登入A MINHA ESCOLHA
Visão de Fernanda
Eu dormi mal. De novo.
Dessa vez, a culpa não era só do beijo. Era de uma frase que TH tinha dito antes de me mandar boa noite:
“Agora, mesmo quando isso acabar, eu não acho que vou conseguir simplesmente parar de me importar.”
Ele tinha soltado aquilo no meio da sala e me deixado subir com a cabeça cheia de perguntas.
Passei horas pensando em tudo que aconteceu desde aquela noite: o sangue, o homem quase desacordado que ainda tentou me mandar embora, as brigas, a proteção que eu não pedi e as vezes em que TH confundiu cuidado com controle.
Ele errava bastante, mas também tentava aprender.
Pensei na família dele, em Dona Sônia, Camila, Lívia e até em ND, que aparecia sem avisar e comia tudo que encontrava. Pensei em Bianca e no conselho que ela me deu: gostar não resolvia tudo.
E era verdade.
Gostar de TH não apagava os tiros, as ameaças, Renan, Vini, Léo ou o homem que me observou naquela noite. Não transformava perigo em romance.
Mas eu também precisava parar de usar o medo como desculpa para fingir que não sentia nada.
Uma coisa era decidir que não queria aquela relação. Outra era querer e continuar negando por medo.
Quando olhei o celular, eram quase cinco da manhã.
— Perfeito — murmurei.
Eu gostava dele. Muito.
E precisava entender que escolher não significava ter garantias. Com TH, os riscos eram maiores, e eu ainda não sabia até onde conseguiria aceitar aquela realidade.
Mas não queria continuar fingindo.
Quando desci, a cozinha estava vazia. Meu celular vibrou.
TH: Saí cedo. ND veio me buscar.
Perguntei se tinha acontecido alguma coisa.
TH: Nada com você nem sua família. É sobre a investigação. Quando tiver algo confirmado, te conto.
Respirei aliviada. Depois perguntei se ele tinha comido.
TH: Ainda não.
Eu: Você é insuportável. COME.
TH: Mandando em mim?
Eu: Sim.
Sorri antes de escrever:
Eu: Preciso falar com você depois.
Ele respondeu quase imediatamente, perguntando se tinha acontecido alguma coisa. Expliquei que não era isso.
Eu: É sobre nós.
Dessa vez, demorou.
TH: Tá.
Revirei os olhos.
Eu: Não responde “tá” desse jeito.
TH: Agora mensagem tem cara?
Eu: A sua tem.
Ele perguntou que horas eu sairia. Respondi e fiquei olhando para a tela, com o coração acelerado.
Eu realmente faria aquilo.
Visão de TH
— Você tá lendo a mesma mensagem pela quarta vez — comentou ND.
Bloqueei o celular.
— Não.
— “Precisamos falar sobre nós”?
Fechei a cara.
— Você leu?
— Seu celular estava praticamente na minha frente.
Ele abriu um sorriso.
— Ela escreveu “nós”?
— Pode ser pra dizer que quer distância.
O sorriso dele diminuiu.
— Pode.
— Então não inventa coisa.
ND riu, mas parou quando CK chegou com uma atualização.
A informação que tinha mudado minha rota havia sido alterada no meio do caminho. Alguém pegou um aviso parcialmente verdadeiro e acrescentou algo que transformou uma suspeita em urgência.
— Então alguém me empurrou para o caminho que queria — concluí.
— É o que parece — respondeu CK.
O círculo de pessoas com acesso à informação tinha diminuído, mas ainda não havia um nome confirmado. Samuca continuava entre as possibilidades, sem provas contra ele.
Também descobrimos que Renan havia voltado a encontrar Vini. Léo continuava ligado indiretamente àquela movimentação, mas nada comprovava que Renan tivesse participado do ataque.
— Não encosta nele sem prova — determinei.
Depois que CK saiu, ND perguntou se eu contaria tudo a Fernanda.
— Vou contar hoje.
Mas minha cabeça continuava naquela mensagem.
Precisamos falar sobre nós.
Merda.
