LOGINEle se afastou e me encarou através das lentes escuras, mas nem o vidro mais escuro foi suficiente para esconder o brilho dourado que queimava em seus olhos.
De repente, ele se afastou mais e me soltou. No mesmo instante, recuei, saltando para fora da cama como se o toque dele me queimasse. O olhei em choque, cobrindo o pescoço com a mão, sentindo a pele latejar e arder, como se tivesse sido marcada a fogo brando. A raiva corria nas minhas veias, quente e violenta, inundando cada parte do meu ser. Um sorriso frio, cortante e vazio surgiu nos lábios dele. Seu rosto era uma máscara inquebrável; por trás daqueles óculos, eu não conseguia ler nada, não conseguia decifrar o que se passava naquela cabeça perturbada. — Você veio me matar? — perguntou, e o sorriso se tornou melancólico, quase triste. — Bem… Você chegou atrasada, pequena. Meu pai já me matou há muito tempo, quando tirou de mim tudo o que eu mais amava e desejava. Fiquei paralisada por um segundo, absorvendo aquelas palavras, mas a fúria falou mais alto. A dor dele não importava. Nada do que ele sentia importava para mim. — E por que me marcou, então? — gritei, a voz ecoando pelo quarto, carregada de toda a minha revolta. — Você não tinha esse direito! Ninguém tem! Sua expressão ficou séria, dura como pedra. Ele deu um passo à frente, imponente, fazendo o ar parecer mais pesado. — Para você sentir o quanto estou morto por dentro — respondeu, baixo, firme, sem piscar. — Para você conhecer o inferno que eu estou passando todos os dias. Não era isso que você queria? Me causar dor? Agora… a dor é nossa. Fiquei calada, franzindo o cenho, sentindo uma confusão dolorosa. Esse macho era um enigma completo. Um quebra-cabeça de peças tortas, embaralhadas, que eu não conseguia organizar, muito menos entender. Minha loba se remexeu dentro de mim, uivando baixo e melancólica. Ela estava sentindo. Sentindo através do vínculo recém-criado, porque ele deixou que eu sentisse. Ele abriu as portas da própria dor e me jogou para dentro. Eu sentia o vazio, a escuridão, a perda que consumia ele há anos. “Sério que você se importa com ele?” Sibilei mentalmente, gritando com a minha própria essência, com a parte de mim que já começava a trair tudo o que eu jurava. “Ele é o culpado! Ele é o responsável por tudo! Ele merece toda a dor do mundo!” Ele me deu as costas, ignorando completamente a minha existência e toda a fúria que eu emanava. Caminhou até a mesa de canto e serviu-se de um copo de uísque, com movimentos lentos, preguiçosos, como se estivesse sozinho naquele ambiente e não tivesse acabado de mudar a minha vida para sempre. — Pode ir embora se quiser, “companheira” — disse, e a palavra saiu da sua boca carregada de ironia, como se fosse um xingamento, como se fosse a pior das maldições que existia. O olhei, sentindo o ódio borbulhar ainda mais forte, misturado com uma raiva que eu não sabia explicar. — Eu não vou embora sem o que vim buscar — cerrei os punhos, as unhas cravando fundo na palma da mão até sangrar um pouco. — Eu vim acabar com você, e vou matar você, custe o que custar. Ele nem sequer se virou imediatamente. Apenas caminhou até a poltrona de couro escuro e se sentou, recostando-se com todo o tempo do mundo, o copo ainda na mão. Tomou um gole longo, apreciando a bebida amarga, e finalmente seus olhos pesados se voltaram para mim. Senti cada pelo do meu corpo arrepiar, mesmo sob a proteção daqueles óculos escuros que ele teimosamente usava. Mesmo sem ver claramente seus olhos, eu sabia: ele me inspecionava de cima a baixo, desvendando segredos, avaliando cada movimento meu, cada tremor que eu tentava esconder. — Bem… o que está esperando? — perguntou, com uma voz arrastada e cheia de tédio, como se estivesse esperando por um espetáculo que ainda não havia começado. — Ou vai ficar aí parada o dia todo me encarando? Tomou o último gole de sua bebida e bateu o copo de leve sobre a mesa de centro. O som seco e firme ecoou pelo ambiente silencioso. Rosnei para ele, deixando os dentes à mostra, a fúria tomando conta de cada célula do meu corpo. E quando percebi, já havia pulado em sua direção, as garras esticadas e prontas para rasgar qualquer coisa que estivesse no caminho. Eu queria sangue. Eu queria que ele sentisse o que eu sentia. Mas ele foi mais rápido. Muito mais rápido. Com um movimento simples, quase preguiçoso e fácil, ele me agarrou pelo pulso, desviou