da rua? Kiabir olhou para ela, defensivo, mas visivelmente abalado. — Eu estava trabalhando! Só fiquei sabendo agora pelos boatos que se espalharam... — Ele voltou a se aproximar de mim, com o tom de voz completamente entristecido e trêmulo pelo nervoso. — Por que você fez isso, Alya? Existe mesmo um homem rico nessa história? Eu ainda posso ser o seu marido! Eu posso tentar negociar com a Tamasi de alguma forma... Levantei os olhos para ele, sentindo um aperto no peito. — Por mais que eu quisesse, Kiabir, a minha família nunca concordaria em me deixar casar com você. Tudo por causa da nossa situação financeira. Eles nunca aceitariam. — Eu posso trabalhar por anos para pagar um dote digno para você! — ele insistiu, desesperado. Abaixei a cabeça. Ele simplesmente não entendia o nível de ganância e exigência da minha família. Eles preferiam me ver morta a me ver casar sem uma montanha de dinheiro em troca. Asha entrou no meio da conversa, cortando as ilusões dele: — Kiabir, você sabe muito bem que as coisas não funcionam assim. E você deveria ter feito alguma coisa quando soube que a Alya ia ser vendida para aquele velho Ghania! Mas você não fez nada! — O que eu poderia ter feito? Me diga! — ele rebateu, os olhos pegando fogo de pura frustração e raiva. — Por isso ela se entregou para outro! — Asha disparou. Eu não estava mais aguentando aquela discussão dos dois em cima de mim, como se eu fosse um troféu ou um problema público. Minha cabeça latejava. — Chega! Eu não quero mais falar sobre isso! — decretei, levantando-me da cadeira com dificuldade. Kiabir moveu-se rápido e segurou o meu braço com firmeza, olhando no fundo dos seus olhos. — Só me diga uma coisa: esse homem rico existe mesmo? Respirei fundo, mantendo o silêncio, mas Asha deu um passo à frente, encarando-o com frieza: — Isso é entre mim e a Alya. Desta vez, você e a Kiara ficam de fora. Mas sim, esse homem rico existe. Kiabir soltou o meu braço lentamente, olhando para mim e depois para Asha, engolindo em seco a própria rejeição e o orgulho ferido. Sem dizer mais nenhuma palavra, ele deu as costas e saiu pisando fundo, batendo a porta atrás de si. Eu olhei fixamente para a porta por onde ele havia acabado de sair, sentindo uma onda de tristeza e culpa esmagar o meu peito. Doeu vê-lo daquele jeito. Asha aproximou-se, percebendo o meu semblante abatido, e colocou a mão no meu ombro para me confortar: — Não se preocupe, o Kiabir vai entender depois... Temos apenas três dias para encontrar esse homem misterioso. Eu me levantei devagar, ajeitando minhas roupas rasgadas com as manos trêmulas. — Eu preciso ir para casa, Asha — comentei, preocupada. — Tenho que fazer as minhas tarefas domésticas. Eu não quero te causar problemas aqui. Se eu demorar mais, o Ravan vai acabar vindo atrás de você. Asha me olhou com compaixão e pegou sua chave. — Eu vou te acompanhar até em casa. Não vou deixar você andar sozinha por aí depois do que aconteceu. CIDADE DE PUNE — BOATE Enquanto o medo rondava a nossa vila, o cenário na vibrante cidade de Pune era completamente diferente. Longe dali, dentro das paredes escuras e luxuosas da boate, a realidade também não era fácil. San-jin estava agachado, limpando o chão do estabelecimento. Ele e mais outros cinco rapazes faziam o trabalho pesado da faxina, enquanto um grupo de três funcionários observava tudo de longe, cruzando os braços e rindo da situação de forma debochada. — Olha só... — Harsh comentou, com um sorriso sarcástico no rosto direcionado aos colegas. — O San-jin se deu bem ontem à noite, hein? Pegou a maior gata e dormiu ao lado dela. E agora está aí, de joelhos. San-jin parou o que estava fazendo. Ele se levantou devagar, tensionando os músculos das costas, e cravou na direção dele um olhar mortal. Sua voz saiu em um tom cortante, baixo e aterrorizante: — Você acha mesmo que eu gosto de viver assim? Vikram, que apenas assistia à humilhação encostado no balcão, colocou um cigarro na boca. Ele acendeu, soltando uma lufada de fumaça cinzenta antes de dar um riso de canto. — Não importa se gosta ou não. Esse é o seu trabalho aqui. San-jin deu um passo à frente, a aura ao seu redor tornando-se ainda mais perigosa. Sua voz ecoou de forma sombria pelo salão vazio: — Isso é um trabalho nojento... Mas preste bem atenção: isso não vai ficar barato. Um dia, todos vocês vão pagar por isso. Ele sustentou o olhar, encarando cada um deles, um por um. O clima ficou tão pesado que o amigo de San-jin, que também estava limpando o chão ali perto, parou o serviço imediatamente. Ele olhou para o rapaz com o rosto pálido de puro medo.Ao me aproximar, o meu pai olhou para mim todo orgulhoso e abriu um sorriso largo para os vizinhos verem. Eu continuei séria, encarando-o com frieza. Ele podia fingir o quanto quisesse para a vizinhança, mas eu sabia a verdade. Eu nunca iria perdoá-lo O meu pai pegou na minha mão e a entregou para San-jin segurar. Eu não fazia a menor questão de que o meu pai me levasse até o altar, e a minha frieza deixava isso bem claro. San-jin olhou para mim de cima a baixo, percebendo o meu incômodo com o toque do meu pai. Ele segurou a minha mão com firmeza, e o calor dos seus dedos me fez recuperar o ar na mesma hora. Era como se ele estivesse me dizendo, sem precisar falar nada, que dali para frente eu estava segura com ele. Disfarcei o meu nervoso, sustentei o olhar dele e dei o passo definitivo para o altar, deixando o meu pai para trás onde ele realmente merecia ficar: no passado. O celebrante começou a falar, dando início à cerimônia, mas a voz dele parecia distante, como um som