Visão de Fernanda
Meu plantão parecia não acabar. Olhei tantas vezes para o relógio que Júlia percebeu.
— Tá esperando alguma coisa?
— O fim do expediente.
— Mentira. Vai conversar com ele, né?
Suspirei.
— Vou falar a verdade.
— Qual parte?
— Que gosto dele.
Júlia segurou meu braço, empolgada.
— Finalmente!
— Não faz escândalo.
Contei que não queria começar um namoro como se todos os problemas estivessem resolvidos. Queria conhecer aquela relação, mas sem abandonar meu trabalho, meus planos de faculdade ou minha independência.
— Não quero que gostar dele signifique aceitar tudo — expliquei.
Júlia concordou.
— Então deixa isso claro. E escolhe porque você quer, não porque ele te protege ou porque tem medo de perdê-lo.
A frase ficou comigo.
Quando o plantão terminou, Davi estava me esperando. No caminho, perguntei se TH estava em casa.
— Está.
— Ele perguntou que horas eu saía?
Davi sorriu pelo retrovisor.
— Umas três vezes.
Revirei os olhos, mas não consegui esconder o sorriso.
Ao chegar, fiquei alguns segundos dentro do carro. Estava nervosa.
TH me esperava na sala.
— Oi.
— Oi.
Depois de algumas perguntas sobre meu plantão, ele contou o que CK havia descoberto. A informação que mudou sua rota tinha sido alterada, e a investigação estava mais próxima de identificar quem teve acesso. Renan havia voltado a encontrar Vini, mas ainda não existiam provas de participação no ataque.
— E vocês não vão fazer nada com ele sem prova? — perguntei.
— Não.
— Porque prometeu?
— Também porque você tinha razão. Não posso tratar suspeita como certeza só porque estou com raiva.
Sorri.
— Estou orgulhosa.
— Não abusa.
Agradeci por ele ter me contado. Depois chegou minha vez.
Sentamos frente a frente.
— Você falou que precisava conversar — ele disse.
Respirei fundo.
— Eu falei que o beijo foi um erro.
— Falou.
— Não foi.
TH ficou imóvel.
— Eu fiquei com medo — continuei. — De confundir gratidão com sentimento. De estar gostando de você só porque tudo aconteceu muito rápido.
Ele me ouviu sem interromper.
— Teve tiro, ameaça, segurança, eu morando na sua casa, sua família… Foi muita coisa. Mas depois veio Bianca e eu percebi algo.
— O quê?
— Eu fiquei com ciúme.
O canto da boca dele ameaçou levantar.
— Não sorri.
— Desculpa.
— Fiquei com ciúme porque gosto de você. Não por causa da proteção, nem porque estou com medo.
O silêncio tomou conta da sala.
— Fala alguma coisa — pedi.
Ele respirou fundo.
— Porra.
Comecei a rir de nervoso.
— Essa é sua resposta?
— Estou tentando não fazer merda.
TH se levantou, mas parou a uma distância segura.
— Eu ainda tenho medo — falei. — E existem coisas da sua vida que não aceito. Quero continuar trabalhando, fazer minha faculdade e cuidar da minha família. Não quero que você decida por mim.
— Eu sei.
— E não estou dizendo isso porque você me protege ou porque estou morando aqui.
Ele assentiu.
— Então por quê?
Meu coração acelerou.
— Porque cansei de fingir que não quero.
TH ficou sério.
— Quer o quê?
Olhei diretamente para ele.
— Você.
Ele deu meio passo, mas não me tocou.
— Tem certeza?
— Não tenho certeza de como vai funcionar. Nem de onde vai dar. Mas tenho certeza de que quero descobrir.
Ele respirou fundo.
— Então vem cá.
Cruzei os braços.
— Não manda.
TH começou a rir.
— Tá. Eu fico aqui.
Sorri e fui até ele.
Porque eu quis.
Ele esperou até eu me aproximar. Só então colocou a mão na minha cintura.
— Assim? — perguntou.
— Assim.
A outra mão tocou meu rosto. Olhei para ele e autorizei:
— Pode.
Dessa vez, fui eu que o beijei.
