LOGIN— Você me traiu e ainda engravidou sua amante! — Apertei os punhos, encarando Gustavo. A amante era Luiza, minha melhor amiga desde a adolescência. Grávida do meu marido, ela planejava fazer Rodrigo Bragança, seu noivo bilionário, acreditar que o bebê era dele. Gustavo também dependia desse homem para salvar sua empresa afundada em dívidas. Depois de quase dez anos de casamento, descobri que Gustavo também havia comprometido bens da minha família. Eu estava cansada de ceder às suas exigências e proteger o homem que me enganava. Decidi tomar as rédeas da minha vida e me casei com Rodrigo por vingança, ameaçando o investimento que Gustavo precisava conseguir e os planos de Luiza para o futuro. Só que meu novo marido sabe exatamente como me provocar. Ele toma a iniciativa, sustenta meu olhar e se aproxima até me fazer esquecer o que eu pretendia dizer. Tento disfarçar o efeito que causa em mim, mas Rodrigo percebe e se diverte em me deixar ainda mais sem jeito. Enquanto a mentira sobre o bebê ameaça vir à tona, começo a desejar os beijos de Rodrigo antes mesmo de acontecerem. Cada aproximação torna mais difícil manter o foco na vingança. Quanto do meu coração estou disposta a arriscar no casamento que escolhi para atingir quem me traiu?
View MoreAmanda Cavalcanti
Caminhava pelo jardim, ainda sorrindo, quando ouvi um gemido vindo da construção à minha direita. Diminuí o passo, mas continuei pela alameda. A música da festa chegava mais baixa ali, misturada ao barulho da água de uma fonte.
Só queria alguns minutos de ar fresco. Mais cedo, Luiza estava linda, como sempre, cercada de flores e convidados que erguiam taças de champanhe para celebrar seu noivado. Já fazia algum tempo que eu não a via entre os convidados. Depois de tantos anos de amizade, desde a adolescência, vê-la naquela festa também me fazia feliz.
Outro som atravessou o jardim, dessa vez acompanhado de uma voz masculina. Havia alguma coisa familiar naquele tom. Olhei para a pequena construção, afastada da mansão. A luz escapava por uma porta entreaberta. Devia ser um escritório.
— Você é gostosa demais... Senti sua falta.
Parei.
A voz era de Gustavo, e meu coração começou a bater com tanta força que senti as pulsações no pescoço. Fiquei olhando para a porta, esperando ouvir outra frase, alguma coisa que provasse que eu estava enganada.
Podia haver alguém com a voz parecida.
Gustavo estava na festa. Meu marido estava na festa.
Dei um passo em direção à luz. Depois outro, mais devagar, tomando cuidado com o salto nas pedras. A voz voltou, baixa, e eu reconheci até o jeito como ele pronunciava as palavras.
Quando alcancei a porta, apoiei os dedos na parede e olhei pela abertura.
Gustavo estava em cima de Luiza.
Ela estava na beirada de uma mesa, com o vestido erguido. As roupas dele estavam abertas, e ele gemia baixo.
Vi o rosto do meu marido inclinado para o dela, a mão de Luiza em seu ombro, o anel de noivado brilhando sob a luz.
Afastei a cabeça num movimento brusco. Por um segundo, a parede pareceu se mover. Apertei os dedos contra ela, tentando encontrar apoio, enquanto meu estômago se contraía.
Luiza. Minha melhor amiga.
A mulher que me abraçara naquela noite e agradecera por estar ao seu lado. Que havia pedido para sermos padrinhos quando se casasse com Rodrigo.
Tentei olhar outra vez, como se a primeira imagem pudesse ter sido um erro.
Mas eles continuavam ali.
Gustavo gemia enquanto falava perto do ouvido dela:
— Te amo, Luiza.
Luiza soltou um gemido rouco.
— Mais forte, Gustavo... Meu Deus, amor... Ai, isso! Eu gosto assim.
Minha boca se abriu, mas nenhum som saiu. O ar não parecia chegar aos pulmões. Eu puxava uma respiração curta, depois outra, sem conseguir completar nenhuma.
— Você estava com saudade mesmo? — ela perguntou, com a voz entrecortada.
— Estava. Você sabe o que faz comigo — respondeu ele, baixo e rouco.
Luiza mordeu o lábio inferior de Gustavo e soltou uma risada que eu conhecia desde os tempos de escola.
— Te amo — ela falou.
Levei a mão à boca.
Aquele jeito de falar, tão próximo, tão à vontade... Eu o conhecia. Ou achava que conhecia.
Meus olhos arderam, e a primeira lágrima escorreu antes que eu conseguisse prendê-la.
