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Mais que uma amizade

Author: Amanda Nunes
last update Petsa ng paglalathala: 2026-11-06 01:06:12

Mais Que Uma Amizade

Narrado por Sofia

Eu sempre achei TJ irritante.

Desde pequenos, ele tinha aquela mania de querer ter resposta para tudo. Se eu dizia alguma coisa, ele encontrava um jeito de discordar. Se eu ficava quieta, perguntava o que tinha acontecido. E, quando queria me provocar, fazia isso com uma tranquilidade que dava vontade de jogar alguma coisa nele.

Só que, nos últimos tempos, comecei a perceber que havia algo diferente.

Talvez fosse o jeito como ele tentava esconder as preocupações. Ou a maneira como olhava para o pai quando achava que ninguém estava prestando atenção. Talvez fosse porque, pela primeira vez, eu estava vendo o garoto que conheci crescer diante dos meus olhos.

E isso estava me confundindo.

Depois do problema que ele causou, fiquei decepcionada. Não porque esperava que TJ fosse perfeito, mas porque sabia que ele tinha capacidade de agir melhor. Ele parecia tão preocupado em provar que estava pronto que esqueceu de ouvir as pessoas que queriam ajudá-lo.

Naquela tarde, eu estava saindo da cozinha quando o vi sentado sozinho na varanda.

Pensei em continuar andando, mas ele levantou a cabeça.

— Sofia.

Parei.

— Oi.

— Pode conversar um pouco?

Olhei para ele, desconfiada.

— Depende. Vai começar outra discussão?

Um sorriso pequeno apareceu em seu rosto.

— Não. Hoje eu prometo me comportar.

— Milagre.

Ele riu baixinho.

Acabei me sentando na cadeira ao lado.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou. Era estranho estar perto dele sem uma provocação para preencher o silêncio.

— Conversei com meu pai — TJ começou.

— E como foi?

— Difícil. Ele deixou bem claro que eu ainda tenho muito para aprender.

— Pelo menos dessa vez você ouviu.

— Estou tentando.

Observei suas mãos. Ele parecia inquieto, como se estivesse escolhendo cuidadosamente as palavras.

— Eu queria te pedir desculpas — disse finalmente.

Virei o rosto para ele.

— Pelo quê?

— Pela maneira como agi. Não só pelo que aconteceu naquele dia, mas por algumas atitudes minhas com você também.

Fiquei quieta.

— Às vezes, acho que sei o que é melhor para todo mundo — continuou. — E acabo querendo decidir as coisas sem perguntar o que a outra pessoa pensa.

— Isso é verdade.

Ele soltou uma risada curta.

— Você poderia facilitar um pouco.

— Você pediu sinceridade, não elogio.

TJ balançou a cabeça, sorrindo.

Depois ficou sério novamente.

— Eu não queria que você pensasse que não respeito suas escolhas.

Respirei fundo.

— Então precisa demonstrar isso. Eu sei que meu pai se preocupa comigo. Sei que você também se preocupa, mas não quero ser tratada como alguém que precisa ser salva o tempo inteiro.

Ele me encarou com atenção.

— Eu nunca pensei que você fosse fraca.

— Não precisa pensar isso para agir como se eu fosse. Quando alguém tenta decidir tudo por mim, parece que não confia na minha capacidade de cuidar da minha própria vida.

TJ abaixou a cabeça por um instante.

— Acho que ainda estou aprendendo a diferença entre cuidar e controlar.

A sinceridade daquela resposta me surpreendeu.

Eu esperava uma justificativa, talvez uma piada para mudar de assunto. Mas ele não tentou se defender.

— E eu estou aprendendo a não interpretar toda preocupação como uma tentativa de me prender — respondi.

Ele levantou os olhos.

— Então estamos os dois aprendendo.

— Pelo visto.

Dessa vez, o silêncio não pareceu desconfortável.

Conversamos por mais alguns minutos. Falamos sobre coisas simples, sobre os planos para os próximos dias e até sobre João, que, segundo TJ, tinha desenvolvido um talento especial para irritá-lo.

— Ele é seu melhor amigo. Você não pode reclamar — falei.

— Posso, sim. É um direito meu.