Não havia raiva, discussão ou arrependimento esperando do outro lado. Havia uma escolha.
Passei os braços pelo pescoço dele e senti sua mão me aproximar com cuidado. Quando nos afastamos, eu estava sem ar.
— Ainda foi erro? — perguntou.
— Não estraga.
Ele riu baixinho.
— Desculpa.
Beijei-o outra vez.
Visão de TH
Fernanda tinha acabado de dizer que me queria.
Eu provavelmente deveria ter ficado quieto e aproveitado, mas uma pergunta escapou:
— Então a gente tá…
Ela colocou a mão na minha boca.
— Não começa a colocar nome.
— Eu gosto de saber as coisas.
— Eu sei. Mas acabamos de decidir tentar. Não precisa transformar isso num contrato.
Ri.
Ela estabeleceu algumas condições: eu não poderia controlar seus horários, mexer no celular ou usar a segurança como desculpa para decidir onde ela iria. Também não queria que eu mandasse Davi investigar Rafael.
— Eu não mandei — respondi.
— Mas pensou.
Não consegui negar.
Em troca, pedi que ela me avisasse se alguma ameaça acontecesse e que não tentasse resolver sozinha uma situação de risco.
— E se eu precisar ficar sozinha? — perguntou.
— Só me avisa. Não precisa trancar a porta sem dizer nada.
Ela concordou.
Depois fiquei sério.
— Você dizer que quer tentar não significa que me deve alguma coisa. Se amanhã perceber que não consegue, pode ir embora.
Fernanda me observou.
— Não estou planejando ir embora amanhã.
Meu peito apertou.
— Não?
— Não se anima.
Tarde demais.
Aproximei-me e beijei sua testa. Ela ficou quieta por um instante.
— Gostei disso — confessou.
Beijei sua testa novamente.
Fodeu.
Visão de Fernanda
Naquela noite, não contei imediatamente para minha mãe, Lucas ou Júlia. Queria guardar aquele momento por algumas horas.
Não era segredo. Só queria aproveitar a sensação de ter escolhido alguma coisa por mim mesma.
Júlia mandou mensagem.
Júlia: Falou com ele?
Eu: Falei.
Júlia: E?????
Eu: Disse que gosto dele.
Ela começou a ligar. Recusei.
Júlia: ELE FALOU O QUÊ?
Eu: Que também gosta.
Júlia: E BEIJARAM?
Eu: Boa noite.
Ri sozinha quando ouvi uma batida na porta.
— Quem é?
— Quem você acha?
TH apareceu segurando meu carregador, que eu tinha esquecido na sala.
— Esqueceu isso.
Peguei o objeto.
— Obrigada.
Ele continuou parado.
— O que foi? — perguntei.
— Estou me acostumando com a ideia de que você escolheu.
Aproximei-me.
— Eu não sou frágil, Thiago. Pensei muito antes de falar aquilo.
— Eu sei.
Segurei sua camiseta.
— E agora você pode me beijar.
Ele sorriu antes de se aproximar.
Dessa vez, o beijo foi tranquilo, sem pressa. Quando se afastou, desejei boa noite.
— Você está me expulsando?
— Meu quarto, minhas regras.
— Eu odeio suas regras.
— Mentira.
Ele abriu a porta, mas parou antes de sair.
— Nanda.
— Oi?
— Eu tô feliz.
Sorri.
— Eu também.
Quando ele saiu, encostei a porta e fiquei ali por alguns segundos.
Não pensei que tinha feito besteira. Não pensei que o beijo era um erro ou que TH tinha me arrastado para a vida dele.
A porta estava atrás de mim. Eu poderia ter escolhido distância. Poderia ter continuado dizendo não.
Mas eu abri.
Eu fui até ele. Falei o que sentia. Beijei porque quis.
Eu não pertencia a TH, assim como ele não me pertencia.
Éramos duas pessoas com medos, limites, problemas e vontade de descobrir o que poderia existir entre nós.
E, naquela noite, eu não era apenas a garota que tinha salvado a vida do Dono da Rocinha.
Eu era Fernanda.
E tinha escolhido tentar com Thiago.
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