Precisava sair dali. Meu corpo, porém, não obedecia. Fiquei junto à parede, com os joelhos frouxos, ouvindo o homem com quem dividia a cama falar daquele jeito com a mulher em quem eu confiava.
— Vou gozar, Luiza — disse ele, com a voz entrecortada.
— Goza dentro de mim — ela gemeu.
Apertei a mão contra os lábios.
Percebi que ele estava sem preservativo. Esperei que se afastasse dela, que procurasse um, que ao menos gozasse fora.
Comigo, ele sempre fazia.
A lembrança veio tão nítida que quase senti o lençol da nossa cama sob os dedos. Gustavo perguntando se eu tinha tomado a pílula. Minha resposta, cansada, de que sim. Mesmo assim, às vezes ele insistia no preservativo.
— Não podemos correr esse risco, Amanda — dizia ele, sempre com aquela voz fria e distante.
Eu tinha ouvido aquilo tantas vezes.
O risco era o filho que eu queria.
Quase dez anos de casamento, e eu ainda esperava. No começo, éramos jovens demais. Depois, precisávamos crescer profissionalmente. Mais recentemente, bastava eu tocar no assunto para ele mencionar os problemas financeiros da empresa.
— Você quer colocar uma criança no mundo agora?
Eu abaixava os olhos, engolia a decepção e dizia que podíamos conversar depois.
A cartela de anticoncepcional continuava na gaveta. Eu tomava cada comprimido acreditando que, em algum momento, ele também ia querer.
Lá dentro, Gustavo não protestou.
Uma onda de náusea subiu pela minha garganta. Curvei o corpo e pressionei o punho contra a boca, apavorada com a possibilidade de fazer barulho. As lágrimas caíam no meu vestido. Eu mal conseguia enxergar a faixa de luz no chão.
Escutei os últimos gemidos deles. Gustavo não se afastou. Gozou dentro de Luiza, chamando o nome dela de um jeito como nunca havia chamado o meu, nem mesmo quando gozava comigo.
Fiquei olhando para o chão, tentando respirar.
Não era eu que ele desejava.
Era ela.
Ouvi roupas sendo ajeitadas e o pequeno estalo de alguma coisa pousada na mesa.
— Precisamos ir — disse Luiza. — Tenho que cortar o bolo com Rodrigo. Aquele idiota deve estar me procurando.
Meu estômago se contraiu de novo. Da mansão veio uma salva de palmas, distante, seguida pela voz de alguém ao microfone.
A festa continuava.
— Seu cabelo está bagunçado — Gustavo comentou, rindo.
O tom de voz era carinhoso.
Luiza riu baixinho.
— Me ajuda aqui.
Olhei pela fresta uma última vez.
Ela estava de pé, alisando o vestido. Gustavo acertava uma parte do cabelo loiro dela com os dedos, enquanto a olhava como nunca havia olhado para mim, nem no dia em que nos casamos.
Ela sorriu para ele, esperando que terminasse, e Gustavo se abaixou para pegar o paletó.
Pareciam tão à vontade que eu mal conseguia suportar olhar.
Luiza examinou o próprio anel e foi até a porta.
Recuei antes que ela pudesse me ver.
Um salto ficou preso entre duas pedras. Puxei o pé e quase caí. Consegui alcançar os arbustos ao lado da alameda e me encolhi atrás deles, com os ramos arranhando meu braço.
A porta se abriu mais.
Vi os dois passarem pelo espaço entre as folhas. Gustavo vestia o paletó enquanto Luiza seguia em direção à mansão, ajeitando uma alça do vestido.
Fiquei imóvel até os passos desaparecerem.
Então o choro escapou.
Dobrei os joelhos, segurando na vegetação para não cair, e tentei abafar os soluços com as duas mãos.
Meu marido e Luiza.
Quis lembrar de alguma coisa que desfizesse o que tinha visto. Um gesto dele naquela noite. O abraço dela.
Mas as imagens se misturavam ao escritório, à mesa, ao anel.
Há quanto tempo?
A pergunta veio e me deixou ainda mais perdida. Não havia resposta ali. Eu só sabia que precisava ir embora.
Ergui-me com dificuldade. Passei as mãos pelo rosto, mas as lágrimas continuaram.
Segui depressa pelo jardim, sem conseguir olhar direito para o caminho. Precisava alcançar a saída antes de encontrar Gustavo.
Não suportaria ouvir meu nome na voz dele.
Ao contornar a passagem junto à mansão, bati com força em alguém. Meu pé escorregou, e duas mãos seguraram meus braços antes que eu caísse.
