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Prólogo: parte três

last update publish date: 2026-09-09 16:06:36

Ela tinha sido sua melhor amiga antes mesmo que ele soubesse o significado daquela palavra. Então cresceram. E, durante a adolescência, alguma coisa mudou. Cole começou a perceber que o sentimento que tinha por Silver já não era o mesmo. Ele estava apaixonado por ela. E, justamente por amá-la, fez aquilo que considerou ser a coisa certa. Afastou-se. Convenceu a si mesmo de que, se permanecesse ao lado dela enquanto escondia aqueles sentimentos, acabaria destruindo a amizade que ambos tinham construído durante tantos anos.

Silver nunca soube o verdadeiro motivo. Provavelmente acreditou que ele simplesmente havia mudado. E talvez essa tivesse sido a maior crueldade que Cole fizera consigo mesmo. Ainda assim, nunca deixou de amá-la. Nunca.

Mesmo quando Silver conheceu Adrien, mesmo

quando soube que ela iria se casar e até quando precisou sorrir e desejar felicidade aos dois. Cole continuou amando Silver em silêncio. E, quando ela morreu, percebeu que não havia sido capaz de protegê-la nem sequer estando longe. Depois da morte dela, recusou-se a aceitar que tudo terminaria daquela maneira. Investigou o acidente que havia matado os pais de Silver. Reuniu documentos, interrogou pessoas, seguiu pistas que haviam sido ignoradas pela polícia e descobriu aquilo que ninguém jamais imaginaria.

O acidente tinha sido planeado, a doença de Silver também, Elsa e Adrien haviam arquitetado tudo. Quando finalmente conseguiu reunir provas suficientes, fez questão de vê-los pagar pelo que haviam feito. Os dois foram presos e condenados, e Cole conseguiu a justiça que Silver jamais teve a oportunidade de conhecer.

Mas o que aquilo significava?

De que valia ver os assassinos dela atrás das grades quando a mulher que ele amava estava morta?

Justiça alguma poderia devolver Silver, nenhuma sentença poderia fazê-la voltar. Nenhuma quantidade de dinheiro poderia comprar de volta os anos que perdera. Cole caminhou lentamente pela areia até sentir a água fria tocar seus tornozelos. O céu estava escuro e o mar parecia não ter fim.

Ele observou as ondas quebrando diante de si. Durante meses, havia tentado continuar vivendo.

Trabalhou, investigou e fez justiça. Tentou convencer a si mesmo de que Silver gostaria que ele continuasse. Mas naquela noite já não conseguia encontrar motivos para permanecer. A única coisa que queria era estar novamente com ela.

Deu mais um passo, a água alcançou seus joelhos. Mais um, chegou à cintura. Cole respirou profundamente, sentindo as lágrimas misturarem-se à água salgada que atingia seu rosto.

— Meu jovem. Não está frio demais para ficar no mar? — perguntou a mulher. — Saia daí.

— Nenhum frio se compara à dor que carrego.

— Talvez não.

A mulher aproximou-se da margem. Cole finalmente olhou para trás.

— Volte — pediu ela.

Cole balançou a cabeça.

— Não posso.

— Não pode ou não quer?

Ele desviou o olhar.

— Não tenho mais nada.

A senhora permaneceu em silêncio por alguns segundos. Então disse:

— É curioso como os seres humanos confundem justiça com reparação.

Cole franziu a testa.

— O que quer dizer?

— Tu fizeste justiça por ela, não fizeste?

Ele ficou imóvel.

— Como sabe disso?

A mulher não respondeu, apenas sorriu.

— Colocaste os responsáveis pela morte dela atrás das grades. Descobriste a verdade. Fizeste tudo aquilo que deveria ter sido feito.

Cole sentiu um arrepio percorrer seu corpo.

— Quem és tu?

— Alguém que sabe reconhecer uma pessoa que deseja desesperadamente mudar o passado.

Cole encarou a senhora.

— Eu faria qualquer coisa para voltar.

— Qualquer coisa?

— Qualquer coisa.

— Mesmo sabendo que não poderás voltar a ser quem és? — Ele não respondeu. A senhora aproximou-se mais da água. — Todo desejo tem um preço, meu jovem. E aqueles que desejam desafiar o tempo costumam pagar os preços mais altos.

Cole apertou os punhos.

— Não me importa.

— Não sabes disso.

— Eu sei exatamente disso. — Sua voz falhou. — Se pudesse voltar, eu salvaria Silver. Eu estaria ao lado dela quando os pais morressem. Descobriria o que Elsa e Adrien estavam fazendo. Não permitiria que eles se aproximassem dela. Não permitiria que Silver passasse pelos últimos meses da vida acreditando que estava sozinha.

As lágrimas começaram a cair novamente.

— Eu deveria ter ficado.

A senhora o observou em silêncio.

— Esse é o teu maior arrependimento?

Cole fechou os olhos. Por alguns segundos, voltou a ser aquele garoto que corria pelos jardins ao lado de Silver. Lembrou-se dela segurando sua mão quando tinha medo. Lembrou-se de como ela sempre o procurava primeiro quando precisava de alguém. Lembrou-se do dia em que decidiu afastar-se. E percebeu, tarde demais, que passara anos tentando protegê-la de um amor que nunca tivera coragem de confessar.

— Sim — respondeu. — Eu deveria ter ficado.

A senhora inclinou a cabeça.

— E se eu te dissesse que ainda podes?

Cole abriu os olhos. O coração pareceu parar.

— O quê?

Ela sorriu.

— O tempo pode ser cruel, mas também sabe ser generoso.

Cole deu um passo em direção à margem.

— Você está dizendo que…

— Estou dizendo que talvez exista uma maneira de voltares para antes de tudo acontecer.

Cole ficou completamente imóvel. Durante meses, aquela havia sido a única coisa que desejara.

Uma segunda oportunidade. Uma chance de salvar Silver. Uma chance de não repetir seus erros.

— Eu aceito.

A senhora levantou uma sobrancelha.

— Nem sequer perguntaste qual será o preço.

— Não me importa.

— Deveria importar.

— Não importa. — Cole olhou para o mar uma última vez. — Se eu puder salvá-la, aceito qualquer sacrifício.

A senhora sorriu de uma maneira que fez um arrepio percorrer sua espinha.

— Então espero que estejas preparado para cumprir tua promessa.

— Que promessa?

Ela ergueu a mão.

— A de que darias qualquer coisa para salvá-la.

O vento aumentou repentinamente, as ondas começaram a se agitar. Cole tentou dizer alguma coisa, mas uma luz intensa surgiu diante de seus olhos. A última coisa que ouviu antes de perder os sentidos foi a voz da senhora:

— O tempo sempre cobra suas dívidas, Cole. E, desta vez, tu escolheste pagar a tua com o coração.

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