INICIAR SESIÓNVoltei para o apartamento com o coração disparado, a bolsa apertada contra o peito e as mãos suando. Mal consegui subir as escadas sem tropeçar nos próprios pés. O teste dentro da sacola parecia queimar, como se gritasse tudo o que eu estava tentando esconder até de mim mesma.
Assim que fechei a porta, deixei o corpo escorregar pela madeira até o chão. A
O reflexo no espelho me encara com olhos marejados e um sorriso que ainda não aprendi a conter. O tecido branco cai suave sobre a pele, simples, delicado — como tudo o que escolhemos para esse dia. Não há luxo, nem exageros. Só flores brancas, o perfume leve do jasmim e o som distante da música que ecoa do jardim da casa do meu avô, Miguel, em Madrid.Clara entra no quarto tropeçando no próprio vestido de daminha, os cachos dourados caindo sobre o rosto.— Mamãe! A Lourdes disse que todo mundo já tá esperando! — ela grita, animada, com o buquê de flores quase maior que ela.Sorrio, tentando conter as lágrimas.— Já vou, meu amor. Onde está a sua irmã?Ela aponta para a porta com a mesma empolgação de sempre.— Com a Lourdes! Ela não quis dormir, sabia? Tá lá fora vendo as flo
O tempo tem um jeito curioso de correr quando a vida finalmente encontra o rumo certo.Seis meses.Seis meses desde aquele dia em que o chão pareceu desaparecer sob meus pés e, ao mesmo tempo, o mundo se iluminou.Agora, enquanto observo meu reflexo no espelho do quarto — a barriga redonda e firme, denunciando os movimentos da pequena que cresce dentro de mim — percebo o quanto tudo mudou. Não sou mais a babá assustada que chegou aqui tentando apenas juntar dinheiro para pagar a faculdade. Não sou mais a garota que se escondia atrás da timidez e dos medos.Sou Serena. Noiva de Rodolfo Montenegro. Mãe da filha dele.Sorrio ao ouvir o som da risada de Clara vindo da sala. Ela e Rodolfo brincam enquanto esperam eu terminar de me arrumar para buscá-la na escola. Sim, ainda que ele insista em dirigir sempre, eu me recuso a abrir mão do ritual de ir com eles. Gosto de ver o jeito co
O tempo tem um jeito curioso de correr quando a vida finalmente encontra o rumo certo.Seis meses.Seis meses desde aquele dia em que o chão pareceu desaparecer sob meus pés e, ao mesmo tempo, o mundo se iluminou.Agora, enquanto observo meu reflexo no espelho do quarto — a barriga redonda e firme, denunciando os movimentos da pequena que cresce dentro de mim — percebo o quanto tudo mudou. Não sou mais a babá assustada que chegou aqui tentando apenas juntar dinheiro para pagar a faculdade. Não sou mais a garota que se escondia atrás da timidez e dos medos.Sou Serena. Noiva de Rodolfo Montenegro. Mãe da filha dele.Sorrio ao ouvir o som da risada de Clara vindo da sala. Ela e Rodolfo brincam enquanto esperam eu terminar de me arrumar para buscá-la na escola. Sim, ainda que ele insista em dirigir sempre, eu me recuso a abrir mão do ritual de ir com eles. Gosto de ver o jeito co
O som da porta se fechando atrás de mim foi o sinal de que o dia finalmente tinha acabado. A audiência tinha me drenado de corpo e alma, mas, pela primeira vez em muito tempo, eu me sentia leve. Clara era oficialmente minha. E essa era a única vitória que realmente importava.Quando entrei na sala, o cheiro de café fresco me recebeu, seguido pelos passos apressados de Lourdes.— Doutor Rodolfo! — ela surgiu com o avental ainda amarrado na cintura e um sorriso tão grande que quase me fez rir. — Como foi?Eu larguei a pasta sobre o sofá e soltei um suspiro demorado.— Ganhamos, Lourdes.Ela bateu palmas, emocionada.— Eu sabia! A justiça tarda, mas não falha.— Dessa vez, não falhou mesmo. — respondi, deixando o peso do casaco sobre o encosto.Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, Serena apareceu na porta da cozinha. O olhar dela me encontrou — calmo, hesitante — e bastou isso para o cansaço do dia inteiro desaparecer.— Parabéns, doutor. — ela disse, a voz baixa, com um sorriso
Fazia dias que eu estava estranha. Enjoada, tonta, o estômago revirando sem motivo. No começo, achei que fosse o café da cantina — aquele horror que chamavam de expresso —, ou talvez o nervosismo com as provas finais. Mas, naquela manhã, enquanto tentava prestar atenção na aula de Direito Penal, o simples cheiro da caneta da professora me fez querer sair correndo da sala.Quando o sinal tocou, eu fui direto para o pátio respirar um pouco. O ar fresco não ajudou muito, mas pelo menos o enjoo diminuiu. Sentei num dos bancos de cimento e fechei os olhos. O som dos alunos conversando ao redor parecia distante, abafado, como se o mundo inteiro tivesse se tornado um zumbido.— Serena? — a voz de Ana me puxou de volta.Abri os olhos devagar. Ela estava parada na minha frente, segurando dois cafés e me olhando com aquele ar de quem já sabia a resposta pra tudo.— Você está péssima — disse, sentando ao meu lado.Suspirei.— Obrigada pela gentileza.— Não estou brincando, olha pra você. Tá páli
O fórum tinha aquele cheiro de papel e nervosismo que sempre me incomodou. Gente andando apressada pelos corredores, advogados de terno escuro, o som dos saltos ecoando no piso frio. Parecia um campo de batalha silencioso, e naquele dia, era exatamente isso.Daniel me esperava perto da porta da sala de audiência, folheando algumas páginas da pasta que trazia sob o braço. Quando me viu, ergueu o olhar e me cumprimentou com um leve aceno.— Pronto? — perguntou, com o tom calmo de quem já venceu essa guerra antes.Assenti.— Pronto.Ele sorriu de canto. — Hoje é o dia em que você volta a respirar, Rodolfo.A porta da sala se abriu, e o oficial anunciou o início da audiência. Entramos. Lá dentro, o juiz já estava sentado, ajustando os óculos. Do outro lado da mesa, Marina, impecável como sempre — o cabelo preso, o semblante frio, as unhas vermelhas. E ao lado dela, o advogado que eu já sabia ser uma cobra disfarçada de terno.Sentei ao lado de Daniel. Ele colocou os documentos sobre a mes







