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####CAPÍTULO 05

last update Tanggal publikasi: 2026-08-02 05:50:55

Recolho o meu carrinho no hall de entrada e saio da suíte, fechando a porta pesada devagar. No corredor, a senhora Mitchell me aguarda com a expressão pálida e a prancheta apertada contra o peito como um escudo.

— Constanza! Me disseram que houve uma emergência médica gravíssima lá dentro. O hóspede...

— Ele teve um choque anafilático severo, senhora Mitchell — interrompo, respirando fundo para firmar a voz. — Quando entrei, ele já não conseguia respirar. Usei o kit de emergência que estava no criado-mudo e chamei a recepção. Os donos já estão lá com o médico.

— Meu Deus... você manteve a calma a ponto de agir?

— Sim. Mas a suíte não pôde ser limpa.

— Esqueça a limpeza agora, garota! O homem quase morreu! Vá para a área dos funcionários, tome um copo de água com açúcar e descanse um pouco. Depois você continua os outros quartos do quarto andar.

— Sim, senhora. Obrigada.

O resto da manhã e o início da tarde arrastam-se em uma névoa pesada. Meus braços parecem pesar chumbo enquanto troco lençóis, esvazio lixeiras e esfrego banheiros, mas a minha mente continua prisioneira daquela cena na suíte presidencial. A imagem de Amadeu sufocando mistura-se perfeitamente, de forma dolorosa e inevitável, às memórias do passado.

Já vi uma crise alérgica com aquela intensidade apenas uma vez na vida.

Foi quando Chiara ainda era uma recém-nascida de poucos meses. Minha mãe, em um ato de boa-fé e desespero por ver que meu leite parecia insuficiente para acalmar a fome constante da neta, havia preparado uma fórmula infantil industrializada. Bastaram poucas colheradas para que a pele da minha bebê começasse a empipocar, o rostinho a inchar de maneira assustadora e o ar a faltar em sua garganta minúscula. Corremos para o pronto-socorro de carro, chorando e rezando em desespero, chegando ao hospital no limite exato entre a vida e a morte. Os médicos agiram correndo, entubando-a e aplicando corticóides e adrenalina às pressas. Naquela época, disseram-nos que se tratava de uma alergia severa a componentes lácteos e proteicos específicos.

Mas hoje, encarando o rosto desfigurado pelo inchaço de Amadeu enquanto ele lutava por ar, a ficha caiu com a violência de uma martelada no meu peito.

Não foi um acaso genético isolado da minha família. Não foi uma anomalia sem explicação.

A alergia mortal que quase matou a minha filha aos primeiros meses de vida veio diretamente dele. Daquela linhagem fria, intocável e poderosa que corre nas veias de Amadeu Castiglione. Ele quase morreu sufocado pelo próprio organismo exatamente da mesma forma que Chiara quase morreu nos meus braços.

O estômago revira-se em um nó doloroso enquanto empurro o carrinho de volta para a rouparia. O relógio marca o fim do meu expediente.

Quando tiro o avental e lavo o rosto no vestiário, a senhora Mitchell surge na porta com um bilhete na mão.

— Constanza. Antes de bater o ponto, o senhor Castiglione mandou pedir expressamente que você suba à suíte presidencial. Ele já está recuperado, o inchaço diminuiu e ele faz questão de falar pessoalmente com a camareira que o socorreu.

O meu corpo inteiro gela. Recuar agora seria dar margem a suspeitas desnecessárias.

— Está bem — respondo com a voz firme, embora minhas entranhas estejam em polvorosa.

Subo pelo elevador de serviço com o coração batendo descompassado contra as costelas. Cada centímetro de metal que me separa do último andar parece pesar toneladas.

Bato à porta da suíte.

— Entre — responde uma voz masculina do lado de dentro.

A voz dele. Mais rouca do que o habitual devido ao esforço da manhã, mas inconfundível.

Giro a maçaneta e empurro a porta com o passo medido.

Amadeu está de pé perto da janela panorâmica, vestindo uma camisa social clara com os primeiros botões abertos. O rosto ainda exibe leves marcasavermelhadas e um leve inchaço residual ao longo da mandíbula, mas a nitidez de seus traços está de volta. Ele segura um copo d'água na mão direita.

Assim que me vê cruzar o batente e fechar a porta às minhas costas, ele se vira devagar.

Nossos olhares se chocam no ar como duas lâminas em rota de colisão.

O copo d'água quase escapa de seus dedos.

— Você...? — a palavra foge de sua boca em um sopro incrédulo, enquanto os olhos azuis se arregalam em um choque genuíno que paralisa suas feições.

Sinto o meu próprio ar faltar por um segundo, mas endireito a postura, erguendo o queixo com toda a altivez que consigo convocar do fundo da alma.

— Sim, senhor. Sou eu.

Amadeu dá um passo à frente, largando o copo sobre um aparador próximo, com as mãos trêmulas.

— Constanza... o que... o que você está fazendo aqui? Trabalhando neste hotel?

