LOGINEla tinha sido sua melhor amiga antes mesmo que ele soubesse o significado daquela palavra. Então cresceram. E, durante a adolescência, alguma coisa mudou. Cole começou a perceber que o sentimento que tinha por Silver já não era o mesmo. Ele estava apaixonado por ela. E, justamente por amá-la, fez aquilo que considerou ser a coisa certa. Afastou-se. Convenceu a si mesmo de que, se permanecesse ao lado dela enquanto escondia aqueles sentimentos, acabaria destruindo a amizade que ambos tinham construído durante tantos anos.
Silver nunca soube o verdadeiro motivo. Provavelmente acreditou que ele simplesmente havia mudado. E talvez essa tivesse sido a maior crueldade que Cole fizera consigo mesmo. Ainda assim, nunca deixou de amá-la. Nunca. Mesmo quando Silver conheceu Adrien, mesmo quando soube que ela iria se casar e até quando precisou sorrir e desejar felicidade aos dois. Cole continuou amando Silver em silêncio. E, quando ela morreu, percebeu que não havia sido capaz de protegê-la nem sequer estando longe. Depois da morte dela, recusou-se a aceitar que tudo terminaria daquela maneira. Investigou o acidente que havia matado os pais de Silver. Reuniu documentos, interrogou pessoas, seguiu pistas que haviam sido ignoradas pela polícia e descobriu aquilo que ninguém jamais imaginaria. O acidente tinha sido planeado, a doença de Silver também, Elsa e Adrien haviam arquitetado tudo. Quando finalmente conseguiu reunir provas suficientes, fez questão de vê-los pagar pelo que haviam feito. Os dois foram presos e condenados, e Cole conseguiu a justiça que Silver jamais teve a oportunidade de conhecer. Mas o que aquilo significava? De que valia ver os assassinos dela atrás das grades quando a mulher que ele amava estava morta? Justiça alguma poderia devolver Silver, nenhuma sentença poderia fazê-la voltar. Nenhuma quantidade de dinheiro poderia comprar de volta os anos que perdera. Cole caminhou lentamente pela areia até sentir a água fria tocar seus tornozelos. O céu estava escuro e o mar parecia não ter fim. Ele observou as ondas quebrando diante de si. Durante meses, havia tentado continuar vivendo. Trabalhou, investigou e fez justiça. Tentou convencer a si mesmo de que Silver gostaria que ele continuasse. Mas naquela noite já não conseguia encontrar motivos para permanecer. A única coisa que queria era estar novamente com ela. Deu mais um passo, a água alcançou seus joelhos. Mais um, chegou à cintura. Cole respirou profundamente, sentindo as lágrimas misturarem-se à água salgada que atingia seu rosto. — Meu jovem. Não está frio demais para ficar no mar? — perguntou a mulher. — Saia daí. — Nenhum frio se compara à dor que carrego. — Talvez não. A mulher aproximou-se da margem. Cole finalmente olhou para trás. — Volte — pediu ela. Cole balançou a cabeça. — Não posso. — Não pode ou não quer? Ele desviou o olhar. — Não tenho mais nada. A senhora permaneceu em silêncio por alguns segundos. Então disse: — É curioso como os seres humanos confundem justiça com reparação. Cole franziu a testa. — O que quer dizer? — Tu fizeste justiça por ela, não fizeste? Ele ficou imóvel. — Como sabe disso? A mulher não respondeu, apenas sorriu. — Colocaste os responsáveis pela morte dela atrás das grades. Descobriste a verdade. Fizeste tudo aquilo que deveria ter sido feito. Cole sentiu um arrepio percorrer seu corpo. — Quem és tu? — Alguém que sabe reconhecer uma pessoa que deseja desesperadamente mudar o passado. Cole encarou a senhora. — Eu faria qualquer coisa para voltar. — Qualquer coisa? — Qualquer coisa. — Mesmo sabendo que não poderás voltar a ser quem és? — Ele não respondeu. A senhora aproximou-se mais da água. — Todo desejo tem um preço, meu jovem. E aqueles que desejam desafiar o tempo costumam pagar os preços mais altos. Cole apertou os punhos. — Não me importa. — Não sabes disso. — Eu sei exatamente disso. — Sua voz falhou. — Se pudesse voltar, eu salvaria Silver. Eu estaria ao lado dela quando os pais morressem. Descobriria o que Elsa