San-jin tinha acabado de descer das escadas do quarto com passos silenciosos. Tamasi e Kiara estavam na cozinha quando ele cruzou a porta. — Meu querido genro, venha! Eu preparei uma refeição especial para você e a Alya — disse Tamasi, com um sorriso largo. San-jin se aproximou friamente — Por que você me chama de genro se a Alya nem sua filha é? — rebateu San-jin. Kiara olhou para a cara da mãe com aquela expressão de "eu te avisei que não era para tratar ele assim". Tamasi, que estava arrumando o prato de comida, ficou completamente sem graça e tentou disfarçar: — É... é que já é hábito... Eu a considero como uma filha. San-jin olhou para ela, sabendo perfeitamente que tudo aquilo era falsidade. Enquanto isso, Kiara ficava parada, observando cada detalhe e expressão dele. "Esse cara nem parece humano, ele é tão estranho", pensou Kiara, desconfiada daquela frieza toda. — Eu vou levar um prato para a Alya — avisou San-jin. — Todos da vizinhança te elogiam! D
— Ainda acho que você vai roubar o marido da minha irmã.Asha nem piscou, fuzilando-o com os olhos:— Vai para a merda, Ravan!E saiu da presença dele antes que ele pudesse falar mais qualquer besteira Eu entrei em silêncio, e os olhos dele me acompanharam enquanto eu fechava a porta.— Ontem você quase contou todo o nosso segredo para o Kabir — ele disse, respirando fundo.Por dentro, entrei em pânico. Eu realmente não lembrava do que tinha falado com o Kabir. San-jin se aproximou, ficando bem perto do meu rosto:— Você se lembra de alguma coisa?Eu continuei de cabeça baixa, olhando para o chão para disfarçar o nervoso.— Eu só me lembro que você deu uma rasteira nele.San-jin deu um sorriso de canto.— Que bom que você lembrou dessa parte.Olhei para ele com raiva. Na cabeça dele aquilo por acaso era bom?— Olha só, eu me lembro muito bem da nossa briga antes de eu beber — confrontei. — Lembro perfeitamente do motivo.— Exatamente — San-jin concordou. — Você deveria ter sido mais
No restaurante de luxo Adabe, a mesa estava cheia dos pratos mais caros e sofisticados do cardápio, mas o comportamento ali não tinha elegância nenhuma. Ravan e meu pai estavam comendo igual a dois porcos, limpando os pratos com pressa e mastigando de boca cheia. Eles estavam completamente fanáticos pela comida do restaurante luxuoso, aproveitando que não eram eles que iam pagar a conta.San-jin observava os dois discretamente, segurando seu copo com total elegância. O plano de despachar os dois por um tempo estava dando certo. Ele limpou os lábios com o guardanapo de tecido, olhou para o relógio de pulso e se levantou.— Eu tenho que resolver algumas pendências — explicou San-jin, com a voz calma de sempre. — Posso deixar vocês aqui? Volto em quarenta minutos.Ravan, com a boca cheia de carne, olhou para o prato quase intacto do cunhado e franziu a testa, folgado:— Nossa, você come tão pouco! O que vai fazer de tão importante agora?San-jin manteve a expressão tranquila, usando sua
Chega, Ravan! Às vezes você passa dos limites, seu idiota! — Patel brigou logo em seguida, cortando o filho para tentar consertar a burrada, com medo de irritar o genro rico.San-jin piscou, relaxou os músculos do rosto e voltou a olhar para a estrada. Num piscar de olhos, aquela energia assustadora sumiu e ele voltou a usar a sua máscara de bom moço.— Está tudo bem — falou San-jin de um jeito amigável, fingindo que nada tinha acontecido para não levantar suspeitas.Ele continuou dirigindo calmamente em direção ao restaurante, enquanto os dois sanguessugas da minha família não tinham coragem nem de respirar alto ao lado dele.A atendente olhou para nós com atenção:— Quem é a noiva?Eu dei um passo à frente, sentindo o peso do olhar de falcão da Tamasi queimar minhas costas.— Sou eu — respondi.E, naquele momento, percebi que o teatro mais perigoso da minha vida estava apenas começando.— Temos vários tipos de modelos que vão ficar lindos em você — disse a atendente, educada.Tamasi
No banco de trás, a Kiara encolheu os ombros, visivelmente sem graça ao ver a mãe agir de forma tão arrogante e sem noção. Ela olhou para mim pelo retrovisor com um pedido mudo de desculpas nos olhos.O motorista, que eu também havia contratado junto com o carro, apenas escutava aquela conversa estranha pelo retrovisor, mantendo a postura profissional enquanto o clima esquentava no banco de trás.Tamasi ajeitou o corpo no banco de couro, cruzou as pernas e disparou mais uma pergunta cheia de interesse e malícia:— E a lua de mel, onde vocês vão passar? Em Londres? Paris?Eu apertei os dentes. Estava ficando extremamente incomodada porque, obviamente, eu e o San-jin não tínhamos falado nada sobre isso. Para um casamento de fachada, uma viagem romântica internacional não era nem um pouco necessária. Eu mal conseguia olhar para ele sem lembrar do passado de mafioso, quem dirá planejar uma lua de mel!Percebendo o meu silêncio tenso, Kiara tentou intervir com a voz mansa:— Mãe, por favor







