登入A maçaneta girou violentamente, uma vez, duas vezes, três.
O som metálico ecoou pelo escritório como uma sentença de morte, Valentina sentiu o corpo inteiro ficar rígido enquanto observava a porta. Ao seu lado, Sophie empalideceu tanto que parecia prestes a desmaiar. Os passos do lado de fora aumentavam, pesados rápidos, determinados. Quem quer que estivesse ali não tinha vindo para conversar, nem para pedir licença. Valentina olhou rapidamente ao redor do escritório, procurando alguma forma de defesa, alguma saída, qualquer coisa, mas não havia nada. A única porta era a que estava sendo forçada, as janelas davam para uma queda de mais de dez metros, não existia escapatória. Outro impacto atingiu a porta mais forte, a madeira estremeceu, Sophie levou uma mão à boca. - Meu Deus... Valentina aproximou-se da escrivaninha, seu coração batia tão rápido que parecia querer romper o peito, sla não sabia quem eram aqueles homens, mas uma coisa era certa, aquilo não era coincidência. Primeiro a morte do pai, depois o contrato, a carta, agora invasores, tudo estava ligado. Tudo. Outro estrondo, desta vez a porta rachou, uma fissura surgiu próxima à fechadura, Valentina sentiu um arrepio percorrer sua espinha. - Ligue para a polícia - ordenou. Sophie pegou imediatamente o telefone, mas segundos depois sua expressão mudou. - Não há sinal. - O quê? - Nenhum sinal. Valentina pegou o próprio telemóvel, nada. Nenhuma rede, nenhuma conexão. Seu estômago afundou, aquilo significava planejamento. Quem quer que estivesse ali tinha vindo preparado, muito preparado. Então a porta explodiu, a madeira voou para dentro do escritório, Sophie gritou, Valentina recuou instintivamente. Quatro homens entraram, todos vestidos de preto, todos armados usando expressões frias, perigosas. O tipo de expressão que pertencia a homens acostumados à violência. Durante alguns segundos ninguém falou, o silêncio tornou-se sufocante, então o homem que liderava o grupo deu um passo à frente, alto, careca, o rosto marcado por uma cicatriz. - Senhorita Moreau. Valentina manteve-se firme, mesmo com o medo crescendo dentro dela. - Quem são vocês? O homem ignorou a pergunta. - Precisamos que venha conosco. - Não. - Não está em posição de recusar. - Experimentem. O homem pareceu quase divertido. - Corajosa. - Saiam da minha casa. - Não é sua casa. - É propriedade da minha família. - Não mais. A resposta fez seu sangue ferver. - Quem enviou vocês? O homem sorriu, um sorriso desagradável. - Não importa. - Importa para mim. - Então ficará decepcionada. Valentina percebeu algo naquele momento que eles não estavam ali para matar, se quisessem isso, já teriam feito. Queriam levá-la e isso era ainda mais assustador, porque significava que alguém tinha planos para ela. Planos que ela desconhecia completamente. O homem voltou a avançar. - Vamos evitar complicações. - Não vou a lugar nenhum. - Senhorita Moreau... - Não. A resposta saiu firme e imediata. Os olhos do invasor endureceram. - Última oportunidade. Valentina ergueu o queixo. - Vá para o inferno. O homem suspirou como alguém cuja paciência acabara de terminar e então fez um gesto. Dois homens avançaram, Valentina agarrou o primeiro objecto que encontrou sobre a mesa, um pesado porta-canetas de metal e atirou. O objeto acertou o rosto de um deles, o homem cambaleou para trás soltando uma praga. O segundo tentou agarrá-la, Valentina chutou sua canela com toda a força, ele grunhiu e Sophie gritou. O escritório transformou-se num caos, mas a luta durou apenas alguns segundos, porque aqueles homens eram profissionais e ela não. Um deles segurou seus braços, outro agarrou sua cintura, Valentina debateu-se, chutou, arranhou, tentou escapar, inutilmente. - Soltem-me! Ninguém respondeu. - Soltem-me! O homem da cicatriz aproximou-se. - Acabou. - Vai para o inferno! - Já estive lá. Então algo aconteceu, um disparo. O som ecoou pela mansão inteira, todos congelaram inclusive os invasores. Outro disparo, mais próximo, mais alto, mais assustador. Os homens trocaram olhares, pela primeira vez pareciam nervosos, Valentina percebeu imediatamente, aquilo não fazia parte do plano deles. Mais tiros, agora vindos do andar inferior. Gritos, passos, confusão. Um dos invasores correu até a porta destruída, olhou para o corredor,u rosto perdeu a cor. - Chegaram. O líder virou-se abruptamente. - Quem? - Eles. Apenas uma palavra, mas foi suficiente. Valentina