LOGINAbri os olhos de repente, ofegante, ainda presa às imagens do pesadelo. Durante alguns segundos, fiquei imóvel, olhando para o tecto do meu quarto enquanto tentava recuperar o fôlego. O coração batia tão depressa que chegava a doer.
A minha garganta estava seca, eu ainda conseguia sentir a dor. Aquela sensação horrível de estar presa ao meu próprio corpo, incapaz de me levantar da cama, enquanto Elsa e Adrien riam diante de mim. Conseguia ouvir as palavras deles, sentir o gosto amargo do veneno na boca e recordar o olhar satisfeito de ambos enquanto me contavam tudo o que tinham feito. Os meus pais, o acidente, a doença, a traição e a minha morte. Levei uma mão ao peito, tentando acalmar a respiração. — Silver? A porta abriu-se, e o meu pai entrou no quarto segurando um taco de golfe, como se estivesse realmente preparado para enfrentar qualquer ameaça que pudesse estar ali dentro. Foi naquele instante que o mundo parou, ele estava vivo, o meu pai estava diante de mim. Os meus olhos encheram-se de lágrimas. Simplesmente saí da cama e corri até ele. Apenas quando os meus braços envolveram a cintura do meu pai é que percebi a verdadeira dimensão daquele detalhe. Eu conseguia andar e correr. As minhas pernas estavam firmes, não havia dor, não havia fraqueza. Não havia aquela sensação de peso que me acompanhara durante os últimos meses da minha vida. O meu pai ficou completamente imóvel por um instante, provavelmente assustado com a intensidade do meu abraço. Depois largou o taco no chão e envolveu-me com os braços. — Filha… o que aconteceu? Apertei-o ainda mais. Enterrei o rosto no seu peito e comecei a chorar, chorei como não chorava desde criança. — Pai… — Estou aqui. Aquela simples frase quase me destruiu. Estou aqui. Ele estava ali. Vivo. — Onde está a mãe? O meu pai afastou-me um pouco para conseguir olhar para o meu rosto. — A tua mãe está no quarto. Eu disse-lhe para ficar lá quando ouvi os teus gritos. Pensei que alguém tivesse entrado no teu quarto. Olhei para ele sem conseguir acreditar, minha mãe. Ela também estava viva. Atravessei o corredor quase correndo, com o coração a bater descontroladamente. Parei diante da porta do quarto dos meus pais e abri-a sem sequer bater. E então vi-a. A minha mãe estava sentada na cama. Ela levantou os olhos para mim, confusa. Eu não conseguia dizer nada, então apenas corri até ela. Atirei-me nos seus braços. — Mãe… — Meu amor, o que aconteceu? Apertei-a contra mim, sentindo o perfume que eu conhecia tão bem. Aquele perfume que, durante meses, pensei que jamais voltaria a sentir. — Eu tive um pesadelo. A minha voz saiu pequena, quase infantil. Minha mãe acariciou os meus cabelos. — Oh, meu amor. Fica calma. Foi apenas um pesadelo. Apenas um pesadelo, fechei os olhos. Queria desesperadamente acreditar que tudo aquilo tinha sido apenas uma invenção da minha mente. Mas então o meu pai entrou no quarto. Os dois estavam ali, vivos. Levantei os olhos para o espelho que ficava próximo da cómoda. A mulher que me encarava de volta parecia mais saudável. — Silver? — minha mãe chamou, preocupada. Aproximei-me do espelho. Não era apenas a ausência da doença. Eu reconhecia aquela versão de mim. Era a Silver de antes. Antes de tudo. Levei a mão à boca. — Que dia é hoje? — Hoje? — perguntou o meu pai. — O que queres dizer? — Que dia é hoje? Minha mãe respondeu com cautela. — É dia… Ela disse a data. Senti o chão desaparecer sob os meus pés. Aquela data. Eu conhecia aquela data. Fazia exatamente um ano que…Não. Era impossível. — E o casamento? Meu pai franziu a testa. — O teu casamento? Assenti. — Com Adrien. — Daqui a um mês — respondeu a minha mãe, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Por que estás a perguntar isso? Faltava apenas um mês. Um mês para eu me casar com Adrien. Um mês para continuar a confiar em Elsa. Um mês antes de tudo começar. Minha respiração voltou a ficar descontrolada. Eu tinha voltado