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O Casamento ou Sua Irmã. 

مؤلف: Scarlett Maya
last update تاريخ النشر: 2026-10-15 05:59:12

Axel terminou o banho. A água ainda escorria pelo corpo quando pegou o celular na bancada.

Uma mensagem de Darius.

Leu duas vezes. O comprador de Katherine iria buscar a menina em dois dias e ainda continuava um fantasma, sem nenhuma identificação.

Ele deixou o aparelho de lado. O e-mail do juiz já estava aberto na tela, a resposta ao pedido da madrugada. A guarda estava assinada. 

A menina era dele agora.

E ainda assim, a raiva continuava ali, baixa, esperando um alvo.

Shelby acordou.

O quarto parecia diferente. Ela tentou se sentar. O mundo girou. O corpo inteiro doía.

A porta do banheiro abriu.

Axel saiu, a toalha na cintura segurava baixa, o peit0 largo, ainda nu, gotas escorrendo do ombro até o abdômen, uma delas deslizando devagar pela linha de pelo que descia do umbigo. Ele parou na porta, surpreso de encontrá-la desperta.

Os olhos azuis dela percorreram o quarto com confusão e pânico, até encontrarem o corpo dele.

A respiração dela prendeu. O cérebro gritou para desviar o olhar. O corpo não obedeceu.

Os olhos desceram sozinhos pela linha de pelos que começava no peitoral, estreitava no abdômen e sumia na toalha, aquela toalha… tão baixa que o volume debaixo do tecido era impossível de ignorar. O algodão úmido contornava o que havia por baixo, e o calor espalhou pelo corpo dela.

O calor começou atrás das orelhas, desceu pela nuca. Ela sentiu o próprio rosto queimar onde ele olhava. Ela mordeu o canto do lábio sem perceber. Baixou os olhos tarde, quando a imagem já tinha registrado cada centímetro.

Ela se odiou por sentir, e se odiou mais ainda por querer continuar olhando. 

Axel viu.

Os olhos dele percorreram o rosto dela, pararam nos lábios que ela mordia sem saber. O maxilar dele moveu meio centímetro. Nada mais. Ele não disse nada. 

Ela desviou o olhar rápido, puxou o lençol até o pescoço, o rosto queimando.

— Onde… Onde eu estou? — a voz saiu rouca, arranhada.

— Você está segura — a voz grave preencheu o quarto. — Você me enviou uma mensagem pedindo ajuda. Disse que ele iria te matar. 

O banheiro, o sangue, a dor excruciante, o celular escorregando dos dedos trêmulos.

— Eu... eu mandei para a minha amiga — ela sussurrou, as lágrimas acumulando nos olhos. — Eu errei o número. 

— Errou. E esse erro salvou a sua vida. A mensagem chegou até mim. Eu rastreei o sinal e fui buscá-la.

Shelby piscou. Um estranho recebeu a mensagem e invadiu o apartamento. A imagem do namorado sendo arrastado invadiu a mente nebulosa. O pavor dela não era por ele. Era pelo que ele sabia. Se Jorge morresse, o endereço de Katherine morria com ele. 

— Onde ele está? — perguntou, a voz trêmula de pavor. — Se ele souber que eu saí... 

Axel cruzou os braços sobre o peitoral. A expressão endureceu contra a lembrança do homem que a feriu.

— Aquele lixo está recebendo o tratamento que merece. 

— Por favor, não mate o Jorge!

Axel estreitou os olhos. O silêncio que se seguiu foi perigoso. Shelby se arrependeu imediatamente de ter pedido pela vida do agressor, mas precisava dele vivo. Ela encolheu ainda mais. E Axel, observando o terror puro naqueles olhos, sentiu o próprio estômago revirar ao perceber que ela estava com medo dele.

Ela olhou para Axel com mais atenção agora, o terno caro, a postura dominante, o olhar de quem estava acostumado a dar ordens e ser obedecido sem questionamentos.

— Quem é você? — a voz saiu baixa, cautelosa. 

— Meu nome é Axel Bradford. — Sustentou o olhar dela. — Pergunte em qualquer lugar da cidade. 

Shelby engoliu em seco. Deveria estar grata, e estava. Mas estava na casa de um homem perigoso, um desconhecido. 

— Eu agradeço, agradeço muito por ter me ajudado — ela disse, tentando manter a voz firme, embora suas mãos tremessem sobre o lençol. — Mas eu não posso ficar aqui. Eu tenho que ir para casa, tenho uma vida fora daqui. Eu não posso simplesmente desaparecer.

Ela tentou se levantar, ignorando a dor aguda no corpo. 

— Você não vai a lugar nenhum — disse Axel.

Shelby parou, os olhos arregalados.

— Você não pode me prender aqui.

O celular vibrou. Ele puxou do bolso, os olhos baixaram para a tela. O polegar travou sobre a notificação.

Darius — Katherine Jones

O rosto não mudou, mas os olhos escureceram.

Ele guardou o celular sem responder.

— Olha para você, Shelby. — Axel apontou para o  corpo dela, depois para o espelho na parede oposta, onde ela podia ver o reflexo de seu rosto inchado e roxo. — Você não tem condições de se cuidar sozinha. Seu apartamento não existe mais.

Ela franziu a testa.

— O quê?

— Para a polícia, nada aconteceu ali.

