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Capítulo 01: Silver Walton

last update publish date: 2026-09-10 13:19:01

Abri os olhos de repente, ofegante, ainda presa às imagens do pesadelo. Durante alguns segundos, fiquei imóvel, olhando para o tecto do meu quarto enquanto tentava recuperar o fôlego. O coração batia tão depressa que chegava a doer.

A minha garganta estava seca, eu ainda conseguia sentir a dor. Aquela sensação horrível de estar presa ao meu próprio corpo, incapaz de me levantar da cama, enquanto Elsa e Adrien riam diante de mim. Conseguia ouvir as palavras deles, sentir o gosto amargo do veneno na boca e recordar o olhar satisfeito de ambos enquanto me contavam tudo o que tinham feito.

Os meus pais, o acidente, a doença, a traição e a minha morte. Levei uma mão ao peito, tentando acalmar a respiração.

— Silver?

A porta abriu-se, e o meu pai entrou no quarto segurando um taco de golfe, como se estivesse realmente preparado para enfrentar qualquer ameaça que pudesse estar ali dentro. Foi naquele instante que o mundo parou, ele estava vivo, o meu pai estava diante de mim. Os meus olhos encheram-se de lágrimas. Simplesmente saí da cama e corri até ele. Apenas quando os meus braços envolveram a cintura do meu pai é que percebi a verdadeira dimensão daquele detalhe.

Eu conseguia andar e correr. As minhas pernas estavam firmes, não havia dor, não havia fraqueza. Não havia aquela sensação de peso que me acompanhara durante os últimos meses da minha vida. O meu pai ficou completamente imóvel por um instante, provavelmente assustado com a intensidade do meu abraço. Depois largou o taco no chão e envolveu-me com os braços.

— Filha… o que aconteceu?

Apertei-o ainda mais. Enterrei o rosto no seu peito e comecei a chorar, chorei como não chorava desde criança.

— Pai…

— Estou aqui.

Aquela simples frase quase me destruiu. Estou aqui. Ele estava ali. Vivo.

— Onde está a mãe?

O meu pai afastou-me um pouco para conseguir olhar para o meu rosto.

— A tua mãe está no quarto. Eu disse-lhe para ficar lá quando ouvi os teus gritos. Pensei que alguém tivesse entrado no teu quarto.

Olhei para ele sem conseguir acreditar, minha mãe. Ela também estava viva. Atravessei o corredor quase correndo, com o coração a bater descontroladamente. Parei diante da porta do quarto dos meus pais e abri-a sem sequer bater. E então vi-a. A minha mãe estava sentada na cama. Ela levantou os olhos para mim, confusa. Eu não conseguia dizer nada, então apenas corri até ela. Atirei-me nos seus braços.

— Mãe…

— Meu amor, o que aconteceu?

Apertei-a contra mim, sentindo o perfume que eu conhecia tão bem. Aquele perfume que, durante meses, pensei que jamais voltaria a sentir.

— Eu tive um pesadelo.

A minha voz saiu pequena, quase infantil. Minha mãe acariciou os meus cabelos.

— Oh, meu amor. Fica calma. Foi apenas um pesadelo.

Apenas um pesadelo, fechei os olhos. Queria desesperadamente acreditar que tudo aquilo tinha sido apenas uma invenção da minha mente. Mas então o meu pai entrou no quarto. Os dois estavam ali, vivos. Levantei os olhos para o espelho que ficava próximo da cómoda. A mulher que me encarava de volta parecia mais saudável.

— Silver? — minha mãe chamou, preocupada.

Aproximei-me do espelho. Não era apenas a ausência da doença. Eu reconhecia aquela versão de mim. Era a Silver de antes. Antes de tudo. Levei a mão à boca.

— Que dia é hoje?

— Hoje? — perguntou o meu pai. — O que queres dizer?

— Que dia é hoje?

Minha mãe respondeu com cautela.

— É dia…

Ela disse a data. Senti o chão desaparecer sob os meus pés. Aquela data. Eu conhecia aquela data.

Fazia exatamente um ano que…Não. Era impossível.

— E o casamento?

Meu pai franziu a testa.

— O teu casamento?

Assenti.

— Com Adrien.

— Daqui a um mês — respondeu a minha mãe, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Por que estás a perguntar isso?

Faltava apenas um mês. Um mês para eu me casar com Adrien. Um mês para continuar a confiar em Elsa. Um mês antes de tudo começar. Minha respiração voltou a ficar descontrolada.

Eu tinha voltado exatamente para o período em que tudo parecia perfeito. Ainda éramos amigas. Ainda confiava nela. Ainda amava Adrien. Os meus pais ainda estavam vivos.

A minha vida ainda parecia a mesma. Só que eu sabia como aquela história terminava. Lembrei-me da noite em que Elsa entrou no meu quarto usando o meu vestido. Lembrei-me de Adrien parado ao lado dela. Eles queriam o meu dinheiro, queriam a fortuna da minha família e estavam dispostos a matar todos os obstáculos que existissem entre eles e aquilo que desejavam.

Incluindo-me.

— Silver, estás a assustar-me — disse o meu pai.

Olhei para ele, meu pai. Vivo. Minha mãe. Viva. As lágrimas voltaram a cair. Desta vez, porém, não eram apenas lágrimas de alívio. Eram lágrimas de medo. Porque eu sabia que o tempo me tinha dado uma oportunidade. Uma única oportunidade.

Mas eu também sabia que não podia agir impulsivamente. Se eu terminasse o noivado com Adrien naquele momento, se acusasse Elsa sem qualquer prova, se dissesse aos meus pais que os dois planejavam matá-los, ninguém acreditaria em mim. Como poderiam?

Para todos, Adrien era o homem que eu amava.

Elsa era a minha melhor amiga. E eu era apenas uma mulher que tinha acabado de acordar de um pesadelo. Não. Eu precisava pensar. Precisava descobrir quando tudo começara.

Precisava descobrir de que maneira Adrien e Elsa estavam planejando destruir a minha família. E, acima de tudo, precisava garantir que desta vez eu não morreria. A minha cabeça começou a girar. As vozes dos meus pais tornaram-se distantes.

— Silver?

— Filha?

Tentei responder, mas as palavras não saíram. O quarto começou a escurecer diante dos meus olhos. A última coisa que senti foram os braços da minha mãe segurando-me enquanto o meu pai gritava pelo meu nome. Depois, tudo ficou negro.

E, enquanto perdia a consciência, uma única certeza permaneceu na minha mente: Faltava apenas um mês para eu me casar com o homem que me mataria.

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