viu o medo surgir nos olhos dos homens, medo verdadeiro. O tipo de medo que criminosos sentem quando encontram alguém ainda mais perigoso. O som de disparos continuou, depois vieram gritos, depois silêncio absoluto. O líder puxou uma arma, seus homens fizeram o mesmo. O ambiente tornou-se tão tenso que parecia impossível respirar. Passos começaram a subir as escadas, lentos, controlados e firmes. Valentina sentiu o coração disparar, porque aqueles passos eram diferentes, não eram apressados, não eram nervosos. Quem quer que estivesse chegando parecia completamente tranquilo, como alguém que sabia exatamente o que encontraria, os passos aproximaram-se. Mais. Mais. Mais. Até parar diante da porta destruída, então uma voz masculina ecoou pelo corredor, profunda, fria, controlada. - Larguem-na. O líder dos invasores empalideceu. - Merda... Valentina franziu a testa, reconheceu imediatamente aquele nome, não a voz, mas a presença, porque Lorenzo lhe mostrara fotografias. Fotografias que ela jamais imaginou precisar reconhecer. Um homem apareceu na entrada, alto, muito alto, vestido com um elegante fato preto. Os cabelos escuros estavam impecavelmente penteados, o rosto parecia esculpido em pedra, bonito, mas assustadoramente frio. Atrás dele surgiram vários homens armados, todos igualmente perigosos. O silêncio instalou-se novamente, pesado, sufocante. O homem da entrada o escritório, analisou os invasores, a Sophie, depois seus olhos pousaram em Valentina e permaneceram ali por um segundo, dois, três. Tempo suficiente para que ela sentisse algo estranho, uma sensação impossível de explicar, como se estivesse diante de alguém capaz de destruir sua vida com um simples gesto. O líder dos invasores tentou recuperar a compostura. - Moretti. Então era ele, Dante Moretti em pessoa. Não uma fotografia, não uma revista, ali, na sua frente. Mais assustador do que qualquer imagem poderia mostrar. Dante deu um único passo para dentro do escritório, a calma em seu rosto era quase perturbadora. - Eu disse para largá-la. Ninguém se moveu. O líder apertou a arma. - Não podemos fazer isso. - Podem. - Temos ordens. - E eu estou dando uma nova ordem. A voz permaneceu baixa, controlada, mas algo nela fez o ambiente parecer ainda mais perigoso. O homem da cicatriz engoliu em seco. - Isso não lhe diz respeito. Dante inclinou levemente a cabeça, como se tivesse acabado de ouvir algo absurdo. - Tudo o que envolve Valentina Moreau diz respeito a mim. O silêncio que se seguiu foi esmagador, Valentina sentiu um arrepio. Não pela frase, mas pela forma como ele a disse. Sem hesitação, sem dúvida, como uma verdade absoluta. O líder percebeu o mesmo, porque começou a recuar devagar. - Isto não acabou. Dante nem piscou. - Para vocês acabou. O homem levantou a arma e foi exatamente naquele momento que Valentina percebeu que algo terrível estava prestes a acontecer, porque nenhum dos homens atrás de Dante demonstrou surpresa. Nenhum. Como se todos já soubessem qual seria o próximo movimento, o próximo segundo, próximo disparo. E, antes que ela pudesse sequer abrir a boca, o som de um tiro rasgou o escritório.A pergunta de Valentina ficou suspensa no ar, ninguém respondeu imediatamente e aquele silêncio foi mais cruel do que qualquer palavra. Porque, naquele momento, ela percebeu que talvez nunca tivesse conhecido realmente ninguém, nem seu pai, nem sua mãe, nem a própria história.A mulher diante dela, aquela que deveria ser uma desconhecida, mas carregava o título mais importante da sua vida, aproximou-se lentamente.- O nome dele era Gabriel Moreau.Valentina franziu a testa.- Moreau?A mãe assentiu.- Sim.- Então por que ele era chamado de meu pai?A mulher respirou fundo, parecia doloroso explicar.- Porque ele foi o homem que escolheu cuidar de você.A resposta não trouxe conforto, pelo contrário, aumentou a confusão.- Escolheu?A voz de Valentina tremeu.- O que isso significa?Dante permaneceu em silêncio próximo à porta, mas ela percebeu. Ele sabia daq
