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Capítulo 3°— Paredes tem Ouvidos

Author: Ieda Lemos
last update publish date: 2026-07-15 16:23:49

Entrei naquele carro preto de luxo, para onde fui arrastada quase como uma criminosa, raptada às pressas, diante dos olhares curiosos das carolas, amigas da minha mãe.

Eu só estava deixando para trás a minha genitora, porque não gostava daquela gente que perdia seu precioso tempo cuidando da vida dos outros.

Meu quarto, meu refúgio, também despertava saudade durante o trajeto até a cidade.

As luzes, os prédios começaram a surgir e fiquei um pouco tonta, me deixei encostar no peito cheiroso do meu futuro marido, acho que era isso. Eu só sabia que seria mulher dele.

Fiquei pensando pelo caminho:”porque aquele homem precisava obrigar alguém a se casar com ele, se era tão lindo daquele jeito?”

Logo saberia, mas seria melhor que demorasse muito para isso acontecer.

Acabei cochilando e só despertei ao perceber que o carro havia parado rapidamente, enquanto um portão de ferro enorme se abria.

Fiquei deslumbrada com a arquitetura do lugar. Para mim que só conhecia a beleza natural da fazenda e o conforto da casa grande, aquilo era um espetáculo!

O jardim enorme rodeava a casa e a premiava com suas cores diversas. As rosas eram tão perfeitas, que mais pareciam uma pintura!

Os carros entraram em comboio e o portão se fechou rapidamente da mesma forma em que se abriu.

Só consegui ver a grande piscina ao longe, porque sai do carro conduzida pelo temido senhor Spinelli que parecia impaciente desde que despertei, encostada ao seu peito.

— Vamos, terá muito tempo para apreciar a casa— ele disse.

Eu andava maravilhada, esticando o pescoço.

Entramos na mansão e havia uma fila de funcionários uniformizados, como se me esperassem prontamente. Eles se inclinaram gentilmente em sinal de respeito.

Só não me senti uma princesa porque nos meus trajes simples estava mais para uma borralheira.

Alejandro me apresentou cada uma daquelas pessoas.

— Esta é Clara, ela cuida de toda a casa. E esta é Noemia e Anita, elas auxiliam em tudo por aqui.

Eu pensava:” com tantas mulheres por aqui, porque precisava ainda de uma babá?”

Meus olhos brilhavam, enquanto Alejandro continuava com as apresentações.

— Este é Paulo, nosso motorista particular, mas não dispensamos a escolta. E por fim, este é Oscar meu assistente.

— Oscar Magalhães, ao seu dispor, senhora.

Elegante, de meia idade, impecavelmente bem vestido num terno azul marinho, o homem manteve-se curvado até que eu passasse por ele.

Clara era magra, branca e cheia de sardas no rosto. Ela era séria e se mantinha sempre elegante. Noêmia e Anita eram mais cheinhas, baixinhas e tinham uma expressão jovial que me agradava.

De repente, Alejandro seguiu junto com o seu assessor, me deixando sozinha com as criadas da casa, pois Paulo, o motorista, saiu rapidamente dizendo que precisava ir buscar o patrãozinho na escola.

Os dois homens entraram numa saleta, na verdade, um escritório com decoração mais antiga.

Alejandro sentou-se atrás da mesa e logo foi interrogando Oscar.

— E então, o que achou dela? Serve para o nosso propósito?

— Ela é perfeita, senhor!

Alejandro deixou-se encostar na cadeira e ficou pensativo.

— Reconheço que ela precisa de um bom banho de loja para se tornar a primeira dama do estado, mas isso eu deixo com você, acredito no seu potencial, meu caro.

Oscar ajeitou a postura colocando as mãos para trás e respondeu respeitoso.

— Lhe garanto senhor, que isso não será tão difícil quanto imagina.

Os olhos negros penetrantes se perderam nas lembranças de quando chegou ao velório e viu aquela moça desajeitada, mal vestida, os cabelos rebeldes e os braços cruzados, como se não visse a hora de enterrar o defunto.

— Consegue ver algo de belo nessa garota? Só enxergo uma caipira mimada e pirracenta!

Oscar sorriu no canto dos lábios, depois se conteve, escolhendo cuidadosamente as palavras, para não parecer indelicado.

— De fato, senhor, ela me parece ser de uma beleza rara, eu diria até nata!

— Nata? Feia, você quer dizer!

— Não senhor, claro que não! A senhorita tem seus encantos!

Alejandro se curvou sobre a mesa sussurrando, enquanto olhava para a porta:

— Diga-me, o que viu de belo nessa moça? Vou deitar-me com ela em breve e não consigo ver nada que me desperte interesse!

Oscar achou engraçado, ele pensava que o patrão pudesse estar sendo sarcástico apenas.

— É sério, Oscar! Acha mesmo que fará algum milagre ali? Vou apresentá-la como minha futura esposa! Logo teremos um comício!

Oscar pensou um pouco.

— Ela tem os olhos verdes, como se refletisse os rios do lugar onde vivia, talvez.

Alejandro revirou os olhos impacientes e levantou-se.

— Ela é feia, está tentando encontrar poesia para que eu não me sinta um idiota! Eu sei que fui para tão longe porque era necessário encontrar alguém que não me rejeitasse!

As criadas simplesmente se recolheram junto com o motorista assim que o patrão se afastou, por isso, claro, eu resolvi escutar atrás da porta e foi nesse momento que entrei em cena.

— Então é isso, a feia foi a única que aceitou casar-se com o futuro governador!

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