— E ele também tem o direito de te chamar de cabeça-dura.

— Você está ficando muito amiga dele.

Ri.

— Pelo menos João sabe ouvir.

TJ levou a mão ao peito, fingindo estar ofendido.

— Essa doeu.

— Era para doer.

Ele sorriu e, por um instante, percebi que estava olhando para mim de um jeito diferente.

Não era aquele olhar provocador de sempre. Era mais tranquilo, mais demorado.

Desviei os olhos para a varanda.

— O que foi?

— Nada.

— TJ.

— Só estou pensando.

— Perigoso.

Ele riu.

— Você não consegue passar cinco minutos sem me provocar?

— Aprendi com você.

— Então a culpa é minha?

— Finalmente entendeu alguma coisa.

Ele ficou me observando, sorrindo.

Senti meu rosto esquentar e fingi estar interessada no movimento do lado de fora.

Quando me levantei para entrar, percebi que havia começado a ventar. Meus cabelos caíram sobre o rosto, e tentei afastá-los com a mão.

TJ se levantou também.

— Espera.

Antes que eu pudesse perguntar, ele estendeu a mão e retirou delicadamente uma pequena folha que havia ficado presa nos meus cabelos.

O gesto foi simples, mas me deixou sem reação por alguns segundos.

— Pronto — falou baixinho.

— Obrigada.

Nossos olhos se encontraram.

Ele estava perto. Perto o suficiente para que eu percebesse o sorriso discreto em seus lábios e o jeito como parecia procurar alguma coisa para dizer.

Meu coração acelerou sem minha autorização.

— Você está diferente hoje — comentei, tentando disfarçar.

— Diferente como?

— Menos insuportável.

Ele soltou uma gargalhada.

— Vou considerar isso um elogio.

— Não se acostuma.

TJ estendeu a mão e tocou de leve meu braço.

— Sofia, eu não quero que você sinta que precisa se afastar de mim por causa dos meus erros.

Olhei para a mão dele e depois para seu rosto.

— Então não me dê motivos.

— Vou tentar.

— Não quero promessas bonitas. Quero atitudes.

— Justo.

Ele retirou a mão, mas antes de se afastar, sorriu.

— Você sabe que é importante para mim, não sabe?

Meu coração pareceu tropeçar.

Abri a boca, mas nenhuma resposta saiu imediatamente.

— Você também é importante para mim — consegui dizer.

O sorriso dele mudou. Ficou mais discreto, quase tímido.

E aquilo me deixou ainda mais confusa.

Entrei em casa tentando agir normalmente, mas minha cabeça estava longe.

Eu conhecia TJ havia anos. Conhecia suas manias, suas provocações e até o jeito como ficava irritado quando alguém discordava dele.

Mas estava começando a conhecer outra versão.

Uma que conseguia pedir desculpas. Que reconhecia os próprios erros. Que ouvia quando eu dizia que não precisava ser protegida de todas as coisas.

E, por algum motivo, aquela versão estava mexendo comigo.

Encontrei meu pai no corredor.

— Está tudo bem, filha?

— Está, pai.

Ele olhou para a varanda, onde TJ ainda estava.

— Estava conversando com ele?

— Estava.

Meu pai sorriu de canto.

— E sobreviveram?

Revirei os olhos.

— Pai!

Ele riu e seguiu pelo corredor.

Subi para meu quarto, mas antes de fechar a porta, olhei mais uma vez para trás.

TJ estava de pé na varanda. Quando percebeu que eu o observava, levantou a mão em um cumprimento discreto.

Sorri sem conseguir evitar.

Fechei a porta e encostei as costas nela.

Eu não sabia exatamente o que estava acontecendo entre nós. Não sabia se ele sentia alguma coisa além daquela amizade antiga ou se eu estava enxergando sinais onde não existiam.

Só sabia que, pela primeira vez, a presença dele não me fazia querer discutir.

Fazia meu coração ficar mais leve.

E, enquanto tentava entender aquela sensação nova, percebi que talvez nossa amizade estivesse começando a se transformar em algo muito maior.

Mas nenhum de nós parecia pronto para dar nome àquilo.

Ainda não.

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