MasukSandra travou no lugar, erguendo as sobrancelhas em choque.— O quê?Ela mal conseguia acreditar no que acabava de escutar da própria filha, lembrando com clareza de quando a garota dizia aos quatro ventos que a meta de vida após a formatura era viver de renda e sombra fresca.Ricardo não perdoou a deixa e soltou uma gargalhada.— Quando a pessoa finalmente alcança o objetivo do coração e fisga o pretendente que tanto queria, até o trabalho pesado vira passeio no parque.Liliane deu um sorriso amarelo, sem jeito. Sandra franziu o cenho ao notar a cara de culpa da moça e juntou as peças.— Alcançou o objetivo? Fisgou quem? Você não me venha dizer que se engraçou com aquele rapaz da família Alencar...— Mãe... Acontece que ele agora é o meu namorado oficial. — Admitiu Liliane com um fio de voz, mexendo nos dedos com timidez.Sandra petrificou no chão e perdeu a cor do rosto na mesma hora.— Liliane, toda paixão tem limite nessa vida! A cidade inteira está comentando o noivado dele com a
No silêncio que tomou conta da sala de interrogatório, o único som perceptível vinha do zumbido lento e compassado do ventilador de teto. Valentino quebrou o gelo, fitando o homem sentado à sua frente.— Quando você me mandou investigar o Márcio e o Ronaldo, não passou pela sua cabeça que o rastro acabaria chegando até você?Lourenço baixou a vista e deu um sorriso resignado.— Quem entra no mar revolto sabe que o peixe grande custa caro, meu rapaz. Quando a gente resolve abocanhar um lucro desse tamanho, o risco de o barco virar sempre corre solto. Para falar a verdade, antes de saber que você tinha vindo atrás das falsificações, eu torcia para que fosse apenas uma visita de cortesia. E mesmo descobrindo que você apurava o esquema contra a Sinar Medical, dar o nome dos dois não mudava o rumo das coisas. No máximo, a polícia fecharia o cerco concluindo que o Márcio e o Ronaldo desviaram os lucros e se acertaram com o hospital para sugar os remédios da farmacêutica.— Mas a prisão deles
Depois que a vista acostumou com a falta de claridade, o céu limpo coalhado de estrelas começou a clarear o contorno da serra, e aquela noite que parecia ameaçadora perdeu um pouco do ar assustador. Liliane ergueu o queixo para o alto até o pescoço começar a doer, admirada com aquela imensidão:— Que coisa linda... Fazia anos que eu não via um céu tão estrelado assim lá na capital.Valentino acompanhou o olhar da moça para a abóbada celeste e comentou em tom descontraído após alguns instantes em silêncio:— É, ganha de longe dos postes da avenida.Ela lançou um olhar torto para ele fingindo zanga, mas sentiu que o pavor acumulado durante toda aquela fuga finalmente dava uma trégua.Antes que qualquer farol despontasse na curva da pista, a barriga de Liliane roncou alto na calmaria da noite, onde só se ouviam os grilos cantando no capim alto. Valentino abriu a mochila e tirou de lá uma garrafa de água mineral pela metade.— Bebe um pouco disso para enganar o estômago.Desde o começo da
Um dos policiais deu duas palmadas no corpo de Lourenço à procura de armas ou pistas, mas não encontrou nada de suspeito nos bolsos da calça. O delegado responsável pela diligência fitou o homem com atenção e foi direto ao ponto:— Onde estão os dois hóspedes que ficaram na sua casa anexa esses dias?— Foram embora hoje cedo. — Respondeu Lourenço, com voz pausada.— Foram para onde?— De volta para a capital.O delegado anotou as respostas na prancheta até que outro policial se aproximou e relatou em tom baixo, bem ao pé do seu ouvido, que a equipe havia vasculhado cada cômodo do imóvel sem achar qualquer remédio adulterado ou dinheiro vivo escondido. Ao escutar o relatório, o chefe da equipe parou a caneta no ar e encarou o morador com ar desconfiado.Naquele mesmo instante, o celular do delegado tocou. Ele atendeu, escutou com atenção as informações do outro lado da linha e, sem desviar a atenção de Lourenço, indagou:— O Reginaldo trabalha como seu motorista, não é?— É ele mesmo...
— Liliane, você está inteira? — Perguntou Valentino, em tom rouco, deixando escapar a preocupação que tentava disfarçar.Liliane abriu os olhos devagar, pálida como cera e com a respiração entrecortada pelo susto.— Estou... eu estou bem.A voz dela saiu trêmula, e o enjoo provocado pelo tranco da batida revirava seu estômago. Valentino estendeu o braço para soltar a fivela do cinto da namorada, tocou de leve no dorso gelado da mão dela para acalmá-la e falou com urgência:— A gente precisa sair daqui agora.Eles deixaram a bagagem pesada no porta-malas para trás, recolheram apenas as mochilas de mão e desembarcaram com cuidado antes de se embrenharem na vegetação densa ao lado da estrada.Naquele mesmo instante, Sebastião deixava o prédio da delegacia local quando o telefone começou a tocar no bolso do paletó. Ao atender a chamada de Valentino, ouviu o rapaz ir direto ao ponto sem qualquer rodeio:— É o Lourenço quem manda no esquema todo. O Márcio e o Ronaldo só estavam na ponta rece
— Pode-se dizer que sim. — Confirmou o motorista sem desviar a atenção da estrada de terra esburacada. — O Márcio e o Ronaldo sempre foram apenas a vitrine do negócio. O Márcio é um ambicioso de marca maior, daquele tipo que não via futuro nenhum em uma cidadezinha esquecida como esta, então a proposta do Lourenço caiu como uma luva para ele. Já o Ronaldo é precavido, sabe circular entre as pessoas e parece ter sido bancado pelo Márcio, mas a verdade é que o Lourenço colocou o homem ali justamente para controlar os arroubos de grandeza do outro. Quanto ao diretor do hospital, bastou ver o dinheiro entrar que ele aceitou tudo sem pestanejar.Liliane sentiu um calafrio percorrer a espinha diante daquelas revelações e falou em um fio de voz, ainda atordoada com o que havia acabado de escutar.— Então aquela pessoa que a Kátia viu na sala da diretoria era ele o tempo todo?Valentino soltou uma risada seca, encarando o espelho com um olhar gélido.— E vocês acham mesmo que desgraçar a vida







