ANMELDENDraiton Menegaço
Eu só podia ter perdido o juízo. Não havia outra explicação. Primeiro, aceitei aquela loucura da prima Oléria e, para piorar, chamei para me ajudar uma mulher que conheço há tão pouco tempo. Não tive nem chance de preparar Melissa direito, de explicar como se portar diante da minha família, que tipo de roupa levar, como se portar em cada situação. Os últimos dias foram uma avalanche de compromissos, um atrás do outro, e quando percebi já era o dia da nossa partida. Nem sabia ao certo se ela realmente viria, embora, ontem à noite, tenha mandado mensagem perguntando a hora do voo. Se ela aparecesse malvestida, sem nada adequado, eu já tinha em mente uma solução: no próprio Galeão há lojas onde poderíamos improvisar alguma coisa. Bastaria o suficiente para atravessar o Oceano e chegar até Roma sem constrangimentos; depois, compraríamos roupas novas por lá. A verdade é que toda essa preocupação parecia ser mais fruto de preconceito idiota da minha parte. Desde o primeiro dia, tive dificuldade em aceitar que Melissa fosse uma prostituta. Havia classe demais nela. Isso se percebia em pequenos detalhes: a maneira como segurava o talher, como enrolava a verdura no garfo, tudo impecável. Não era apenas aparência, havia algo de refinado em sua postura. E, ainda assim, quando se aproximava de mim, provocava sensações que me desestabilizavam. Eu precisava me segurar para não esquecer minha regra de nunca pagar por sexo. Ela surgiu caminhando pelo saguão, os cabelos ondulados dançando contra o vento, óculos escuros cobrindo metade do rosto. Vestia um longo de tecido leve, bege, marcado por botões que começavam no decote e seguiam até os joelhos. A fenda deixava entrever parte das pernas, e o tecido, mesmo solto, desenhava suas curvas. Nos pés, rasteirinhas brancas com pequenas flores em couro. A visão era suficiente para qualquer homem perder o ar. — Bom dia. — disse, ajeitando os óculos. — Estou de óculos escuros porque nem toda maquiagem do mundo apaga minhas olheiras. Dormi pouquíssimo essa noite. — Bom dia — respondi, sorrindo. — Está linda. — Ah, você nem precisa dizer isso. — retrucou com ironia. — Você é gatíssimo, lindo... Mas olha aqui no meu pescoço, o detalhe. — Ela inclinou o queixo, revelando uma gargantilha com as letras D e M. As iniciais do meu nome — Vim de cachorrinha, com coleira e tudo. Levantei uma sobrancelha, surpreso. — Pelo visto, incorporou mesmo a personagem... Até de cagnolina Menegaço? — Cagnolina?! — ela franziu a testa. — Sim, cadelinha em italiano. Ela riu alto, debochada, e eu acabei rindo junto. Segurei a mão dela e seguimos para o check-in. Era bom começar a criar intimidade desde já, para que nossa farsa soasse convincente. Não houve atrasos. Embarcamos, e logo o avião decolava rumo a Roma. Durante o voo, conversamos sobre a viagem. — E onde vamos ficar? — perguntou, ajeitando o assento. — Na minha casa. Mas nem pense que vai ter paz para caçar um gringo rico por aí. — adverti com um sorriso torto. — Vai ser rotina de almoços, jantares e longas conversas. Italiano é exatamente o estereótipo que você imagina. Ela riu, jogando os cabelos para trás. Estava previsto chegarmos ao fim da tarde. Toda aquela encenação tinha apenas um objetivo: me colocar, finalmente, à altura das premissas de um homem de negócios, criado por Drayson, disputar o que é meu por direito. Eu gosto dos meus sobrinhos, principalmente do Denner, mas o posto de presidente do Menegaço Hotel Group pertence a mim, não a eles. Melissa adormeceu na poltrona ao lado. Eu tentava assistir ao pacote interativo do voo, mas não demorou