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Capítulo 2: Sombras de arame farpado

ผู้เขียน: melodi
last update วันที่เผยแพร่: 2026-10-15 05:18:15

 

O calor do corpo de Dante Sterling em frente ao meu era uma ameaça tangível. Seus olhos cinzentos, fixos nos meus a escassos milímetros, queimavam com uma mistura amarga de desconfiança e uma fome repentina que congelava a pulsação. Ele mantinha o braço bloqueando minha saída contra o vidro frio da janela e, por um segundo, o silêncio do quadragésimo andar pesou mais do que todo o edifício.

— Jogo? — repeti, forçando minha voz a não tremer. — Acha que estou jogando com o senhor, senhor Sterling?

— Não me chame assim quando acaba de pisotear o único segredo que mantive trancado a sete chaves durante vinte anos — sibilou ele, encurtando ainda mais a distância. Seu hálito de café e sândalo me envolveu por completo. — A família Cruz. O que você procura exatamente? Chantagem? Uma indenização? Ou veio terminar o trabalho que a mulher daquela foto começou?

A humilhação me atingiu no peito antes da raiva. Pensei na minha mãe em casa, com as costas curvadas de dor sobre a mesa, tentando esticar os últimos trocados para pagar os analgésicos. Pensei nas noites que passei em claro estudando para ser a melhor da minha turma, apenas para terminar jogada na rua por um chefe corrupto.

— Olhe bem para mim, Dante — disse, baixando o tom de voz até torná-lo uma lâmina de barbear, usando seu primeiro nome pela primeira vez de propósito. — Olhe nos meus olhos e me diga se vê uma chantagista. Se eu tivesse um único centavo ou um segredo valioso para vender, não estaria vestindo o único blazer decente que me resta nem suportando sua arrogância por um salário de período de experiência. Não sei quem é a mulher da foto. Não sei o que minha família tem a ver com o seu passado. Mas não vou permitir que use seus traumas de infância para manchar minha dignidade.

Dante travou o maxilar. Vi como seus olhos desceram por um instante até meus lábios, atraídos pela veemência das minhas palavras, antes de se cravarem novamente no meu olhar.

Havia uma rachadura enorme em sua compostura; o homem impecável que dominava o mundo corporativo estava cambaleando, incapaz de processar que alguém o desafiasse com tanta verdade no meio de seu próprio colapso.

— Ninguém entra na Sterling International sem um motivo, Valeria — murmurou, e meu nome em seus lábios soou perigosamente íntimo. — E você acaba de pisar em uma mina terrestre.

Eu estava prestes a responder, a afastar o braço dele com firmeza e sair dali, quando um choque metálico quebrou a eletricidade do ar.

Meu celular começou a vibrar freneticamente sobre a mesa de centro, interrompendo o confronto de olhares. O som abafado da vibração contra o tampo de vidro parecia um alarme de emergência.

Dante não se moveu de imediato. Manteve sua postura por mais um segundo, como se quisesse demonstrar que ainda tinha o controle da situação, mas a persistência da chamada acabou por quebrar o transe.

Deu um passo para trás, recompondo o colarinho da camisa com um gesto rápido e mecânico, erguendo novamente o muro de gelo que o protegia do mundo.

— Atenda — ordenou com voz seca, virando-me as costas para recolher do chão os pedaços do abajur quebrado.

Aproximei-me da mesa com as mãos ainda trêmulas. Na tela do telefone brilhava o nome de Mateo.

— Mateo? Estou trabalhando, te ligo em...

— Valeria, você precisa vir ao hospital central imediatamente — a voz de Mateo soou entrecortada, saturada pelo ruído de fundo de uma sala de emergência. — É a sua mãe.

O chão pareceu desaparecer sob meus pés. Apertei o telefone contra a orelha, sentindo o ar se tornar de chumbo.

— O que aconteceu? Ela está bem? — minha voz saiu como um fio sufocado.

— Ela teve um colapso em casa. As dívidas da clínica anterior... Valeria, penhoraram as contas bancárias esta tarde. Quando as notificações chegaram, a Sofía tentou procurar os papéis e desmaiou. A pressão subiu demais. Os médicos dizem que ela precisa de um tratamento endovenoso urgente, mas a administração do hospital não quer interná-la no quarto sem um depósito prévio por causa da ordem judicial de penhora.

— Estou indo para aí — disse sem pensar, sentindo as lágrimas queimarem minhas pálpebras. — Não deixe que a movam, Mateo. Por favor. Chego em quinze minutos.

Desliguei a chamada com o coração batendo na garganta. A desesperança sufocou qualquer vestígio da discussão anterior. Peguei minha bolsa com mãos desajeitadas, esquecendo por completo as pastas, o escritório e os arquivos da Sterling International.

— Senhorita Cruz.