— Descanse, você terá tudo o que precisar aqui. Comida, roupas, remédios, ninguém vai incomodá-la. — Ele parou na porta, olhando-a por cima do ombro. — Você não precisa mais ter medo. Jorge não te alcançará. Agora o único monstro nesta casa sou eu. E eu não mordo quem está sob a minha proteção.

Axel saiu, fechando a porta suavemente. Shelby ficou sozinha no imenso quarto luxuoso. A liberdade do abuso veio a um custo que não compreendia totalmente. Ela estava trocando um carcereiro por outro ou aquele homem sombrio à sua frente era realmente o anjo vingador que parecia ser? 

A mão dela encontrou o lençol limpo, o algodão novo, o cheiro de outra casa. Conforto tinha gosto de dívida. E dívidas sempre cobravam. 

Jorge ensinou a sobreviver a golpes. Aquele homem, fosse anjo ou monstro, iria lhe ensinar a observar.

Ela não sabia o que ele queria dela. Mas descobriria. E, enquanto descobria, seria tudo o que ele esperava que ela fosse. Dócil. Grata. Quebrada. Cordeiros não assustam ninguém.

Ela viu o poder nele. E entendeu que podia usá-lo para chegar até Katherine. Shelby sabia exatamente quem era. O que ela escolhia agora era fingir que não e jogar o jogo dele até o dia em que o jogo fosse dela.

O remédio puxou Shelby de volta para um sono pesado. Quando tornou a abrir os olhos, a primeira coisa que viu foi Axel sentado na poltrona ao lado da cama.

Ele não estava mais de toalha. Vestia terno escuro, camisa branca, nenhum botão fora do lugar. O homem que a salvou estava de volta, mas não havia nada de salvador na expressão que ele carregava agora.

— Dormiu bem? — a voz veio baixa, sem pressa.

Shelby não respondeu. Algo no tom dele não pedia resposta. Ela se sentou com cuidado, o braço protestando, e encostou as costas na cabeceira. Esperou.

Axel não desviou o olhar.

— Vamos nos casar.

— O quê?

— Você ouviu.

Ela balançou a cabeça, um movimento involuntário.

— Você está louco. — A voz saiu baixa, mas firme. — Eu não vou me casar com você. Eu nem te conheço. Eu agradeço pelo que fez, mas não vou ficar aqui, não vou…

— Sua irmã se chama Katherine...

O ar parou.

Shelby abriu a boca. Fechou. O nome ecoou no quarto como um tiro abafado.

Axel sustentou o silêncio por um instante. A mão dele foi até o bolso interno do paletó, num movimento lento, quase cerimonial. Os dedos tocaram o papel, o documento que o juiz assinou horas antes. Ele não o tirou. Apenas deixou a ponta dos dedos apoiada ali, pesando o que estava prestes a fazer.

Os olhos dele encontraram os olhos dela.

— Ela tem dez anos. Está numa instituição no Tennessee há anos. — Axel inclinou o tronco para a frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos grandes pendendo entre as pernas. O tom não mudou. — Você não tem condições de tirá-la de lá. 

— O Estado já decidiu.

Você perdeu. Antes mesmo de começar.

— Não é verdade — Shelby sussurrou. — Eu tenho direito. Eu sou a única família que…

— Você acha que direito importa? — Axel ergueu uma sobrancelha. Nada mais. O silêncio respondeu por ele.

Ela avançou. O movimento foi cego, o corpo esquecendo antes de a dor lembrar. A mão esticada em direção a ele, para agarrar, arranhar, ferir, qualquer coisa que rasgasse a calma nojenta daquele rosto.

 A dor nas costelas forçou um deslocamento brusco, subiu como um choque elétrico, atravessou o ombro, queimou a nuca. 

Um gemido escapou antes que ela mordesse o lábio e o gosto de sangue voltou quando mordeu a parte de dentro da boca para não gritar. A vista escureceu nas bordas. O corpo caiu de volta na cama, o lençol amassado, a respiração curta e falhando.

Axel não se moveu. Os olhos azuis fixos nela, esperando a crise passar. 

Shelby ficou imóvel, o peito subindo e descendo em ondas curtas, a mão apertando o lençol com tanta força que os nós dos dedos perderam a cor.

— A guarda já está no meu nome — Axel disse, a voz baixa, sem triunfo, sem pressa. — Enquanto você dormia, Katherine já era minha.

Os olhos dela encontraram os dele.

— Você pode assinar o contrato de casamento e garantir que ela tenha o que precisa. Ou pode recusar, e eu devolvo a guarda para o Jorge. 

— Você é pior que ele. 

As palavras saíram baixas, ela sustentou o olhar dele até o fim.

O maxilar dele travou um segundo. Foi o único sinal de que as palavras tinham entrado. 

— Pode odiar. — A inclinação de cabeça foi mínima. — Katherine é minha agora. Você também vai ser. 

Ele jogou sobre a cama um envelope sem selo. Duas folhas escorregaram para fora, a cópia do documento de guarda e uma foto impressa em papel comum.

Katherine.

Shelby não tocou na foto. Mas os olhos prenderam no rosto da menina. O cabelo mais comprido que da última vez. O rosto mais magro. 

O ar faltou.

Ela engoliu o choro antes que ele viesse. O peito doeu. A saudade rasgou por dentro.

Axel parou na porta. 

— Pensa bem. Amanhã você me dará a resposta. E escolhe certo, Shelby.

Ele não esperou que ela respondesse.

A mão já estava próximo da maçaneta quando a voz dela veio, fraca, mas firme:

— E se eu disser não?

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