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Capítulo 1

Author: Cláu
last update publish date: 2026-09-20 21:54:19

Valentina Moreau permaneceu imóvel no centro da sala privada do hotel, o telefone não era dela, era de Lorenzo.

Mesmo assim, o toque estridente pareceu atravessar o ambiente como uma lâmina.

O homem observou o ecrã durante alguns segundos antes de atender, sua expressão tornou-se imediatamente mais séria.

- Sim.

Silêncio.

- Entendido.

Mais silêncio, então desligou.

Valentina cruzou os braços.

- Imagino que seja mais uma notícia absurda.

Lorenzo guardou o telefone.

- Dante Moretti chegará a Nova Iorque amanhã.

Ela soltou uma gargalhada curta, não porque tivesse achado graça, mas porque aquilo começava a parecer uma loucura.

- Ótimo.

- Senhorita Moreau...

- Talvez ele também traga um dragão ou uma carruagem medieval.

- Não está entendendo a gravidade da situação.

- Não, quem não está entendendo é você.

Ela aproximou-se da mesa.

- Não vou casar com ninguém.

- O acordo existe.

- Não me importa.

- A Família Moretti...

- Não me importa.

- Dante Moretti...

- Não me importa.

Sua voz ecoou pela sala firme e sem hesitação.

Durante toda a sua vida, Valentina aprendera uma coisa, ninguém tinha o direito de decidir seu destino, nem seu pai, nem um contrato e muito menos um homem que nunca tinha visto pessoalmente.

Ela pegou sua bolsa.

- A conversa acabou.

- Senhorita Moreau.

- Adeus, senhor Bianchi.

E saiu.

---

O ar frio da noite atingiu seu rosto assim que deixou o hotel, Nova Iorque continuava movimentada, os carros passavam, as buzinas soavam, pessoas caminhavam pela rua, tudo parecia normal, mas dentro dela nada estava normal. Seu pai estava morto e poucas horas depois do funeral, um desconhecido aparecia para dizer que ela havia sido prometida em casamento a um mafioso italiano, parecia um filme, uma história ridícula, um mentira.

Entrou no carro e bateu a porta com força, tentou ligar o motor mas permaneceu parada, as mãos tremiam. Pela primeira vez desde a morte do pai, sentiu a dor atingir com toda a força, baixou a cabeça sobre o volante, as lágrimas vieram silenciosas, pesadas.

Ela não chorava apenas pela morte, chorava pela sensação de ter sido traída. Porque, se aquilo fosse verdade, significava que o homem em quem mais confiara lhe escondera segredos durante toda a vida, segredos enormes e imperdoáveis.

Depois de alguns minutos, limpou o rosto, ligou o carro e foi para casa.

---

O apartamento de Valentina ocupava todo o último andar de um edifício luxuoso em Manhattan, as enormes janelas revelavam a cidade iluminada, normalmente aquele lugar transmitia paz, mas naquela noite parecia sufocante.

Ela tirou os saltos, jogou a bolsa sobre o sofá, serviu-se uma taça de vinho e sentou-se diante da janela.

Precisava pensar, precisava entender, mas sua mente voltava constantemente à mesma pergunta.

Quem era realmente seu pai? O homem que a ensinara a andar de bicicleta, que a levara ao primeiro dia de escola, que aparecia em todos os aniversários, que dizia amá-la.

Como alguém podia esconder algo tão grande?

O telemóvel vibrou, ela olhou para o ecrã.

Sophie, a madrasta.

Valentina atendeu.

- Olá.

- Como está?

- Já estive melhor.

- Entendo.

Sophie parecia nervosa, muito nervosa e Valentina percebeu imediatamente.

- O que foi?

Silêncio.

- Sophie?

- Há algo que preciso mostrar-lhe.

Valentina fechou os olhos, mais segredos

Claro.

Porque aparentemente todos haviam decidido esconder partes da sua própria vida.

- O quê?

- Está relacionado com o seu pai.

Ela apertou a taça.

- Pode dizer agora.

- Não pelo telefone.