do meu ataque com um leve giro e me imobilizou antes que eu pudesse sequer piscar. Num segundo, eu estava no ar, pronta para atacar… no outro, seu rosto estava perto do meu, tão perto que eu podia sentir o calor da pele dele e o cheiro forte de uísque misturado com algo selvagem, úmido e único — o cheiro que me viciava e me enojava ao mesmo tempo. Um sorriso sombrio, intenso e cheio de malícia surgiu em seus lábios. Tudo nele era atraente e perturbador. Perigoso e magnético. Uma armadilha da qual eu não conseguia escapar. Minha loba uivou de animação dentro de mim, querendo se aproximar ainda mais, querendo se entregar, querendo o contato. E eu… eu lutava com todas as minhas forças contra isso. Lutava contra o desejo insano que meu próprio corpo sentia por esse homem que eu deveria odiar com todas as minhas forças. — Precisa ser mais rápida… — Ele sussurrou, a voz rouca arrepiando cada nervo meu. — Parece uma filhote inexperiente desse jeito… Tão... desengonçada. Me debati com toda a minha força, tentando me soltar, tentando acertá-lo com o outro braço, com os pés, com qualquer coisa. Mas, num piscar de olhos, a posição mudou completamente: eu já estava sentada no colo dele, completamente aprisionada entre suas pernas largas, com suas mãos grandes e firmes segurando-me na cintura, me mantendo exatamente onde ele queria. Perto demais. Muito além do seguro. Tentei me afastar, me arrastar para trás, sair de cima dele, mas ele não deixou. Apertou-me um pouco mais, firme, me mantendo imóvel e presa ao seu corpo. — Melhor ir embora enquanto pode, fêmea — Ele disse, e o tom de voz mudou, ficando mais sério, mais baixo, quase um aviso mortal, um rosnado baixo contra a minha pele. — Não me teste. Você não vai gostar do resultado. Prendi o fôlego, meu coração batendo tão forte que eu tinha certeza que ele podia ouvir as batidas desesperadas contra o meu peito. Ele correu o olhar devagar, do meu rosto, descendo pelo meu pescoço, passando pela marca que ele mesmo tinha feito, percorrendo todo o meu corpo, como se estivesse gravando cada detalhe na memória… ou como se estivesse apenas avaliando algo que não queria, mas que não conseguia tirar os olhos. E então, sem aviso, sem explicação, ele me largou. Me empurrou para longe com força bruta, como se eu fosse algo sujo, indesejado ou descartável. Saltei para trás, cambaleando e caindo de joelho no chão frio, me arrastando alguns centímetros para longe dele como se ele fosse fogo queimando tudo o que tocava. Senti o rosto queimar, ardendo de vergonha. De raiva de mim mesma. De confusão. Eu era uma assassina profissional. Treinada para matar, para agir, para não sentir medo, não sentir nada que não fosse foco e dever. Mas ali, naquele chão de madeira fria, perto dele… eu parecia apenas uma iniciante. Uma menina perdida e estúpida que não se reconhecia mais.POV — DESCONHECIDO Entre as pedras jazia um corpo: o de Boris, o vampiro. O sol ainda não havia nascido. O ar era gélido, e as águas do mar batiam contra ele, ferido e com ossos fraturados, como se não esperassem nem um segundo para consumi‑lo. Mas, contra todas as expectativas, ele abriu os olhos — verdes como esmeraldas. Seu corpo estava todo arrebentado, o rosto coberto de feridas. A beleza de outrora dera lugar a uma visão sombria e assustadora. Começou a se arrastar para longe da água. Conforme a noite avançava, os ossos quebrados iam se encaixando lentamente, um a um. A sua capacidade de cura sobrenatural trabalhava, mas ainda levaria tempo até que ele recuperasse a força total — especialmente enquanto não se alimentasse. Quando finalmente conseguiu ficar de pé e caminhar mancando pelas ruas já quase madrugada, as pessoas se afastavam ao vê‑lo, horrorizadas. Antes, ele atraía olhares; agora, só causava medo. E Boris não se importou nem um pouco. A descoberta que fi
Fiquei olhando para o vazio, para o lugar onde Boris estivera, como se ainda esperasse que ele aparecesse ali. Uma tristeza profunda tomou conta de mim, um luto silencioso por tudo o que se perdeu. Jasper estava ao meu lado, no chão firme, ofegante e cansado, coberto de lama e arranhões — mas vivo. Ele me puxou para perto, mesmo sob aquela chuva fria e implacável. Segurou‑me com força contra o seu peito, como se eu fosse a única coisa que existisse, a única coisa que realmente importava no mundo. Olhou‑me nos olhos com tanto amor que chegava a doer no peito só de receber aquele olhar. — Por quê? Por que me escolheu, e não ele? — perguntou suavemente, a voz embargada, enquanto segurava o meu rosto entre as suas mãos grandes, ásperas e cheias de feridas. Suspirei, apertando as mãos sobre as coxas, ainda de joelhos no chão, tremendo por tudo o que tinha acontecido, por tudo o que vi e decidi. Olhei bem dentro daqueles olhos dourados que sempre me guiaram. Suspirei de novo, e
