LOGINA discussão começou com uma nota fiscal.Alina estava sentada no chão da sala da casa nova, cercada por amostras de tecido e catálogos de móveis, quando recebeu o orçamento atualizado da reforma.Abriu o arquivo esperando encontrar os valores combinados com a arquiteta. No entanto, a última página apresentava uma diferença de cento e oitenta mil em relação ao orçamento que ela e Caetano haviam aprovado.A princípio, pensou que fosse um erro.Conferiu os itens novamente.Substituição de esquadrias.Automação residencial.Reforço do sistema de segurança.Adequação elétrica.Instalação de equipamentos externos.Os serviços não estavam na versão anterior.Alina pegou o telefone e ligou para a arquiteta.— Marina, estou analisando o orçamento. Você pode me explicar de onde surgiram essas alterações?A profissional pareceu surpresa.— O senhor Armani solicitou a inclusão depois da última visita técnica.Alina ficou imóvel.— Caetano solicitou?— Sim. A equipe dele encaminhou as especificaçõ
A resposta dos proprietários chegou numa terça-feira, às dez e quinze da manhã.Alina estava em uma reunião com Helena e Teresa quando recebeu a mensagem da corretora. Leu rapidamente, mas precisou voltar ao início para ter certeza de que havia entendido.A proposta fora aceita.Os proprietários concordavam com o valor oferecido e com a condição de que a compra somente seria concluída depois da verificação documental, da avaliação técnica definitiva e da assinatura do contrato.Alina ficou olhando para a tela.— Aconteceu alguma coisa? — perguntou Helena.Ela ergueu o rosto.— Aceitaram.Teresa franziu a testa.— Quem?— Os proprietários da casa.Helena levou a mão ao peito.— Aquela com a varanda?Alina assentiu, sorrindo.— Aquela.Teresa se levantou para abraçá-la.— Então você vai ter suas janelas grandes.Alina riu.— Ainda precisamos assinar alguns documentos.— Mas escolheram — observou Helena.Alina olhou novamente para a mensagem.Era verdade.Durante tanto tempo, as decisões
Caetano perdeu a partida de xadrez em quarenta e três minutos.Alina soube porque recebeu uma fotografia enviada por Alberto. Na imagem, o tabuleiro estava sobre uma mesa de madeira, e Caetano aparecia ao fundo com uma expressão tão contrariada que ela começou a rir sozinha.A mensagem dizia:“Seu namorado precisa aprender a respeitar os mais velhos.”Alina respondeu imediatamente.“Vou lembrá-lo disso.”Poucos segundos depois, o telefone tocou.— Você está conspirando contra mim? — Caetano perguntou.— Bom dia para você também.— Meu pai mandou uma fotografia.— Mandou.— E você respondeu alguma coisa que fez ele rir durante cinco minutos.Alina tentou controlar a própria risada.— Talvez você devesse estudar mais.— Eu estava ganhando.— Evidentemente.— Ele me deixou acreditar nisso durante meia hora.— Inteligente.— Alina!Ela riu abertamente.Do outro lado, Caetano acabou acompanhando.— Você está se divertindo demais com minha derrota.— Estou me divertindo porque vocês passaram
A notícia chegou enquanto Alina e Caetano visitavam a segunda casa daquela manhã.Era uma propriedade antiga, com janelas amplas, um jardim bem cuidado e uma varanda que Caetano examinava com interesse evidente. Alina estava prestes a comentar que o escritório era pequeno demais quando o telefone dele tocou.Samuel.Caetano atendeu, ainda sorrindo.O sorriso desapareceu em segundos.— Quanto tempo temos?Alina virou-se imediatamente.— Entendi. Não assinem nada antes de receber o parecer. Estamos indo.Ele encerrou a ligação.— O que aconteceu? — perguntou Alina.— A Fundação Neris recebeu uma ordem de bloqueio patrimonial. O pedido inclui recursos destinados à assistência médica de pessoas submetidas aos antigos protocolos.— Quem pediu o bloqueio?— Os advogados de um grupo de vítimas.Alina franziu a testa.— As vítimas estão tentando impedir o próprio tratamento?— Não. Estão tentando garantir que o dinheiro não desapareça antes de serem indenizadas. O problema é que a fundação ma
Alina descobriu que Caetano havia deixado uma segunda camisa em seu guarda-roupa quando abriu a porta para guardar algumas roupas naquela sexta-feira.A peça estava pendurada entre dois vestidos seus, perfeitamente alinhada, como se sempre tivesse pertencido àquele espaço. Ela ficou observando por alguns segundos antes de pegar o telefone.— Caetano Armani, você está se mudando para minha casa sem me avisar?Do outro lado da ligação, ele riu.— Bom dia para você também.— Estou olhando para uma camisa sua.— Azul?— Branca.— Então a azul continua desaparecida.Alina tentou conter o sorriso.— Estou falando sério.— Eu também. Gosto daquela camisa.— Caetano!— Deixei aí porque vou passar o fim de semana com você. Achei mais prático do que carregar uma mala.Ela olhou novamente para a peça. O problema não era a camisa, mas o que sentira ao encontrá-la. Havia gostado de vê-la ali. Mais do que isso, havia imaginado outras camisas, sapatos próximos aos seus, objetos dividindo espaço e Ca
Às sete e dez da manhã, Caetano recebeu um e-mail de Alberto.Não uma mensagem.Não um pedido para conversar.Um e-mail formal, enviado também ao departamento jurídico da Armani, ao conselho administrativo e ao escritório responsável pela gestão patrimonial da família.Caetano leu em silêncio.Alina percebeu a mudança em seu rosto enquanto terminava de prender os cabelos diante do espelho.— O que aconteceu?Ele não respondeu imediatamente.Aproximou-se e entregou o telefone.Alina leu.Alberto Armani solicitava a suspensão imediata de qualquer prerrogativa administrativa ainda vinculada ao seu nome em razão dos cargos ocupados antes do desaparecimento. Também pedia uma revisão integral de procurações, autorizações bancárias, participações com direito especial de voto e qualquer instrumento que pudesse permitir sua reinserção automática na administração da empresa.No último parágrafo, havia uma frase que não parecia escrita por um advogado.“Não quero que meu retorno seja usado para







