LOGINA casa da Marina sempre foi meu refúgio. Desde que me mudei para cá, depois daquela noite terrível em que fui expulsa de casa, ela tem sido minha âncora. Marina é mais que uma prima; é a irmã que nunca tive. E hoje, mais do que nunca, eu precisava dela.
— Isa, você está bem? — Marina perguntou, colocando uma xícara de chá na minha frente. O cheiro de camomila era reconfortante, mas nem mesmo isso conseguia acalmar minha mente agitada. — Não sei — respondi, segurando a xícara com as duas mãos. — Acho que estou me sentindo... culpada. Marina sentou-se ao meu lado no sofá, seus olhos cheios de preocupação. — Culpada por quê? Você não fez nada de errado. — Eu deixei ela lá, Marina. Deixei minha mãe sozinha com ele. Como posso simplesmente ir embora e fingir que está tudo bem? — Isa, você não deixou ela. Você foi expulsa. E você fez tudo o que pôde para ajudá-la. Quantas vezes você tentou convencê-la a sair daquela situação? Quantas vezes você chamou a polícia, implorou, chorou? Eu olhei para o chão, sentindo as lágrimas queimarem meus olhos. Marina tinha razão, mas isso não tornava as coisas mais fáceis. Eu tinha lutado por tantos anos, e agora novamente, abriria mão de um sonho por escolhas erradas da minha mãe. — Eu sei, mas... e se ele machucar ela de novo? E se algo acontecer e eu não estiver lá para protegê-la? — Isa, você não pode carregar o mundo nas costas — Marina disse, colocando uma mão sobre a minha. — Sua mãe é uma adulta, e ela toma as próprias decisões. Por mais doloroso que seja, você não pode tomar essas decisões por ela. Eu sabia que ela estava certa, mas era difícil aceitar. Minha mãe sempre foi minha responsabilidade, desde que eu era criança. Cuidar dela, protegê-la, tentar mantê-la segura. Agora, eu estava indo embora, e a ideia de deixá-la para trás era quase insuportável. — E se eu tentar mais uma vez? — perguntei, minha voz quase um sussurro. — Talvez se eu conversar com ela de novo, ela entenda... — Isa, você já tentou. Quantas vezes mais você vai se machucar tentando salvar alguém que não quer ser salvo? — Marina falou com uma firmeza que eu não esperava. — Você merece uma chance de ser feliz. De viver sua vida. Sua mãe sabe disso, mesmo que não consiga admitir. As lágrimas finalmente escaparam, escorrendo pelo meu rosto. Marina me puxou para um abraço, e eu me agarrei a ela como se fosse a única coisa que me mantinha de pé. — Eu só queria que ela fosse feliz — eu disse, minha voz embargada. — Eu sei, querida. Eu sei. Mas a felicidade dela não é sua responsabilidade. E a sua felicidade também importa. Ficamos em silêncio por um tempo, enquanto eu tentava me recompor. Marina sempre soube o que dizer, mesmo quando eu não queria ouvir. E, no fundo, eu sabia que ela estava certa. Eu não podia continuar assim, presa em um ciclo de dor e culpa. — E essa oportunidade de au pair? — Marina perguntou, afastando-se um pouco para me olhar nos olhos. — Você ainda quer ir? — Eu... eu não sei. Tenho medo, Marina. Medo de deixar tudo para trás, de não dar certo, de... — De ser feliz? — ela completou, com um sorriso triste. — Isa, você merece isso. Você trabalhou tanto, estudou, cuidou da sua mãe... agora é sua vez. E se não der certo, você sempre pode voltar. Mas pelo menos tente. Eu olhei para ela, sentindo um peso ser tirado dos meus ombros. Talvez ela estivesse certa. Talvez eu merecesse uma chance. — E se eu precisar de ajuda com os preparativos? — perguntei, hesitante. — Então eu vou te ajudar — Marina respondeu, sem hesitar. — Vamos fazer isso juntas. Passaportes, documentos, malas... o que você precisar. Sorri pela primeira vez naquela noite, sentindo uma pontada de esperança. — Obrigada, Marina. Eu não sei o que faria sem você. — Provavelmente ficaria aí se culpando para sempre — ela brincou, fazendo eu rir. — Agora, vamos começar a planejar. Você tem uma viagem para a Espanha para organizar. Enquanto Marina pegava o laptop e começava a pesquisar os documentos necessários, eu me sentei ao seu lado, sentindo um pouco do peso da culpa se dissipar. Talvez eu não pudesse salvar minha mãe, mas poderia salvar a mim mesma. Mas antes disso eu precisava tentar uma última vez, e faria isso agora.O reflexo no espelho me encara com olhos marejados e um sorriso que ainda não aprendi a conter. O tecido branco cai suave sobre a pele, simples, delicado — como tudo o que escolhemos para esse dia. Não há luxo, nem exageros. Só flores brancas, o perfume leve do jasmim e o som distante da música que ecoa do jardim da casa do meu avô, Miguel, em Madrid.Clara entra no quarto tropeçando no próprio vestido de daminha, os cachos dourados caindo sobre o rosto.— Mamãe! A Lourdes disse que todo mundo já tá esperando! — ela grita, animada, com o buquê de flores quase maior que ela.Sorrio, tentando conter as lágrimas.— Já vou, meu amor. Onde está a sua irmã?Ela aponta para a porta com a mesma empolgação de sempre.— Com a Lourdes! Ela não quis dormir, sabia? Tá lá fora vendo as flo