Por alguns segundos, Valentina acreditou que estava sonhando, não havia outra explicação, porque a mulher diante dela não poderia existir, era impossível.Durante vinte anos, aquela pessoa tinha vivido apenas nas fotografias antigas, nas histórias incompletas do pai e nas lembranças vagas de uma infância que ela mal conseguia recuperar, aquela mulher pertencia a um passado doloroso, mas agora estava ali na sua frente, respirando, olhando para ela, chamando-a de filha.Valentina permaneceu parada no corredor, incapaz de dar um único passo, sua mente tentava negar aquilo, tentava encontrar alguma explicação lógica. Talvez fosse alguém parecido, talvez fosse uma armadilha, talvez fosse mais uma mentira, mas então a mulher aproximou-se da luz e Valentina viu os detalhes que nunca esqueceu, os olhos, o formato do rosto, a pequena marca próxima ao queixo que aparecia em todas as fotografias. Era ela, sua mãe.- Não...A palavra saiu como um su
A sala ficou completamente silenciosa, o tipo de silêncio que não era ausência de som, era presença de algo pesado demais para ser dito. Valentina continuava olhando para a tela do computador, incapaz de desviar os olhos, a voz da sua mãe ainda ecoava na sua cabeça."Se você está vendo isto, significa que eu não consegui voltar para você."Cada palavra parecia abrir uma ferida antiga, uma ferida que ela nem sabia que existia, mas não era apenas a voz dela que a tinha abalado, era o homem ao lado dela.O homem que aparecia na gravação, que olhava diretamente para a câmera como se soubesse exatamente quem assistiria àquela mensagem anos depois.Dante, ele havia reconhecido antes dela, a reação dele tinha sido imediata. Um segundo antes estava completamente controlado, no segundo seguinte, estava de pé, tenso, como alguém que acabara de ver algo impossível.Valentina virou-se lentamente para ele.- Quem é ele?Dante não res
Durante alguns segundos, Valentina esqueceu como respirar, a fotografia continuava caída no chão da sala do cofre, mas parecia pesar toneladas. Era apenas um pedaço de papel, uma imagem antiga, alguns rostos congelados no tempo, mas para ela, aquilo acabava de destruir tudo o que acreditava saber sobre a própria vida. Sua mãe estava morta, sempre esteve. Desde que Valentina tinha memória, aquela era a única certeza que carregava, sua mãe havia morrido quando ela era pequena. Era uma história repetida tantas vezes que deixou de ser uma lembrança e tornou-se uma verdade absoluta. Uma doença, uma morte rápida, um funeral, um túmulo, uma ausência que a acompanhou durante toda a infância. Mas aquela mulher na fotografia... Aquela mulher sorrindo ao lado de seu pai e Dante Moretti...Era ela. Era impossível não reconhecer, mesmo depois de tantos anos, mesmo depois de uma fotografia envelhecida. Valentina conhecia aquele rosto, conhecia aquele olhar, conhecia aquele sorriso. Era o
Por alguns segundos, Valentina não conseguiu reagir, a frase de Dante ficou presa na sua mente, repetindo-se de forma cruel.Alguém acabou de invadir o banco.Era impossível, não podia ser coincidência, não depois de tudo. Primeiro a morte do pai, depois a carta, depois a invasão da mansão.Agora o banco, o lugar onde, supostamente, estava guardado algo que poderia explicar tudo, algo que poderia revelar por que seu pai morrera. E, de alguma forma, alguém sempre parecia chegar antes dela.Sempre.Ela olhou para Dante, pela primeira vez desde que o conhecera, não havia apenas raiva no seu olhar, havia medo por ela, mas pela verdade que parecia estar cada vez mais próxima.- Como eles sabem? - perguntou.Dante guardou o telefone no bolso.- Essa é a pergunta certa.- Não estou perguntando isso.- Então qual é?Ela aproximou-se.- Como eles sabem que eu descobri o cofre?O silêncio entre eles respondeu antes das palavras, Dante ficou imóvel, Valentina percebeu. Ele sabia, talvez não dê t
A frase de Marco permaneceu suspensa no ar, por um instante, ninguém falou, ninguém se moveu.O escritório parecia ter mergulhado numa espécie de silêncio irreal, Valentina continuava segurando a pequena chave dourada enquanto observava os dois homens à sua frente.Primeiro Marco.Depois Dante.Depois Marco novamente.Os dois pareciam ter acabado de ver um fantasma e aquilo não fazia qualquer sentido. Até aquele momento, ela acreditava que o objecto encontrado entre os pertences do pai era apenas uma peça importante de algum segredo.Agora percebia que era muito mais do que isso.Muito mais. Porque homens como Dante Moretti não se abalavam facilmente, pelo menos era essa a impressão que ele transmitia.Durante a invasão da mansão, durante os disparos, durante a ameaça dos sequestradores, seu rosto permanecera praticamente inalterado, mas a simples visão daquela chave havia provocado uma reação.Pequena, quase imperceptível, mas ainda assim, uma reação e isso era suficiente para desper