exatamente para o período em que tudo parecia perfeito. Ainda éramos amigas. Ainda confiava nela. Ainda amava Adrien. Os meus pais ainda estavam vivos. A minha vida ainda parecia a mesma. Só que eu sabia como aquela história terminava. Lembrei-me da noite em que Elsa entrou no meu quarto usando o meu vestido. Lembrei-me de Adrien parado ao lado dela. Eles queriam o meu dinheiro, queriam a fortuna da minha família e estavam dispostos a matar todos os obstáculos que existissem entre eles e aquilo que desejavam. Incluindo-me. — Silver, estás a assustar-me — disse o meu pai. Olhei para ele, meu pai. Vivo. Minha mãe. Viva. As lágrimas voltaram a cair. Desta vez, porém, não eram apenas lágrimas de alívio. Eram lágrimas de medo. Porque eu sabia que o tempo me tinha dado uma oportunidade. Uma única oportunidade. Mas eu também sabia que não podia agir impulsivamente. Se eu terminasse o noivado com Adrien naquele momento, se acusasse Elsa sem qualquer prova, se dissesse aos meus pais que os dois planejavam matá-los, ninguém acreditaria em mim. Como poderiam? Para todos, Adrien era o homem que eu amava. Elsa era a minha melhor amiga. E eu era apenas uma mulher que tinha acabado de acordar de um pesadelo. Não. Eu precisava pensar. Precisava descobrir quando tudo começara. Precisava descobrir de que maneira Adrien e Elsa estavam planejando destruir a minha família. E, acima de tudo, precisava garantir que desta vez eu não morreria. A minha cabeça começou a girar. As vozes dos meus pais tornaram-se distantes. — Silver? — Filha? Tentei responder, mas as palavras não saíram. O quarto começou a escurecer diante dos meus olhos. A última coisa que senti foram os braços da minha mãe segurando-me enquanto o meu pai gritava pelo meu nome. Depois, tudo ficou negro. E, enquanto perdia a consciência, uma única certeza permaneceu na minha mente: Faltava apenas um mês para eu me casar com o homem que me mataria.Uma pessoa que se sente segura começa a fazer perguntas. Uma pessoa que começa a fazer perguntas pode descobrir respostas. Pousei o telemóvel sobre a mesa. Precisava impedir que isso acontecesse. Talvez eu devesse falar novamente com Silver. Aproximar-me dela como a amiga preocupada que sempre fingira ser, descobrir o que estava a acontecer dentro daquela cabeça e perceber até onde iam as suspeitas. Não podia permitir que o medo me fizesse agir precipitadamente. Foi então que ouvi a porta abrir. Adrien entrou novamente na sala. Olhei para ele e percebi imediatamente que continuava inquieto. — Pensei que tivesses ido para casa — disse. — Tentei, mas não consegui parar de pensar no que aconteceu. Aproximei-me dele e segurei-lhe a mão. — É precisamente por isso que precisas de parar de pensar com raiva. Ele respirou fundo. — Não gosto da forma como ela está a agir. — Eu também não. — Então admites que há alguma coisa errada? — Claro que há. A questão é descobrir o quê sem lhe d
Fiquei a observar Adrien desaparecer pelo corredor até ouvir a porta da entrada fechar. Só então deixei o sorriso que mantivera no rosto desaparecer. Aproximei-me lentamente da janela e fiquei a olhar para o carro dele afastar-se pela rua. Adrien estava perturbado, e isso era precisamente o que eu não queria. Um homem assustado tornava-se impulsivo, e eu conhecia-o suficientemente bem para saber que, quando sentia que estava a perder o controlo, tinha dificuldade em pensar com clareza. Silver tinha conseguido deixá-lo inseguro em apenas uma noite. Isso preocupava-me. Não porque eu me importasse particularmente com os sentimentos de Adrien, mas porque dependia dele para que tudo acontecesse como tínhamos planeado. O casamento precisava acontecer. Silver precisava continuar apaixonada por ele, precisava confiar nele o suficiente para colocar o seu património nas mãos do marido e, acima de tudo, precisava chegar ao momento certo sem suspeitar do que estávamos a preparar. Tudo tinha sid