para sentir o perfume dela invadir o espaço. Sem perceber, ela escorou a cabeça no meu peito, respirando fundo, como se o mundo tivesse desaparecido. Aquela proximidade mexia comigo de um jeito que eu não queria admitir. (...) ALGUMAS HORAS DEPOIS — Chegamos. — murmurei, tocando de leve o braço dela. Ela abriu os olhos devagar, piscou algumas vezes, a voz rouca, pesada de sono: — Sério?! Dormi o tempo inteiro... Pareceu Rio–Niterói, não Rio–Roma. — Para mim também foi rápido. — confessei. — Já estou tão acostumado com essa rota que parece curta. Ela puxou a bolsa, e de dentro retirou um frasco, borrifou várias vezes um spray na boca. O cheiro de menta invadiu o ar. — Tirar o bafo, né? — disse com naturalidade. — Não dá para receber sua família com cheiro de ontem. Pelo que você falou, vai ter um monte de gente esperando logo aqui no aeroporto. E se não der tempo de escovar os dentes? — Não vai dar mesmo. — respondi, rindo. — Eles já devem estar todos lá. Vamos, namorada de mentirinha. — falei, já me levantando e lançando uma piscadela marota para ela. Saímos do voo, seguimos pelo tubo transparente, pegamos as malas e as colocamos no carrinho. Assim que cruzamos a área restrita, vi de imediato: uma parte enorme da minha família já nos aguardava. Denner, meu sobrinho querido; a prima Oléria; o primo Basílio; minha cunhada Catarina e, para completar, a irmã dela, Kátia, com quem eu tive um breve relacionamento. É uma das piores loucas que passaram na minha vida, mas ainda lembro o quanto ela é gostosa. Kátia avançou na frente de todos e me abraçou forte, colando o corpo ao meu. — Que saudade! — disse, me dando dois beijos no rosto. — No Brasil são três. Antes que eu pudesse reagir, em vez do terceiro beijo na face, ela colou os lábios nos meus. Fiquei atônito, sem chão. Mas a reação de Melissa foi imediata: com uma mão empurrou Kátia e, com a outra, estalou um tapa na cara dela. O som seco ecoou no saguão, diante de toda a minha família. Que porra era essa?! A mulher tinha enlouquecido de vez!Denner Menegaço… O delegado afirmou que quem estava com a Ingrid havia seguido pela ponte, no sentido de saída de Florença. Minha mãe levou o Valentim para a casa da avó, poupando-me de ter que explicar ao garoto que eu não fazia ideia do paradeiro da mãe dele. A certeza que eu tinha mais cedo, de que tudo ficaria bem, foi se esvaindo pouco a pouco, e agora minha cabeça pesava apenas de preocupação. Saí do elevador já dentro do meu apartamento. Pelo aroma no ar, soube que minha mãe havia vindo para cá. — Não precisava fazer jantar, não estou com fome — falei assim que entrei. — Justamente por isso que eu precisava fazer. Eu tinha certeza de que você não iria comer. A Ingrid só tem você para ajudá-la, e você precisa estar bem para isso. Me dá um beijo, vai tomar um banho e depois vem jantar — minha mãe ordenou, naquele tom firme que não admitia contestação. Só me restava obedecer. Não adiantaria explicar à Glória sobre o nó que se formara na minha garganta. Ela não se daria por
Denner MenegaçoNão adiantava.Não adiantava chantagem emocional, não adiantava usar o nome do Draiton — um tio que eu respeitava e de quem gostava de verdade. Eu não iria àquele casamento. Ponto final.Meu pai tentou. Mandou uma carta longa, piegas, cheia de palavras que, anos atrás, talvez tivessem algum efeito. Hoje, só me deram náusea. Quase respondi por mensagem, dizendo para ele enfiar a carta e aquela falsidade toda no cu. Só não fiz porque Ingrid estava por perto, e eu não queria que ela visse esse lado meu — o lado que ainda sangra.O que ficou entalado na garganta nunca foi o silêncio dele. Foi a tentativa nojenta de me persuadir a não me casar com Ingrid, como se fosse um favor. Como se estivesse me protegendo. Tentou diminuir a origem dela, o passado humilde, o fato de ter sido camareira.Como se isso a tornasse menor.Ele deve achar que eu não sei quem eu sou. Deve achar que ignoro que também sou filho de uma camareira. A diferença é que ele quis a minha mãe para usar. Eu