Jasper estava inclinado sobre mim, preocupado, verificando os meus ferimentos, mas de repente ele foi atingido com tanta força que foi chutado para longe, rolando na lama. Nossos olhos seguiram o movimento, e lá estava ele: Boris, parado, imóvel, olhando para nós dois com ódio mortal estampado no rosto. Jasper se pôs de pé imediatamente, apesar do cansaço e dos ferimentos. Então os dois começaram a se circular lentamente, como dois predadores antigos, prontos para o ataque final, analisando‑se em cada detalhe, cada movimento, cada respiração. Os olhos de Boris brilhavam num vermelho intenso, como sangue puro, cheios de raiva, decepção e uma sede de sangue que durava séculos. Já os olhos de Jasper, dourados e firmes, mostravam calma, verdade e determinação, apesar de tudo o que havia acontecido até ali. Ambos se olharam friamente, sem piscar, sem desviar o olhar. Era uma batalha de vontades antes mesmo de ser uma batalha física. — Hoje vou matar você, Jasper… e vou jogar a sua car
POV — SCARLETT Depois da reunião, finalmente vi Jasper parecer satisfeito: a empresa tinha recebido uma avaliação excelente da auditoria. Mas já era tarde da noite, e passamos o dia inteiro fechados no escritório. Quando saímos pela garagem do edifício e entramos no carro, a chuva caía com força, e os limpadores de para‑brisa trabalhavam sem parar. Estávamos na metade do caminho, num trecho cercado por floresta densa, quando resolvi falar sobre o que tinha acontecido no banheiro. — Jasper… — comecei. Mas ele franziu a testa antes mesmo que eu continuasse, e eu desviei o olhar para a estrada. E ali, no meio da escuridão, vi. Uma figura parada, imóvel, bem no centro da pista, a poucos metros de distância. Meu sangue gelou de uma vez, e um arrepio cortou todo o meu corpo. Eu o reconheci na hora. Era Boris. Ele virou o rosto na nossa direção, e os faróis o iluminaram por completo: pele branca como a neve, quase translúcida, cabelos negros grudados no rosto e no pescoço pela água.
POV — DESCONHECIDO Anos atrás... Sarah sabia que devia se afastar de James, mas a atração que sentia pelo vampiro era fora do comum. Era como se uma corrente invisível a puxasse sempre em sua direção; até a sua loba se agitava, arranhando‑a por dentro, pedindo por ele. Muito antes de sequer conhecer James, ela já o via em sonhos. No meio da madrugada acordava ofegante, com o coração disparado, como se tivesse corrido léguas para alcançá‑lo. E quando finalmente o viu pela primeira vez, quase caiu para trás — reconheceu‑o imediatamente, como se já o tivesse conhecido a vida inteira. Ela estava confusa: como poderia ter como companheiro um vampiro? Era algo proibido, e não conseguia sequer falar sobre isso com ninguém do clã. Mesmo assim, aquele ser de olhos verdes e cabelos dourados ocupava os seus pensamentos a cada instante. Por isso, quando James apareceu naquela noite, ela não hesitou. Saiu ao seu encontro sob o manto da escuridão — precisava estar com ele. Dessa vez, hav
Quando Jasper acordou, encontrou-me já completamente arrumada e pronta para sair. Ele piscou algumas vezes, surpreso, como se não esperasse me ver tão determinada. — Pelo jeito, você realmente quer ir comigo — comentou, rindo. Cruzei os braços e assenti. — Claro. Acho que vou ser sua secretária por alguns dias. O sorriso dele aumentou. — Tudo bem, não vou reclamar. O olhar de Jasper percorreu meu corpo com aquele brilho divertido que eu conhecia muito bem. — Na verdade, acho que vai ser bastante prazeroso ter uma secretária tão bonita ao meu lado. Revirei os olhos e bati de leve no braço dele. — Você consegue transformar qualquer situação em uma provocação? Ele riu enquanto caminhava em direção ao banheiro. — Desculpa… corrigindo. Vai ser muito bom ter uma secretária tão atenciosa comigo. — Melhor assim — respondi, mas ele já tinha entrado no banheiro. Pouco depois, ouvi o som do chuveiro. Sentei-me na cama, mas minha mente voltou imediatamente para o problema que ainda