e Adrien estavam fazendo. Não permitiria que eles se aproximassem dela. Não permitiria que Silver passasse pelos últimos meses da vida acreditando que estava sozinha. As lágrimas começaram a cair novamente. — Eu deveria ter ficado. A senhora o observou em silêncio. — Esse é o teu maior arrependimento? Cole fechou os olhos. Por alguns segundos, voltou a ser aquele garoto que corria pelos jardins ao lado de Silver. Lembrou-se dela segurando sua mão quando tinha medo. Lembrou-se de como ela sempre o procurava primeiro quando precisava de alguém. Lembrou-se do dia em que decidiu afastar-se. E percebeu, tarde demais, que passara anos tentando protegê-la de um amor que nunca tivera coragem de confessar. — Sim — respondeu. — Eu deveria ter ficado. A senhora inclinou a cabeça. — E se eu te dissesse que ainda podes? Cole abriu os olhos. O coração pareceu parar. — O quê? Ela sorriu. — O tempo pode ser cruel, mas também sabe ser generoso. Cole deu um passo em direção à margem. — Você está dizendo que… — Estou dizendo que talvez exista uma maneira de voltares para antes de tudo acontecer. Cole ficou completamente imóvel. Durante meses, aquela havia sido a única coisa que desejara. Uma segunda oportunidade. Uma chance de salvar Silver. Uma chance de não repetir seus erros. — Eu aceito. A senhora levantou uma sobrancelha. — Nem sequer perguntaste qual será o preço. — Não me importa. — Deveria importar. — Não importa. — Cole olhou para o mar uma última vez. — Se eu puder salvá-la, aceito qualquer sacrifício. A senhora sorriu de uma maneira que fez um arrepio percorrer sua espinha. — Então espero que estejas preparado para cumprir tua promessa. — Que promessa? Ela ergueu a mão. — A de que darias qualquer coisa para salvá-la. O vento aumentou repentinamente, as ondas começaram a se agitar. Cole tentou dizer alguma coisa, mas uma luz intensa surgiu diante de seus olhos. A última coisa que ouviu antes de perder os sentidos foi a voz da senhora: — O tempo sempre cobra suas dívidas, Cole. E, desta vez, tu escolheste pagar a tua com o coração.Uma pessoa que se sente segura começa a fazer perguntas. Uma pessoa que começa a fazer perguntas pode descobrir respostas. Pousei o telemóvel sobre a mesa. Precisava impedir que isso acontecesse. Talvez eu devesse falar novamente com Silver. Aproximar-me dela como a amiga preocupada que sempre fingira ser, descobrir o que estava a acontecer dentro daquela cabeça e perceber até onde iam as suspeitas. Não podia permitir que o medo me fizesse agir precipitadamente. Foi então que ouvi a porta abrir. Adrien entrou novamente na sala. Olhei para ele e percebi imediatamente que continuava inquieto. — Pensei que tivesses ido para casa — disse. — Tentei, mas não consegui parar de pensar no que aconteceu. Aproximei-me dele e segurei-lhe a mão. — É precisamente por isso que precisas de parar de pensar com raiva. Ele respirou fundo. — Não gosto da forma como ela está a agir. — Eu também não. — Então admites que há alguma coisa errada? — Claro que há. A questão é descobrir o quê sem lhe d
Fiquei a observar Adrien desaparecer pelo corredor até ouvir a porta da entrada fechar. Só então deixei o sorriso que mantivera no rosto desaparecer. Aproximei-me lentamente da janela e fiquei a olhar para o carro dele afastar-se pela rua. Adrien estava perturbado, e isso era precisamente o que eu não queria. Um homem assustado tornava-se impulsivo, e eu conhecia-o suficientemente bem para saber que, quando sentia que estava a perder o controlo, tinha dificuldade em pensar com clareza. Silver tinha conseguido deixá-lo inseguro em apenas uma noite. Isso preocupava-me. Não porque eu me importasse particularmente com os sentimentos de Adrien, mas porque dependia dele para que tudo acontecesse como tínhamos planeado. O casamento precisava acontecer. Silver precisava continuar apaixonada por ele, precisava confiar nele o suficiente para colocar o seu património nas mãos do marido e, acima de tudo, precisava chegar ao momento certo sem suspeitar do que estávamos a preparar. Tudo tinha sid