A formalidade fria que escolhi vestir como uma armadura é a única coisa que me impede de desabar ali mesmo.

— Como o senhor pode ver, sou camareira neste estabelecimento. O meu turno se encerrava agora à tarde. A gerência me informou que o senhor desejava falar comigo.

Ele me devora com os olhos, avaliando cada detalhe do meu uniforme, do meu coque, da expressão gélida que estampei no rosto. É evidente que ele esperava qualquer pessoa do mundo, menos a mulher que ele descartou em uma manhã chuvosa em Manhattan há um ano e oito meses.

— Eu pedi para chamarem a camareira que me atendeu mais cedo porque... porque eu queria agradecer pessoalmente — ele começa, com a voz embargada, dando mais um passo em minha direção, implorando silenciosamente por uma trégua. — O médico me disse que, se você demorasse mais dois minutos para entrar naquele quarto e aplicar a injeção... eu não estaria aqui agora. Você salvou a minha vida, Constanza.

Mantenho os braços cruzados contra o peito, inabalável na superfície, embora por dentro o meu estômago esteja em frangalhos.

— Fiz apenas o meu trabalho, senhor Castiglione. Qualquer outro funcionário treinado faria o mesmo.

— Não venha com essa conversa fiada! — ele eleva o tom de voz levemente, perdendo a paciência com a minha frieza calculada. — Não foi treinamento mecânico. Você manteve a calma quando eu estava sufocando, soube exatamente qual medicamento pegar na gaveta e não entrou em pânico. Você me puxou de volta.

— O senhor é um hóspede da suíte presidencial e, pelo o que dizem os boatos do hotel, o novo proprietário de tudo isto — retruco, sem desviar o olhar do azul cortante dos olhos dele. — Proteger a integridade de quem está hospedado aqui é a obrigação de qualquer funcionário que preze pelo emprego. O senhor já está bem, o médico já o liberou. Se o senhor não tem mais nenhuma instrução de serviço para mim, eu gostaria de me retirar. O meu expediente acabou e há pessoas me esperando em casa.

A última frase escapa antes que eu consiga filtrá-la.

Os olhos de Amadeu se estreitam instantaneamente ao ouvir a palavra.

— Pessoas? — ele repete, com a mandíbula travando em um espasmo de pura rigidez possessiva.

Cito mentalmente o meu próprio erro, mas ergo ainda mais o escudo.

— Sim. Minha família. Meu pai, minha mãe e... minha filha.

O impacto dessa última palavra parece atingi-lo fisicamente. Amadeu cambaleia meio passo para trás, a cor sumindo ainda mais de seu rosto já pálido.

— Filha...? — sua voz sai como um sussurro cortado, incrédulo, quase doloroso. — Você... você tem uma filha?

— A minha vida particular, senhor Castiglione, não é da sua conta, assim como a minha não era da sua quando o senhor nos traiu em sua cobertura — disparo, a muralha de gelo trincando por um instante, revelando o fogo do rancor que passei tanto tempo abafando.

Ele engole em seco, sentindo o golpe com toda a força. O arrependimento cru e sem filtros estampa-se em suas feições.

— Constanza, por favor... me dê um minuto. Naquela época... Ginevra apareceu de surpresa, ela armou aquela situação toda, eu nunca tive nada com ela, aquilo foi um contrato antigo das famílias que eu tentei anular a ferro e fogo... Eu procurei você em Nova York depois daquele dia, mas você já tinha sumido sem deixar rastro.

— Porque eu não sou idiota, Amadeu! — o nome dele escapa dos meus lábios sem o tratamento formal, rasgando o ar da suíte. — Eu vi o que vi. Ouvi o que ouvi. E o dinheiro que o senhor mandou para a minha conta depois da minha demissão não comprou o meu silêncio, apenas pagou o preço da minha partida definitiva daquele inferno de mentiras.

— Eu não queria o seu silêncio, eu queria você! — ele esbraveja, dando mais um passo à frente, com uma urgência desesperada estampada no peito. — Eu nunca quis te machucar!

— Mas machucou. E agora é tarde demais para tentar consertar o vaso que o senhor mesmo quebrou no chão — digo, virando as costas com a mão já estendida na maçaneta da porta. — Obrigada por ter me ouvido o agradecimento. Tenha uma boa recuperação, senhor Castiglione. E bem-vindo ao hotel.

— Constanza, espera! — a voz dele ecoa, cortante e suplicante.

Não espero. Giro a maçaneta, abro a porta e saio para o corredor, puxando-a com força para que se feche com um baque seco atrás de mim.

Assim que o som da porta sela o ambiente, minhas pernas finalmente fraquejam. Encosto as costas na parede fria do corredor, fechando os olhos com força, enquanto o ar quente e trêmulo escapa dos meus pulmões em um soluço contido. O coração b**e desordenadamente contra o peito. Ele está aqui. No mesmo teto. Comprando o hotel onde sobrevivo.

Mas respiro fundo, sacudo os ombros e endireito o corpo. Não posso fraquejar. Não agora.

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