Olhei para ela. — O que queres dizer? — Talvez tenha percebido que está prestes a casar e que deveria começar a pensar no próprio futuro. — Silver nunca pensou assim. — As pessoas mudam. — Não desta maneira. Elsa ficou em silêncio. Eu também. O problema era exatamente esse. Eu conhecia Silver. Conhecia a mulher que se apaixonara por mim, que acreditava em todas as minhas histórias e que se sentia culpada sempre que pensava que não estava a fazer o suficiente pela nossa relação. A mulher diante de mim já não era assim. Ela estava a questionar e pessoas que começam a questionar tornam-se perigosas. — O acordo pré-nupcial foi o que mais me preocupou — admiti. Elsa sentou-se no sofá. — Porque ela decidiu assiná-lo? — Sim. — Talvez seja apenas uma decisão sensata. — Para qualquer outra pessoa, seria. Para Silver, não. Elsa observou-me atentamente. — Ela recusou porque acreditava em ti. — Exatamente. — Então talvez tenha deixado de acreditar. As palavras
Saí da casa de Silver com a sensação desagradável de que alguma coisa tinha corrido terrivelmente mal. Entrei no carro e permaneci alguns segundos sem ligar o motor. A imagem dela agarrada ao braço de Cole continuava diante dos meus olhos, mas não era a proximidade entre os dois que mais me incomodava. Era a expressão no rosto de Silver quando me viu. Ela teve medo de mim. Apertei o volante com força. Silver nunca tinha tido medo de mim. Durante todo o nosso relacionamento, eu soubera exatamente como lidar com ela. Sabia quando devia ser carinhoso, quando devia demonstrar fragilidade e, principalmente, quando devia fazê-la sentir que estava a magoar-me. Silver tinha um coração demasiado sensível para suportar a ideia de ser responsável pela infelicidade de alguém que amava. Eu tinha usado isso a meu favor. Sempre. Ela me ama e acreditava que eu a amava da mesma maneira. Acreditava que as nossas diferenças sociais nunca tinham sido um problema para mim e que eu apenas queria construi
Precisava descobrir quem Adrien e Elsa realmente eram quando deixavam de representar os papéis de noivo perfeito e melhor amiga. Quando chegámos à minha casa, agradeci a Cole. — Obrigada por me ouvires. Ele desligou o motor. — Não precisas agradecer. Abriu a porta e saiu. Eu fiz o mesmo. Quando caminhávamos em direção à entrada, senti uma estranha inquietação. Não sabia explicar porquê. Assim que entrei, percebi. Adrien estava ali. O meu corpo reagiu antes que a minha mente conseguisse compreender. O coração disparou. As minhas mãos ficaram frias. A respiração tornou-se curta. Era ele. O mesmo homem que, na minha outra vida, segurara a minha mão enquanto eu morria. O mesmo homem que tinha olhado para mim sem qualquer piedade. O mesmo homem que tinha escolhido Elsa. Eu parei. Cole percebeu imediatamente. — Silver? Não consegui responder. Adrien aproximou-se. — Finalmente. Aquela voz. Apenas aquela voz foi suficiente para fazer o meu estômago revirar. Sem pensar, aproximei-me d
Às vezes, eu perguntava-me se tudo aquilo tinha realmente acontecido. Talvez a minha morte tivesse sido apenas um pesadelo tão cruel que o meu cérebro se recusava a deixá-lo desaparecer. Talvez eu ainda estivesse deitada naquela cama, doente, fraca, incapaz de me levantar, enquanto a minha mente criava uma realidade onde os meus pais continuavam vivos e eu ainda tinha tempo para mudar tudo. Mas então eu olhava para eles. Via o meu pai sentado à mesa, a conversar com a mesma naturalidade de sempre. Via a minha mãe sorrir enquanto organizava alguma coisa na cozinha. Ouvia as suas vozes pela casa. E lembrava-me de que, na minha outra vida, aqueles sons tinham desaparecido. Para sempre. Era impossível considerar aquilo apenas um sonho quando eu conseguia sentir o calor dos seus abraços. Os meus pais estavam vivos, e eu ainda conseguia andar. Apenas isso já era suficiente para me fazer querer chorar de felicidade. Também havia Kimberly. Depois de tantos anos afastadas, estar novamente







