LOGINA viagem de volta para Águas Profundas aconteceu sob um silêncio que Elena não tentou romper. Dante ocupava o banco traseiro do veículo ao seu lado, enquanto Lorenzo seguia na frente com Salvatore, mas parecia estar a quilômetros de distância de todos eles. Desde que deixaram a sala onde Augusto Nogueira prestara depoimento, ele falara apenas o necessário para determinar que o médico continuaria sob proteção e que Valentina verificaria cada informação antes de qualquer ação. Depois disso, recolhera-se numa quietude que Elena já conhecia bem o suficiente para não confundir com indiferença. Dante estava tentando organizar oito anos de vida a partir de uma verdade que desmontava praticamente todas as certezas construídas desde o funeral. Durante muito tempo acreditara ter perdido a esposa num acidente, enterrara uma desconhecida, aprendera a criar Matteo sozinho e finalmente permitira que Elena entrasse numa parte de sua vida que considerava encerrada. Agora descobria que a mulher
Dante permaneceu imóvel junto à cerca por tempo suficiente para que Lorenzo repetisse seu nome uma vez sem obter resposta. A poucos metros deles, Matteo continuava completamente alheio ao terremoto que acabava de atingir sua história. O menino ria enquanto tentava alimentar Aurora com uma cenoura pequena demais para a impaciência do animal, afastando a mão cada vez que o focinho do cavalo se aproximava e voltando a oferecê-la segundos depois. O cachorro corria ao redor de suas pernas, latindo para o cavalo como se acreditasse poder protegê-lo de uma criatura muitas vezes maior. Trabalhadores atravessavam o pátio dos estábulos carregando ferramentas, o sol começava a dissipar a névoa que cobria os campos e o cheiro de capim úmido se misturava ao de terra, couro e ração. Tudo em Águas Profundas continuava exatamente como alguns minutos antes, mas Dante sentia como se tivesse sido arrancado daquela manhã e lançado de volta ao dia em que recebera a notícia da morte da esposa. Durant
Seis meses depois, Águas Profundas já não despertava sob o peso constante da guerra. O sol surgia lentamente atrás das colinas, atravessando a névoa fina que se acumulava sobre os pastos e transformando as gotas de orvalho presas ao capim numa extensão de pequenos pontos dourados. Nos currais, os primeiros trabalhadores conduziam o gado, enquanto o som das porteiras se misturava ao relinchar dos cavalos e ao ruído distante de um trator avançando entre as plantações. A antiga tensão ainda deixará marcas na propriedade. Havia câmeras discretamente instaladas nos acessos, homens treinados entre os funcionários e protocolos de segurança que Salvatore se recusava a abandonar completamente, mas já não eram essas coisas que definiam a fazenda. Crianças voltavam a correr perto das casas dos trabalhadores, os funcionários conversavam durante o café sem baixar a voz quando um carro desconhecido aparecia na estrada, e as janelas da casa principal permaneciam abertas durante grande parte do
A noite avançara sobre Águas Profundas quando Dante finalmente deixou o escritório. Durante horas, a casa continuara funcionando ao redor deles como se o mundo não tivesse acabado de perder algumas das certezas que sustentavam sua vida. Os funcionários recolheram a cozinha, os últimos trabalhadores retornaram dos campos, os cavalos foram acomodados nos estábulos e as luzes externas acenderam-se ao longo dos caminhos de pedra. No escritório, porém, o tempo parecia ter permanecido suspenso entre os documentos encontrados sob a figueira e a página que Dante não conseguia deixar de olhar. Duas contas ligadas a Gael estavam bloqueadas, uma terceira permanecia sob investigação, um antigo aliado começara a negociar proteção e a rede financeira construída durante décadas apresentava as primeiras rachaduras reais. Em qualquer outro momento, aquilo seria motivo suficiente para uma comemoração discreta. Naquela noite, Dante mal conseguia sentir a vitória. A anotação sobre a esposa ocupava
O portão de Águas Profundas fechou-se atrás dos veículos pouco depois do meio-dia, mas Dante não experimentou a sensação habitual de segurança ao atravessar os limites da propriedade. Durante todo o trajeto de volta, a anotação encontrada no caderno de Mirela permanecera presa à sua mente com uma insistência que nenhum raciocínio conseguia afastar. A data posterior ao funeral. O endereço. A indicação de que a mulher fora transferida enquanto a criança permanecera com o pai. Durante anos, ele construíra a vida de Matteo sobre uma verdade que considerava dolorosa, porém definitiva. A mãe do menino morrera. Dante aprendera a pronunciar aquelas palavras sem deixar que a própria dor contaminasse o filho, guardara fotografias para quando Matteo tivesse idade suficiente para perguntar, preservara alguns objetos pessoais e suportara noites em que a criança, ainda pequena, chamava por uma mulher que não poderia voltar. Agora, bastaram poucas linhas escritas por Mirela para transformar cer
Durante alguns segundos, Dante não ouviu o vento atravessando a copa da figueira, o ruído distante dos homens de Salvatore verificando o perímetro ou a voz de Valentina solicitando que ninguém tocasse nos documentos antes que fossem fotografados. Seu olhar permanecia preso ao nome escrito pela mão de Mirela, como se as letras pudessem mudar caso esperasse tempo suficiente. Não mudaram. O nome continuava ali, abaixo da anotação sobre uma morte forjada, e aquilo atingiu uma parte dele que julgava enterrada havia anos. Elena permaneceu ao seu lado sem tocá-lo. Conhecia suficientemente Dante para perceber que o homem diante dela não precisava ser amparado antes de compreender o que estava acontecendo. A respiração dele tornara-se lenta demais, controlada de maneira quase artificial, enquanto o maxilar permanecia rígido e a mão direita se fechava até as articulações perderem a cor. Pela primeira vez desde que Elena o conhecera, Dante parecia não ter uma resposta, um plano ou