A voz de Dante me deteve no momento exato em que alcancei a porta dupla. Virei-me, sem me dar ao trabalho de esconder o pânico que me devorava por dentro.

Ele estava de pé ao lado da mesa, ainda segurando o porta-retratos entre as mãos. Seu rosto tinha recuperado a rigidez impassível, mas seus olhos cinzentos me analisavam com uma atenção cirúrgica.

— Se cruzar essa porta agora mesmo sem terminar a auditoria de Madri, considerarei rescindido o seu contrato de experiência — disse com absoluta frieza. — Nesta empresa, emergências pessoais não são desculpa para abandonar a responsabilidade.

A crueldade de suas palavras me atravessou como um dardo gelado. Olhei para ele com o desprezo mais puro que já tinha sentido na vida.

— Minha mãe está em um hospital, senhor Sterling — disse, engolindo o nó de raiva. — Fique com a sua empresa, com os seus milhões e com a sua impecável solidão. Há coisas na vida que o dinheiro não pode comprar, e uma delas é a humanidade que falta no senhor.

Não esperei por sua resposta. Saí do escritório pisando fundo, atravessei os corredores em penumbra e entrei no elevador.

Enquanto as portas se fechavam, alcancei a ver Dante de pé no portal de seu escritório, imóvel, observando-me partir com uma expressão indecifrável no rosto.

O hospital central cheirava a antisséptico barato e a angústia acumulada. Mateo me esperava no corredor da emergência, vestindo seu terno de advogado ligeiramente amassado.

Assim que me viu, caminhou em minha direção e me envolveu em um abraço rápido que me serviu de âncora antes de desmoronar.

— Como ela está? — perguntei, afastando-me para olhá-lo.

— Eles a estabilizaram, mas os medicamentos para a hipertensão severa são caros e o hospital exige um pagamento de garantia — explicou Mateo em tom grave, mostrando-me uma pasta amarela. — Valeria... revisei a ordem de penhora das contas da sua mãe. Isso não é uma ação de cobrança comum por parte do banco.

— Do que você está falando?

— A empresa que comprou a carteira de dívidas da sua família e solicitou a execução hipotecária preventiva não é uma instituição financeira convencional — Mateo abriu a pasta e me apontou um selo estampado em tinta vermelha no canto inferior do documento. — É uma filial fantasma chamada Inversiones Aureo. E o único beneficiário registrado no registro mercantil é uma corporação majoritária.

Inclinei-me sobre o papel, sentindo o frio congelar meu sangue novamente ao ler a razão social:

Sterling International Group.

Minha respiração parou. O bilhete atrás da foto de Dante, as palavras da minha mãe escondendo de mim os detalhes do passado, o ódio de Dante ao ver meu sobrenome... Nada era coincidência.

Os Sterling não estavam apenas vinculados à minha família; eles estavam nos destruindo ativamente a partir das sombras.

— Valeria, acontece alguma coisa? — perguntou Mateo, notando minha palidez. — Você conhece essa empresa?

Antes que eu pudesse responder, o som abafado de passos firmes ecoou no final do corredor do hospital. Vários médicos e plantonistas se afastaram pressurosos para abrir caminho.

Ergui os olhos.

Dante Sterling caminhava em nossa direção pelo piso gasto da clínica pública, vestindo seu terno de três mil dólares como se o mundo inteiro lhe pertencesse.

Atrás dele, um homem idoso com pasta de couro e atitude calculista — Andrés Molina, o sócio financeiro que eu tinha visto nos organogramas da empresa — avançava em seu ritmo.

Dante parou a um metro de Mateo e de mim. Olhou de relance para Mateo, avaliando-o com um desprezo gelado, antes de fixar seus olhos cinzentos no meu rosto transtornado.

— O que o senhor está fazendo aqui? — perguntei, colocando-me à frente de Mateo por instinto.

Dante tirou as mãos dos bolsos da calça e me olhou de sua altura ostensiva.

— Vim me certificar de que sua mãe receba o melhor atendimento médico na clínica privada Sterling — disse com uma calma que me pareceu aterradora. — As despesas já foram cobertas e a penhora de suas contas foi suspensa temporariamente.

Mateo deu um passo à frente, confuso e na defensiva.

— Quem é o senhor?

Dante nem sequer se deu ao trabalho de olhar para Mateo; manteve a vista fixa em mim, com um sorriso amargo e dominante desenhando-se em seus lábios.

— Sou o homem que acaba de comprar a dívida total da família Cruz — sentenciou Dante, e sua voz ressoou pelo corredor como uma sentença de prisão perpétua. — A partir de hoje, senhorita Cruz, você não trabalha para a Sterling International. Trabalha diretamente para mim. E não vai sair do meu lado até me pagar cada centavo... ou me contar toda a verdade.

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