- Sophie...

- Venha amanhã de manhã.

A ligação terminou, Valentina observou o ecrã, a inquietação dentro dela aumentou, algo estava muito errado.

---

Na manhã seguinte, um jato particular atravessava o Atlântico, no interior da aeronave, Dante Moretti lia documentos, seu rosto mantinha-se impassível, como sempre.

Ao seu lado, Marco Romano observava-o.

- Está tranquilo demais.

Dante continuou lendo.

- Estou trabalhando.

- Vai encontrar a mulher que o odeia sem sequer conhecê-lo.

- Ainda assim estou trabalhando.

Marco suspirou.

- Um dia vou descobrir como funciona a sua cabeça.

Dante fechou a pasta.

- Não recomendo.

- Por que não?

- É um lugar desagradável.

Marco soltou uma risada, mas logo voltou a ficar sério.

- Lorenzo acredita que ela não aceitará.

- Eu também.

- E mesmo assim viajou até aqui.

- Sim.

- Há maneiras mais simples de resolver isso.

Os olhos de Dante tornaram-se frios.

- Não.

Marco conhecia aquele olhar, era um aviso. Não insistiu porque sabia exatamente o motivo. Valentina Moreau não era apenas uma peça num acordo antigo, ela era muito mais do que isso, embora ainda não soubesse.

---

Pouco depois das dez da manhã, Valentina estacionou diante da casa onde seu pai vivera durante os últimos anos, uma mansão elegante nos arredores da cidade.

Sophie aguardava na entrada, parecia cansada, como alguém que não dormira.

Abraçaram-se rapidamente, depois entraram, o ambiente estava estranho, silencioso, vazio. A ausência do pai parecia estar presente em todos os lugares, as fotografias, os móveis, os livros, tudo lembrava ele.

Sophie conduziu-a até o escritório, um cômodo amplo revestido por madeira escura, Valentina conhecia aquele lugar desde criança, mas algo chamou sua atenção imediatamente, uma gaveta da enorme escrivaninha estava aberta.

- O que aconteceu?

Sophie respirou fundo.

- Encontrei isto ontem à noite.

Ela entregou uma chave pequena dourada e antiga.

- O que é?

- Não sei.

- Então porque me trouxe aqui?

- Porque veio acompanhada disto.

Sophie abriu uma pasta, etirou um envelope amarelado com o nome de Valentina escrito à mão, o coração dela acelerou, reconhecia aquela letra, era do pai.

Sem dizer nada, abriu o envelope, dentro havia apenas uma carta, começou a ler.

"Se estiver lendo isto, significa que aconteceu algo que eu sempre temi."

Valentina sentiu o peito apertar.

"Perdoe-me por todos os segredos."

Seus olhos correram pelas linhas seguintes.

"Há coisas que fiz para proteger você."

"Coisas que jamais poderia explicar."

"Mas agora já não posso impedir que descubra a verdade."

Ela continuou lendo, cada palavra aumentava sua inquietação até chegar à última frase e então seu sangue gelou.

"Nunca confie em Dante Moretti."

Valentina levantou os olhos abruptamente.

- O quê?

Sophie parecia tão confusa quanto ela.

- O que diz?

Valentina releu a frase, mais uma vez. E outra, era impossível interpretar de outra forma, seu pai estava avisando-a.

Avisando-a sobre Dante. Mas por quê? Se havia sido ele quem assinara o acordo? Nada fazia sentido, absolutamente nada.

Nesse momento, um forte ruído ecoou do andar inferior, as duas mulheres sobressaltaram-se.

- O que foi isso? - perguntou Sophie.

Outro barulho mais forte, como uma porta sendo arrombada.

Valentina ficou de pé imediatamente, o coração disparado, passos, vários passos, homens, muitos homens subindo escadas rapidamente.

A expressão de Sophie empalideceu.

- Não temos mais ninguém na casa...

Os passos aproximavam-se cada vez mais, Valentina olhou para a porta do escritório e no instante seguinte, alguém tentou girar a maçaneta do lado de fora.

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