LOGINFiquei em silêncio por um tempo, apenas respirando fundo para tentar controlar o fogo que queimava dentro de mim.
Me levantei devagar. Não, eu não iria dar a ele o gosto de me ver chorar, nem de raiva, nem de dor. Eu não me entregaria daquele jeito. Jasper não me olhou nenhuma vez enquanto eu me movia. Apenas continuou encarando o copo vazio em sua mão, como se nada mais importasse, como se eu não estivesse ali. Virei-lhe as costas. Teria que engolir essa humilhação por enquanto, mas jurei para mim mesma que voltaria. Voltaria e acabaria com tudo isso, de um jeito ou de outro. Mas a minha loba uivava de dor dentro de mim, triste, ferida, sentindo cada passo que eu dava para me afastar do nosso vínculo. “Não! Volte! Fique com o nosso companheiro!”, ela choramingava, revoltada com a minha decisão. “Não! Ele não é o seu companheiro e muito menos o meu!” — respondi mentalmente, bufando de raiva, ignorando cada sentimento que ela tentava me empurrar. “Ele é apenas um problema!”. Estendi a mão e segurei a maçaneta da porta, pronta para sair daquele quarto e da presença dele para sempre, ou pelo menos até eu conseguir cumprir o que vim fazer. — Pode ficar aqui se quiser. A voz dele chegou aos meus ouvidos, baixa, profunda, arrastada… e um arrepio imediato percorreu todo o meu corpo, da cabeça aos pés. Eu não me virei. Não daria esse braço a torcer. — Não — respondi por fim, com firmeza, tentando soar o mais fria e indiferente possível. — Não quero estar no mesmo lugar, nem respirar o mesmo ar que você. Minha loba soltou um uivo de tristeza, sentindo a rejeição de ambos os lados. — Você quem sabe, companheira — ele disse, e eu podia ouvir o tom de deboche escorrendo naquela palavra. — Não me chame de companheira! — rosnei, virando apenas o rosto para trás, lançando-lhe um olhar mortal. — Tanto faz — deu de ombros, indiferente, e quando olhei para ele, apenas o vi levar o copo novamente à boca, como se estivesse brincando comigo o tempo todo. Tudo nele era atraente, mesmo daquele jeito, quebrado e sombrio… e isso me irritava mais do que tudo. Respirei fundo, guardando toda a minha raiva, e saí batendo a porta. Não me entregaria aos meus instintos. Lutaria contra isso até o último segundo. Dane-se a minha loba. Dane-se o destino. Saí do castelo evitando ao máximo ser vista por qualquer um dos empregados ou membros do clã que estavam espalhados pela propriedade. Achei que entraria lá e sairia vitoriosa, com a vida dele nas minhas mãos… mas saí literalmente com o rabo entre as pernas, derrotada pelo destino e por mim mesma. Quando cheguei num lugar mais afastado, longe da fortaleza, gritei de raiva, esmurrando uma árvore grossa até os nós dos dedos sangrarem. Queria quebrar tudo. Queria matar qualquer coisa. Mas toda vez que minha mente se acalmava um pouco e eu lembrava dele… Um sentimento estranho, intruso e proibido tomava conta de mim. Meu corpo ardia de uma forma que nunca havia sentido antes, um calor que vinha de dentro, que pedia por ele. Minha loba já ansiava para vê-lo novamente, para sentir seu cheiro, para ouvir sua voz. Mas eu não permitiria. Preferia morrer sofrendo do que ter ele como meu companheiro destinado.POV — DESCONHECIDO Entre as pedras jazia um corpo: o de Boris, o vampiro. O sol ainda não havia nascido. O ar era gélido, e as águas do mar batiam contra ele, ferido e com ossos fraturados, como se não esperassem nem um segundo para consumi‑lo. Mas, contra todas as expectativas, ele abriu os olhos — verdes como esmeraldas. Seu corpo estava todo arrebentado, o rosto coberto de feridas. A beleza de outrora dera lugar a uma visão sombria e assustadora. Começou a se arrastar para longe da água. Conforme a noite avançava, os ossos quebrados iam se encaixando lentamente, um a um. A sua capacidade de cura sobrenatural trabalhava, mas ainda levaria tempo até que ele recuperasse a força total — especialmente enquanto não se alimentasse. Quando finalmente conseguiu ficar de pé e caminhar mancando pelas ruas já quase madrugada, as pessoas se afastavam ao vê‑lo, horrorizadas. Antes, ele atraía olhares; agora, só causava medo. E Boris não se importou nem um pouco. A descoberta que fi
