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Capítulo 4

Autor: Bagel
As lembranças das humilhações que sofri na infância, durante as guerras entre alcateias, voltaram como uma onda devastadora.

"Vira-lata da Lua Crescente."

"Uma aleijada que não tem lugar na Corrida da Lua Cheia."

"Ela nem sequer tem uma loba. É melhor se ajoelhar no chão e latir."

Aquelas vozes irromperam das profundezas da minha memória e despedaçaram meu coração.

O desespero esmagador quase me dilacerou. Eu nem sequer percebi minhas unhas se cravando nas palmas das mãos.

Depois de dez anos juntos, Alexander conhecia meus traumas mais profundos melhor do que qualquer pessoa.

No passado, toda vez que eu tinha um pesadelo, ele me apertava nos braços. Seus olhos se enchiam de angústia, e ele jurava que faria meus agressores sangrarem.

Mas ali,, era Alexander quem me empurrava para o chão.

Quando percebeu que eu não me movia, ergueu a mão e convocou dois guardas da alcateia.

Seu tom estava tão frio quanto uma lâmina.

— Evie, eu lhe dei uma chance. Não me culpe por ser cruel.

Alexander usou seu tom de comando de Alfa. A aura opressora de um Alfa dominante desabou sobre mim.

Meus joelhos enfraquecidos cederam no mesmo instante, e caí com violência contra o chão duro.

Lutei com todas as minhas forças para me levantar, mas Alexander se inclinou de repente e aproximou os lábios do meu ouvido. Sua voz saiu baixa e gelada:

— Evie, isso é apenas uma encenação para agradar Ruby. Pare de ser tão imatura.

Meus olhos arderam de fúria. Cerrei os dentes e forcei as palavras a saírem:

— Alexander, vamos ao Sumo Sacerdote rejeitar nosso vínculo agora mesmo!

O semblante de Alexander escureceu. Ele agarrou meu queixo com força.

— Evie, eu mimei você demais. Você depende da minha alcateia e precisa saber qual é o seu lugar.

Seus dedos apertaram ainda mais meu rosto.

— Rejeitar o vínculo? Não se esqueça de que sua avó repousa nas terras de cura do Conselho de Anciãos. Sou eu quem colhe todos os anos, na fronteira leste, a flor-da-lua que a mantém viva.

Ao pensar em minha avó, parei de resistir. Toda a força abandonou meu corpo.

Alexander soltou uma risada baixa enquanto seu polegar roçava minha bochecha inchada.

— Isso mesmo, Evie. Somos companheiros predestinados. Ruby salvou minha vida, o que significa que também salvou a sua. Você nunca deveria ter encostado um dedo nela.

Ele abriu um sorriso frio.

— Quando fazemos algo errado, precisamos pagar o preço.

Alexander colocou Ruby sobre minhas costas e tirou alguma coisa do bolso.

No instante seguinte, prendeu um colar de supressão ao redor do meu pescoço. Era exatamente o mesmo tipo usado para conter lobos renegados selvagens.

Assim que o metal tocou minha pele, as pontas dos meus dedos ficaram dormentes.

Um zumbido ensurdecedor invadiu minha cabeça. Eu já não conseguia controlar os movimentos do próprio corpo.

Senti Ruby me chicotear com entusiasmo usando um cinto de couro. Ela agarrou meu cabelo e gritou:

— Engatinhe mais rápido!

Perdi completamente a noção do tempo. Do amanhecer ao anoitecer, me arrastei pelo pátio coberto de cascalho, deixando para trás um interminável rastro de sangue.

Ruby parecia incansável. Sentada sobre minhas costas, ela enterrava repetidas vezes as solas das botas nas feridas que não haviam cicatrizado por completo.

Alexander apenas permanecia sentado em uma cadeira de vime, com os olhos fixos no sorriso de Ruby. De vez em quando, soltava uma risada baixa.

Ele chegou a erguer o celular para fotografar os momentos felizes dela.

As pedras ásperas cortavam a carne dilacerada das minhas pernas e reabriam todas as feridas antigas.

O sangue encharcou a barra da minha saia. Minha pele rasgada grudava nas pedras quebradas.

Minha visão começou a escurecer, e eu mal conseguia permanecer consciente.

Ergui a cabeça para Alexander e implorei, completamente entorpecida:

— Desculpe. A culpa foi minha. Peço perdão.

Alexander continuava tão nobre e encantador quanto sempre. Com um sorriso carinhoso, olhava apenas para Ruby.

— Ruby, está satisfeita com esse castigo?

Ruby finalmente desceu das minhas costas. Sem forças, desabei na poça de sangue, mal conseguindo respirar.

Pouco depois, porém, a voz dela voltou a soar, fazendo meu corpo inteiro estremecer.

— Alexander, eu perdoo esse monstro horroroso!

Ruby bateu palmas, empolgada.

— Como recompensa, jogue-a na masmorra para fazer companhia aos meus bichinhos, está bem?

Alexander beliscou a bochecha dela com carinho.

— Está bem. Qualquer coisa para ver você feliz.

Ergui rapidamente a cabeça e o encarei, sem acreditar.

— Alexander, aquelas serpentes são venenosas. Eu vou morrer.

Ele respondeu com indiferença:

— As que ficam nas jaulas tiveram as presas arrancadas.

Usando o último resquício das minhas forças, tentei rastejar para longe. No entanto, os guardas logo me imobilizaram contra o chão.

Alexander se agachou diante de mim e acariciou delicadamente meus cabelos embaraçados.

— Evie, assim que isso acabar, levarei você à fronteira sul para concluirmos a cerimônia que selará nosso vínculo.

Ruby orientava os guardas com entusiasmo enquanto eles arrastavam meu corpo dilacerado em direção à masmorra, onde viviam centenas de serpentes venenosas.

Era um lugar escuro, construído especialmente para traidores e lobos renegados.

Assim que fui empurrada para dentro da masmorra, a loucura nos olhos de Ruby veio à tona. Ela se inclinou e aproximou os lábios do meu ouvido.

— Evie, você descobriu, não foi? Eu me recuperei há muito tempo, mas ele ainda sente tanta pena de mim...

Sua voz transbordava satisfação.

— Então pare de lutar. Você nunca vai conseguir me vencer.

A porta se fechou com um estrondo.

Na escuridão, incontáveis criaturas cobertas de escamas avançaram sobre mim. Suas línguas lambiam minha pele.

Enquanto os passos de Alexander e Ruby desapareciam ao longe, fechei os olhos em completo desespero.

Na manhã seguinte, Alexander consultava o cronograma da cerimônia para selar nosso vínculo quando, de repente, uma dor mortal e lancinante atravessou seu peito.

A dor foi tão intensa que ele quase desabou sobre a escrivaninha.

Ofegante, chamou o mordomo.

— Vá soltar Evie. Passar uma noite trancada já foi sofrimento suficiente para ela.

Naquele instante, seu Beta irrompeu pela porta. O rosto dele estava pálido, e sua voz tremia.

— Alfa, acabaram de chegar notícias da masmorra.

Ele engoliu em seco antes de continuar:

— Evie... o coração dela parou de bater.
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