— Amanda?
Ergui o rosto, com a respiração presa.
Rodrigo Bragança estava diante de mim.
O noivo de Luiza.
Ele olhou para minhas lágrimas e depois para
trás de mim, como se procurasse algum motivo para meu estado. Franziu a testa, mantendo as mãos nos meus braços.
— Amanda, o que aconteceu? Por que você está chorando?
Fiquei diante da tela, ainda tentando aceitar que o aniversário de Luiza era a senha do notebook do meu marido. Aproximei a cadeira da mesa e procurei as pastas da Alcântara Empreendimentos. Precisava entender as dívidas antes que Gustavo voltasse. Havia arquivos separados por meses, anos e nomes de empreendimentos, todos organizados de uma maneira que eu nunca tivera motivo para conhecer.Abri uma pasta recente e encontrei planilhas, extratos e relatórios contábeis. Reconheci nomes de condomínios construídos por Gustavo, mas pouco sabia sobre aqueles números. Comecei pelas relações de empréstimos, financiamentos e pagamentos atrasados. Passei de um documento para outro, comparando os valores, até voltar à primeira planilha e fazer algumas somas.Parei antes de terminar. As dívidas chegavam a milhões. Apoiei os cotovelos na mesa e reli as linhas, procurando algum erro na minha conta. Gustavo falava em dificuldades quando eu perguntava sobre a empresa, mas os documentos mostravam compr
O Uber parou diante de casa, e desci com a bolsa apertada contra o corpo. Entrei, fechei a porta e permaneci alguns instantes na sala. Tudo estava como eu havia deixado antes da festa: os móveis, a decoração escolhida por nós dois, as fotografias nas estantes. Tirei as sandálias e caminhei descalça, sentindo o alívio nos pés.Meu olhar parou na fotografia sobre o aparador. Gustavo estava atrás de mim, com os braços ao redor da minha cintura, e nós sorríamos para a câmera. Era o começo do nosso casamento. Peguei a moldura e passei o polegar pela borda, lembrando de quando ele me abraçava assim mesmo sem ninguém por perto para registrar.Às vezes, eu estava ocupada com alguma coisa quando Gustavo chegava por trás, envolvia minha cintura e beijava meu pescoço. Eu me apoiava nele sem hesitar, acostumada àquele carinho. A lembrança veio tão clara que quase consegui ouvir sua voz perto do meu ouvido.— Eu te amo, Amanda — ele dizia, mantendo os braços ao meu redor. Eu acreditava. Não procur
Gustavo vinha na minha direção, e eu não conseguia me mover. Conhecia aquele rosto desde a adolescência: os cabelos castanhos, os olhos que tantas vezes procurei entre as pessoas, a boca que havia beijado antes de sairmos de casa. Era meu marido, o homem que amava e com quem imaginara envelhecer. Poucos minutos antes, porém, eu o tinha visto transando com minha melhor amiga.Ele parou diante de mim e segurou meu braço, inclinando o rosto para falar baixo. Por um instante, pensei que tivesse percebido alguma coisa na minha expressão. Mas não havia preocupação em seus olhos. Gustavo olhou rapidamente para os convidados, como se precisasse conferir quem poderia ouvir nossa conversa, e apertou os dedos contra minha pele.— O que aconteceu com você? Rodrigo veio me dizer que encontrou você chorando no jardim. Você tem ideia da vergonha que me fez passar? — Sua voz saiu baixa, mas dura. Fiquei encarando-o, sem saber como responder àquela cobrança.— Você esqueceu o que conversamos há poucos
Olhei para Rodrigo Bragança sem conseguir responder. De perto, ele era ainda mais impressionante: alto, ombros largos, cabelos escuros e olhos de um azul intenso. O paletó preto acompanhava perfeitamente seu corpo. Mas eu mal conseguia prestar atenção na beleza dele. Só pensava na mulher com quem estava prestes a se casar. Luiza. A mesma que eu acabara de encontrar nos braços do meu marido.Minhas mãos apertaram as lapelas de seu paletó até os dedos doerem. Bastava abrir a boca. Eu poderia contar que tinha visto Gustavo em cima dela, ouvido os dois dizerem que se amavam. Poderia acabar com aquela mentira ali mesmo. Rodrigo continuava me olhando, esperando uma resposta, enquanto eu tentava escolher entre falar e me afastar antes de perder o controle.Virei o rosto para as portas de vidro da mansão. Lá dentro, os convidados conversavam, riam e erguiam suas taças ao som da música. A festa seguia normalmente. Apertei o tecido outra vez, tomada pela vontade de contar tudo, mas uma conversa
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