Dante Menegaço Milão amanhecia cinza quando o convite chegou. O envelope pesado, elegante, com o brasão da família Menegaço em relevo, destoava da simplicidade do meu apartamento. Abri devagar, como se o papel pudesse morder. O nome de Draiton saltou aos meus olhos e, por um instante, fui atravessado por lembranças que eu vinha evitando: Playa Rosa, o mar batendo nas pedras, o riso do meu tio, os verões que pareciam eternos antes de tudo se quebrar. Eu gostava de Draiton. Sempre gostei. E amava Playa Rosa como se fosse uma extensão do meu próprio corpo. Mas não estava pronto. Não para perdoar. Não para sentar à mesma mesa que minha mãe, Bárbara. Não para fingir que meu pai e Drayson não haviam sido parte do silêncio, da omissão, das feridas que ainda ardiam. Eu queria paz. E paz era tudo o que eu não tinha quando me aproximava deles. Respirei fundo, sentei-me à mesa da cozinha e peguei o celular. Escrevi para meu tio com honestidade — a única forma que eu conhec
Melissa Menezes Eu estava furiosa. Furiosa daquele tipo que faz a gente apertar o celular com força demais, como se ele tivesse culpa. Draiton tinha simplesmente pedido — com aquela voz calma, controlada e irritantemente segura — que eu fosse encontrar um cliente no Cristo Redentor. No Cristo. Redentor. Como se aquilo fosse um café qualquer. O Hotel Menegasso, no Centro do Rio, mas preciso no Corcovado, tinha restaurantes impecáveis, salas reservadas, vista para a Baía de Guanabara, serviço impecável. Ele podia ter marcado em qualquer um deles. Mas não. Resolveu me tirar do ar-condicionado, do salto confortável, da lógica, e me mandar para o ponto turístico mais visitado do país. — Esse homem só pode ter perdido o juízo — murmurei, ajeitando os óculos escuros enquanto o carro subia a estrada sinuosa do Parque Nacional da Tijuca. O verde me cercava por todos os lados. A mata atlântica viva, úmida, pulsante. O cheiro de terra molhada, folhas, vento. O Rio tinha essa capaci
Chegamos ao fim do último romance da família Menegaço e espero que tenham gostado. Agora só vamos colar os cacos dessa família partida e fechar o que ficou aberto, teremos apenas mais 6 capítulos. Obrigada por chegarem até aqui. ❤️🩹
Ingrid Danielle… SETE MESES DEPOIS… Era um sonho. Ela estava nos meus braços. Um sonho que durava pouco, porque eu já não sabia quem era mais grudento: Glória, minha mãe, ou Denner. O lado ruim de hospital de bacana é esse — não há restrição de visitas — e eles parecem não ter outra coisa para fazer além de ficar ali, discutindo o nome da minha filha e quem iria nos levar para casa, naquele hospital luxuoso de Florença. — O Denner tem direito, cara, Irani — Glória reclama. — Ele é o pai da menina e “namorido” da Ingrid. — Ingrid, o nome da minha neta é Ingrid — minha mãe contesta. Eu já conseguia prever: a qualquer momento Denner entraria por aquela porta dizendo que a filha dele se chamava Fany. — Vocês podem parar de brigar pela minha filha?! — Não estamos brigando. Sua mãe é que insiste em chamar a Ariane de Ingrid. Eu aceito Ariane Ingrid de Paula… digo, de Danielle Menegaço — Glória rebate. — É mesmo, Glória! — minha mãe alfineta. — Tem que enfiar o Fany aí nesse meio tam







