Mag-log inQuando os veículos atravessaram os portões de Águas Profundas, a propriedade estava praticamente bloqueada. Nenhum funcionário havia sido autorizado a sair. Homens da segurança ocupavam posições discretas nos acessos, enquanto a rotina rural fora mantida tanto quanto possível para evitar pânico. A chuva começava a cair em gotas grossas sobre o pátio quando Elena abriu a porta antes mesmo que o veículo parasse completamente. Dante segurou seu braço.— Espere.— Matteo está lá dentro.— E justamente por isso você não vai correr por uma área que ainda não foi liberada.Ela virou-se pronta para discutir, mas viu a preocupação real no rosto dele e conteve o impulso. Salvatore recebeu a confirmação pelo rádio. Só então permitiu que descessem.Elena atravessou a varanda rapidamente.— Mamá!A voz infantil veio da sala antes que ela chegasse à porta.Matteo correu em sua direção e Elena caiu de joelhos para recebê-lo. O impacto do pequeno corpo quase a desequilibrou, mas ela o abraçou c
A volta para Águas Profundas foi completamente diferente da viagem até Santa Amália. Dante não dirigiu. Salvatore assumiu o volante enquanto Lorenzo seguia no banco dianteiro e mantinha contato permanente com Valentina, que coordenava o fechamento da propriedade. Dante permaneceu atrás com Elena e Cecília, uma configuração que, em qualquer outra circunstância, carregaria tensão suficiente para dominar o ambiente, mas que naquele momento se torna quase irrelevante diante da descoberta de que alguém dentro da fazenda trabalhava para Otávio. A estrada desaparecia rapidamente sob os pneus, e o céu, que amanhecera carregado, começava a escurecer ainda mais com nuvens pesadas avançando sobre as colinas. Elena mantinha o telefone nas mãos, esperando as atualizações de Isadora. Já falara com a irmã três vezes em menos de vinte minutos. Matteo estava bem, brincando numa sala interna com Bianca e dois homens da segurança posicionados do lado de fora. Mesmo assim, a necessidade de vê-lo co
Os olhos ficaram marejados.Dante não disse nada.Elena abriu o envelope.Dentro havia quatro folhas dobradas.A primeira começava simplesmente.“Minha Elena, se esta carta chegou até você, então mais uma vez falhei em cumprir a promessa de esta para vocês.”Elena fechou os olhos.Uma lágrima caiu sobre o papel.Ela respirou profundamente e continuou lendo em silêncio. Mirela explicava que descobrira a sobrevivência de Cecília enquanto investigava movimentações financeiras de Gael. Falava de uma clínica onde pessoas podiam desaparecer sem morrer, de documentos falsificados e de uma rede construída para transformar vidas humanas em instrumentos de chantagem. Dizia que tentou libertar Cecília não porque fossem amigas, mas porque enxergou nela uma mãe separada do filho e não conseguiu permanecer indiferente.Na segunda página, a carta mudava.Elena começou a ler em voz alta.— “Se algum dia você conhecer a mulher que estou tentando ajudar, não a julgue apenas pelo que fizeram com ela.
Elena não tocou imediatamente no envelope. Durante alguns segundos, permaneceu sentada diante da mesa de madeira, olhando para a própria letra do nome como se qualquer movimento pudesse fazer aquela prova desaparecer. Conhecia a caligrafia de Mirela. Reconheceria o desenho ligeiramente inclinado das letras em qualquer lugar, a maneira peculiar como sua mãe prolongava algumas hastes e o pequeno traço mais forte ao terminar uma palavra. Durante os últimos meses, lera cartas, anotações e registros deixados por ela, encontrou confissões escondidas entre objetos de infância e descobriu que Mirela passou anos tentando construir uma proteção para os filhos mesmo quando já compreendia que talvez não estivesse viva para utilizá-la. Ainda assim, aquele envelope era diferente. Não foi escondido sob uma figueira nem esquecido entre documentos. Estivera nas mãos de Cecília. A mulher que Dante enterrou simbolicamente havia oito anos carregava consigo uma mensagem de Mirela dirigida à filha.
Cecília observou Elena como se não esperasse ser defendida justamente por ela.Dante passou a mão pelo rosto e respirou fundo.— Tem razão. Desculpe.Cecília demorou alguns segundos antes de assentir.— Eu mereço parte da sua raiva. Talvez mais do que imagina.Ela colocou as mãos sobre a mesa. Havia uma pequena cicatriz no dorso da mão direita.— Quando acordei na clínica, eu lembrava de Matteo, mas não conseguia organizar as lembranças. Algumas vezes acreditava que ele ainda era recém-nascido. —Em outras, lembrava dele andando. Gael aparecia de tempos em tempos. Nunca levantou a mão para mim. Não precisava. Mostrava fotografias. —Uma delas era de Matteo dormindo no quarto. Outra era sua, Dante, saindo de casa. Disse que, se eu tentasse voltar, faria parecer um acidente novamente.— Eu acreditei porque já tinha visto do que ele era capaz.Dante permaneceu em silêncio.— Durante quase dois anos, eu vivi assim. Depois Otávio começou a aparecer mais. Ele me ofereceu liberdade em troca
Elena havia imaginado aquele encontro muitas vezes desde o instante em que o nome de Cecília surgira nos registros de Mirela, mas nenhuma das cenas construídas em sua mente se aproximava da realidade de tê-la diante de si. Nas fantasias mais cruéis, Cecília seria uma mulher arrogante, fria e calculista, alguém que tornaria fácil odiá-la. Em outras, apareceria destruída pelos anos de violência, permitindo que Elena se agarrasse à compaixão e escondesse o próprio medo atrás da necessidade de ajudá-la. A mulher parada nos degraus da pequena Igreja de Santa Amália, entretanto, não oferecia nenhuma dessas facilidades. Parecia humana demais para caber confortavelmente no papel de vítima ou antagonista. Havia uma cicatriz fina junto à têmpora esquerda, pequenas marcas de cansaço ao redor dos olhos e uma rigidez particular na maneira como mantinha os ombros, semelhante à postura de quem passava tempo demais esperando ataques. O vento da praça movia seus cabelos escuros sobre o rosto, ma