O tempo tem um jeito curioso de correr quando a vida finalmente encontra o rumo certo.Seis meses.Seis meses desde aquele dia em que o chão pareceu desaparecer sob meus pés e, ao mesmo tempo, o mundo se iluminou.Agora, enquanto observo meu reflexo no espelho do quarto — a barriga redonda e firme, denunciando os movimentos da pequena que cresce dentro de mim — percebo o quanto tudo mudou. Não sou mais a babá assustada que chegou aqui tentando apenas juntar dinheiro para pagar a faculdade. Não sou mais a garota que se escondia atrás da timidez e dos medos.Sou Serena. Noiva de Rodolfo Montenegro. Mãe da filha dele.Sorrio ao ouvir o som da risada de Clara vindo da sala. Ela e Rodolfo brincam enquanto esperam eu terminar de me arrumar para buscá-la na escola. Sim, ainda que ele insista em dirigir sempre, eu me recuso a abrir mão do ritual de ir com eles. Gosto de ver o jeito co
O tempo tem um jeito curioso de correr quando a vida finalmente encontra o rumo certo.Seis meses.Seis meses desde aquele dia em que o chão pareceu desaparecer sob meus pés e, ao mesmo tempo, o mundo se iluminou.Agora, enquanto observo meu reflexo no espelho do quarto — a barriga redonda e firme, denunciando os movimentos da pequena que cresce dentro de mim — percebo o quanto tudo mudou. Não sou mais a babá assustada que chegou aqui tentando apenas juntar dinheiro para pagar a faculdade. Não sou mais a garota que se escondia atrás da timidez e dos medos.Sou Serena. Noiva de Rodolfo Montenegro. Mãe da filha dele.Sorrio ao ouvir o som da risada de Clara vindo da sala. Ela e Rodolfo brincam enquanto esperam eu terminar de me arrumar para buscá-la na escola. Sim, ainda que ele insista em dirigir sempre, eu me recuso a abrir mão do ritual de ir com eles. Gosto de ver o jeito co
O som da porta se fechando atrás de mim foi o sinal de que o dia finalmente tinha acabado. A audiência tinha me drenado de corpo e alma, mas, pela primeira vez em muito tempo, eu me sentia leve. Clara era oficialmente minha. E essa era a única vitória que realmente importava.Quando entrei na sala, o cheiro de café fresco me recebeu, seguido pelos passos apressados de Lourdes.— Doutor Rodolfo! — ela surgiu com o avental ainda amarrado na cintura e um sorriso tão grande que quase me fez rir. — Como foi?Eu larguei a pasta sobre o sofá e soltei um suspiro demorado.— Ganhamos, Lourdes.Ela bateu palmas, emocionada.— Eu sabia! A justiça tarda, mas não falha.— Dessa vez, não falhou mesmo. — respondi, deixando o peso do casaco sobre o encosto.Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, Serena apareceu na porta da cozinha. O olhar dela me encontrou — calmo, hesitante — e bastou isso para o cansaço do dia inteiro desaparecer.— Parabéns, doutor. — ela disse, a voz baixa, com um sorriso
Fazia dias que eu estava estranha. Enjoada, tonta, o estômago revirando sem motivo. No começo, achei que fosse o café da cantina — aquele horror que chamavam de expresso —, ou talvez o nervosismo com as provas finais. Mas, naquela manhã, enquanto tentava prestar atenção na aula de Direito Penal, o simples cheiro da caneta da professora me fez querer sair correndo da sala.Quando o sinal tocou, eu fui direto para o pátio respirar um pouco. O ar fresco não ajudou muito, mas pelo menos o enjoo diminuiu. Sentei num dos bancos de cimento e fechei os olhos. O som dos alunos conversando ao redor parecia distante, abafado, como se o mundo inteiro tivesse se tornado um zumbido.— Serena? — a voz de Ana me puxou de volta.Abri os olhos devagar. Ela estava parada na minha frente, segurando dois cafés e me olhando com aquele ar de quem já sabia a resposta pra tudo.— Você está péssima — disse, sentando ao meu lado.Suspirei.— Obrigada pela gentileza.— Não estou brincando, olha pra você. Tá páli
O fórum tinha aquele cheiro de papel e nervosismo que sempre me incomodou. Gente andando apressada pelos corredores, advogados de terno escuro, o som dos saltos ecoando no piso frio. Parecia um campo de batalha silencioso, e naquele dia, era exatamente isso.Daniel me esperava perto da porta da sala de audiência, folheando algumas páginas da pasta que trazia sob o braço. Quando me viu, ergueu o olhar e me cumprimentou com um leve aceno.— Pronto? — perguntou, com o tom calmo de quem já venceu essa guerra antes.Assenti.— Pronto.Ele sorriu de canto. — Hoje é o dia em que você volta a respirar, Rodolfo.A porta da sala se abriu, e o oficial anunciou o início da audiência. Entramos. Lá dentro, o juiz já estava sentado, ajustando os óculos. Do outro lado da mesa, Marina, impecável como sempre — o cabelo preso, o semblante frio, as unhas vermelhas. E ao lado dela, o advogado que eu já sabia ser uma cobra disfarçada de terno.Sentei ao lado de Daniel. Ele colocou os documentos sobre a mes