Olhei para ela. — O que queres dizer? — Talvez tenha percebido que está prestes a casar e que deveria começar a pensar no próprio futuro. — Silver nunca pensou assim. — As pessoas mudam. — Não desta maneira. Elsa ficou em silêncio. Eu também. O problema era exatamente esse. Eu conhecia Silver. Conhecia a mulher que se apaixonara por mim, que acreditava em todas as minhas histórias e que se sentia culpada sempre que pensava que não estava a fazer o suficiente pela nossa relação. A mulher diante de mim já não era assim. Ela estava a questionar e pessoas que começam a questionar tornam-se perigosas. — O acordo pré-nupcial foi o que mais me preocupou — admiti. Elsa sentou-se no sofá. — Porque ela decidiu assiná-lo? — Sim. — Talvez seja apenas uma decisão sensata. — Para qualquer outra pessoa, seria. Para Silver, não. Elsa observou-me atentamente. — Ela recusou porque acreditava em ti. — Exatamente. — Então talvez tenha deixado de acreditar. As palavras
Saí da casa de Silver com a sensação desagradável de que alguma coisa tinha corrido terrivelmente mal. Entrei no carro e permaneci alguns segundos sem ligar o motor. A imagem dela agarrada ao braço de Cole continuava diante dos meus olhos, mas não era a proximidade entre os dois que mais me incomodava. Era a expressão no rosto de Silver quando me viu. Ela teve medo de mim. Apertei o volante com força. Silver nunca tinha tido medo de mim. Durante todo o nosso relacionamento, eu soubera exatamente como lidar com ela. Sabia quando devia ser carinhoso, quando devia demonstrar fragilidade e, principalmente, quando devia fazê-la sentir que estava a magoar-me. Silver tinha um coração demasiado sensível para suportar a ideia de ser responsável pela infelicidade de alguém que amava. Eu tinha usado isso a meu favor. Sempre. Ela me ama e acreditava que eu a amava da mesma maneira. Acreditava que as nossas diferenças sociais nunca tinham sido um problema para mim e que eu apenas queria construi
Precisava descobrir quem Adrien e Elsa realmente eram quando deixavam de representar os papéis de noivo perfeito e melhor amiga. Quando chegámos à minha casa, agradeci a Cole. — Obrigada por me ouvires. Ele desligou o motor. — Não precisas agradecer. Abriu a porta e saiu. Eu fiz o mesmo. Quando caminhávamos em direção à entrada, senti uma estranha inquietação. Não sabia explicar porquê. Assim que entrei, percebi. Adrien estava ali. O meu corpo reagiu antes que a minha mente conseguisse compreender. O coração disparou. As minhas mãos ficaram frias. A respiração tornou-se curta. Era ele. O mesmo homem que, na minha outra vida, segurara a minha mão enquanto eu morria. O mesmo homem que tinha olhado para mim sem qualquer piedade. O mesmo homem que tinha escolhido Elsa. Eu parei. Cole percebeu imediatamente. — Silver? Não consegui responder. Adrien aproximou-se. — Finalmente. Aquela voz. Apenas aquela voz foi suficiente para fazer o meu estômago revirar. Sem pensar, aproximei-me d
Às vezes, eu perguntava-me se tudo aquilo tinha realmente acontecido. Talvez a minha morte tivesse sido apenas um pesadelo tão cruel que o meu cérebro se recusava a deixá-lo desaparecer. Talvez eu ainda estivesse deitada naquela cama, doente, fraca, incapaz de me levantar, enquanto a minha mente criava uma realidade onde os meus pais continuavam vivos e eu ainda tinha tempo para mudar tudo. Mas então eu olhava para eles. Via o meu pai sentado à mesa, a conversar com a mesma naturalidade de sempre. Via a minha mãe sorrir enquanto organizava alguma coisa na cozinha. Ouvia as suas vozes pela casa. E lembrava-me de que, na minha outra vida, aqueles sons tinham desaparecido. Para sempre. Era impossível considerar aquilo apenas um sonho quando eu conseguia sentir o calor dos seus abraços. Os meus pais estavam vivos, e eu ainda conseguia andar. Apenas isso já era suficiente para me fazer querer chorar de felicidade. Também havia Kimberly. Depois de tantos anos afastadas, estar novamente