Fiquei olhando para o vazio, para o lugar onde Boris estivera, como se ainda esperasse que ele aparecesse ali. Uma tristeza profunda tomou conta de mim, um luto silencioso por tudo o que se perdeu. Jasper estava ao meu lado, no chão firme, ofegante e cansado, coberto de lama e arranhões — mas vivo. Ele me puxou para perto, mesmo sob aquela chuva fria e implacável. Segurou‑me com força contra o seu peito, como se eu fosse a única coisa que existisse, a única coisa que realmente importava no mundo. Olhou‑me nos olhos com tanto amor que chegava a doer no peito só de receber aquele olhar. — Por quê? Por que me escolheu, e não ele? — perguntou suavemente, a voz embargada, enquanto segurava o meu rosto entre as suas mãos grandes, ásperas e cheias de feridas. Suspirei, apertando as mãos sobre as coxas, ainda de joelhos no chão, tremendo por tudo o que tinha acontecido, por tudo o que vi e decidi. Olhei bem dentro daqueles olhos dourados que sempre me guiaram. Suspirei de novo, e
Jasper estava inclinado sobre mim, preocupado, verificando os meus ferimentos, mas de repente ele foi atingido com tanta força que foi chutado para longe, rolando na lama. Nossos olhos seguiram o movimento, e lá estava ele: Boris, parado, imóvel, olhando para nós dois com ódio mortal estampado no rosto. Jasper se pôs de pé imediatamente, apesar do cansaço e dos ferimentos. Então os dois começaram a se circular lentamente, como dois predadores antigos, prontos para o ataque final, analisando‑se em cada detalhe, cada movimento, cada respiração. Os olhos de Boris brilhavam num vermelho intenso, como sangue puro, cheios de raiva, decepção e uma sede de sangue que durava séculos. Já os olhos de Jasper, dourados e firmes, mostravam calma, verdade e determinação, apesar de tudo o que havia acontecido até ali. Ambos se olharam friamente, sem piscar, sem desviar o olhar. Era uma batalha de vontades antes mesmo de ser uma batalha física. — Hoje vou matar você, Jasper… e vou jogar a sua car
POV — SCARLETT Depois da reunião, finalmente vi Jasper parecer satisfeito: a empresa tinha recebido uma avaliação excelente da auditoria. Mas já era tarde da noite, e passamos o dia inteiro fechados no escritório. Quando saímos pela garagem do edifício e entramos no carro, a chuva caía com força, e os limpadores de para‑brisa trabalhavam sem parar. Estávamos na metade do caminho, num trecho cercado por floresta densa, quando resolvi falar sobre o que tinha acontecido no banheiro. — Jasper… — comecei. Mas ele franziu a testa antes mesmo que eu continuasse, e eu desviei o olhar para a estrada. E ali, no meio da escuridão, vi. Uma figura parada, imóvel, bem no centro da pista, a poucos metros de distância. Meu sangue gelou de uma vez, e um arrepio cortou todo o meu corpo. Eu o reconheci na hora. Era Boris. Ele virou o rosto na nossa direção, e os faróis o iluminaram por completo: pele branca como a neve, quase translúcida, cabelos negros grudados no rosto e no pescoço pela água.
POV — DESCONHECIDO Anos atrás... Sarah sabia que devia se afastar de James, mas a atração que sentia pelo vampiro era fora do comum. Era como se uma corrente invisível a puxasse sempre em sua direção; até a sua loba se agitava, arranhando‑a por dentro, pedindo por ele. Muito antes de sequer conhecer James, ela já o via em sonhos. No meio da madrugada acordava ofegante, com o coração disparado, como se tivesse corrido léguas para alcançá‑lo. E quando finalmente o viu pela primeira vez, quase caiu para trás — reconheceu‑o imediatamente, como se já o tivesse conhecido a vida inteira. Ela estava confusa: como poderia ter como companheiro um vampiro? Era algo proibido, e não conseguia sequer falar sobre isso com ninguém do clã. Mesmo assim, aquele ser de olhos verdes e cabelos dourados ocupava os seus pensamentos a cada instante. Por isso, quando James apareceu naquela noite, ela não hesitou. Saiu ao seu encontro sob o manto da escuridão — precisava estar com ele. Dessa vez, hav
Quando Jasper acordou, encontrou-me já completamente arrumada e pronta para sair. Ele piscou algumas vezes, surpreso, como se não esperasse me ver tão determinada. — Pelo jeito, você realmente quer ir comigo — comentou, rindo. Cruzei os braços e assenti. — Claro. Acho que vou ser sua secretária por alguns dias. O sorriso dele aumentou. — Tudo bem, não vou reclamar. O olhar de Jasper percorreu meu corpo com aquele brilho divertido que eu conhecia muito bem. — Na verdade, acho que vai ser bastante prazeroso ter uma secretária tão bonita ao meu lado. Revirei os olhos e bati de leve no braço dele. — Você consegue transformar qualquer situação em uma provocação? Ele riu enquanto caminhava em direção ao banheiro. — Desculpa… corrigindo. Vai ser muito bom ter uma secretária tão atenciosa comigo. — Melhor assim — respondi, mas ele já tinha entrado no banheiro. Pouco depois, ouvi o som do chuveiro. Sentei-me na cama, mas minha mente voltou imediatamente para o problema que ainda







