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Prólogo: parte dois

last update publish date: 2026-09-08 15:17:40

Adrien permaneceu ao lado da cama, observando-a.

— Achavas mesmo que eu tinha me apaixonado por ti?

A voz dele carregava desprezo.

— Eu te amava…

— Não me faças rir.

Silver fechou os olhos.

— Não…

— Sabes qual foi a parte mais divertida? — perguntou Adrien. — Ver-te acreditar em cada palavra que eu dizia. Quando te entregava flores, tu sorrias como uma criança. Quando dizia que eras a mulher da minha vida, acreditavas. Quando te prometi que ficaria contigo para sempre… — Ele fez uma pausa. — Tu realmente acreditaste.

Elsa riu.

— Ela até chorou no casamento.

— Eu lembro — respondeu Adrien. — Foi patético.

Silver levou uma mão ao peito.

— Por favor…

— Por favor o quê? — Adrien perguntou. — Que eu finja novamente que te amo?

Ela começou a soluçar.

— Eu não fiz nada para vocês…

— Esse foi justamente o problema — disse Elsa. — Tu não precisaste fazer nada. — Ela se levantou— Precisávamos apenas esperar.

Silver olhou para ela, confusa.

— Esperar o quê?

Elsa sorriu.

— A morte dos teus pais.

O quarto pareceu ficar em silêncio, Silver sentiu o estômago revirar.

— O acidente…

Adrien desviou o olhar por um instante, como se estivesse entediado.

— Não foi um acidente.

Silver arregalou os olhos.

— Não…

— Teus pais tem uma fortuna enorme — explicou Elsa. — E tu eras a única herdeira. — Adrien aproximou-se ainda mais. — Bastava que eles desaparecessem.

Silver começou a tremer.

— Foram vocês?

— Nós cuidamos disso.

Uma lágrima caiu pelo rosto de Silver.

— Meus pais…

Elsa deu de ombros.

— Eles morreram acreditando que tinha sido apenas uma tragédia.

Silver fechou os olhos, sentindo o coração despedaçar. Então uma nova compreensão surgiu. Sua doença, as dores, a fraqueza e a perda dos movimentos. Ela abriu os olhos lentamente.

— E eu?

Elsa sorriu.

— Tu eras a última parte do plano.

— A doença…

— Finalmente entendeste.

Adrien cruzou os braços.

— Precisávamos que parecesse natural. Uma mulher que perde os pais, entra em depressão, adoece e finalmente morre. Ninguém suspeitaria.

Silver olhou para os dois como se estivesse vendo monstros.

— Vocês me envenenaram…

— Durante meses — confirmou Elsa.

Silver começou a chorar.

— Por quê?

Adrien respondeu sem hesitar:

— Dinheiro.

A simplicidade daquela resposta foi mais dolorosa do que qualquer outra coisa. Não havia arrependimento. Não havia culpa. Não havia sequer hesitação. Apenas dinheiro.

— Eu te amava… — sussurrou Silver.

Adrien riu.

— Isso foi problema teu.

Elsa aproximou-se novamente.

— E agora que estás prestes a morrer, finalmente podemos ter tudo aquilo que sempre quisemos.

Silver olhou para as joias no pescoço de Elsa. Depois para o vestido. Depois para Adrien.

— Vocês vão se casar?

— Assim que morreres — respondeu Elsa. — E ele vai herdar toda a fortuna dos Walton.

Silver sentiu uma dor aguda no peito.

— Não…

— Sim — disse Adrien. — E sabes qual é a parte mais engraçada? — Ele inclinou-se sobre ela.— Tu ainda tens dificuldade para aceitar que eu nunca te amei.

Silver virou o rosto, tentando esconder as lágrimas. Elsa retirou uma pequena seringa da bolsa. O coração de Silver disparou.

— O que é isso?

— A última etapa.

— Não…

Silver tentou se mover, suas pernas não responderam. Tentou empurrar Elsa, mas seus braços estavam fracos demais.

— Adrien… — Pela primeira vez, ela pediu ajuda ao marido. — Por favor. — Ele apenas observou. — Faz alguma coisa. — Adrien permaneceu imóvel.

— Eu já fiz.

Elsa segurou o braço de Silver.

— Não tornes isso mais difícil.

— Adrien, por favor! Eu sou tua esposa!

Ele a encarou por alguns segundos. Então respondeu:

— E amanhã serás apenas uma mulher morta.

Elsa aplicou a seringa. Silver gritou. O líquido entrou em seu corpo e, quase imediatamente, uma dor intensa percorreu seu peito. Ela começou a tossir. Sangue surgiu em seus lábios.

— Elsa…

A visão começou a ficar turva, ela olhou uma última vez para Adrien. Esperava encontrar algum arrependimento. Qualquer coisa. Uma lágrima.

Um olhar de culpa. Mas ele apenas ajeitou as mangas da camisa.

— Pelo menos, no fim, serviste para alguma coisa.

Silver sentiu o coração falhar. Elsa aproximou-se do ouvido dela.

— Obrigada pela fortuna, querida amiga.

As duas palavras ecoaram na mente de Silver. Querida amiga. A mesma mulher que havia compartilhado seus segredos agora estava comemorando sua morte. Silver respirou com dificuldade. Sentia o corpo ficando cada vez mais pesado. As vozes começaram a desaparecer, antes que seus olhos se fechassem completamente, uma última lágrima escorreu pelo seu rosto.

Ela desejou nunca ter amado Adrien. Desejou nunca ter confiado em Elsa. Desejou ter percebido todos os sinais. Desejou ter sido menos ingênua. E, acima de tudo, desejou ter uma segunda oportunidade, uma única oportunidade para voltar ao passado.

Para fazer tudo diferente. Para descobrir a verdade antes que fosse tarde demais, para destruir aqueles que destruíram sua vida. Então Silver fechou os olhos e o mundo mergulhou na escuridão.

Cole tinha muitos arrependimentos em sua vida.

Havia decisões que gostaria de ter tomado de maneira diferente, palavras que deveria ter dito e momentos que desejava poder reviver. Entretanto, nenhum deles se comparava ao maior arrependimento que carregava desde a morte de Silver.

Ele deveria ter ficado, era tudo o que conseguia pensar. Deveria ter permanecido ao lado dela quando seus pais morreram. Deveria ter percebido que havia algo errado quando Silver começou a adoecer. Deveria ter estado presente quando ela mais precisou de alguém.

Talvez, se não tivesse passado tantos anos afastado, tivesse percebido o que estava acontecendo. Talvez tivesse descoberto a verdade antes que fosse tarde demais. Talvez Silver ainda estivesse viva. Cole fechou os olhos. Desde a infância, Silver fazia parte de sua vida. As duas famílias eram próximas, e, durante muitos anos, eles praticamente cresceram juntos. Ele ainda conseguia se lembrar das tardes em que corriam pelo jardim das duas casas, das brincadeiras que terminavam com Silver reclamando porque ele sempre ganhava e das vezes em que os dois escondiam-se dos adultos para comer doces antes do jantar.

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