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last update Data de publicação: 2026-08-17 18:10:07

Capítulo 7 — Celine narrando

O caminho parecia não ter fim. Depois de deixar a mansão, eu passei os primeiros minutos olhando pela janela e tentando imaginar como seria minha nova vida. A cidade foi ficando para trás aos poucos, os prédios deram lugar a estradas mais vazias e, conforme o carro avançava, eu percebia que não conhecia aquela região. O motorista não conversava comigo. Sempre que eu tentava fazer alguma pergunta, ele respondia apenas o necessário, sem sequer olhar para trás. No começo, achei que fosse apenas profissionalismo. Depois de quase uma hora de viagem, comecei a sentir uma inquietação crescendo dentro de mim. Eu não sabia para onde estava indo. Valquíria havia dito que seria uma propriedade particular, mas não havia mencionado que ficava tão longe. Olhei novamente para o meu celular. Ainda tinha sinal. Pensei em ligar para ela, mas decidi esperar. Talvez estivéssemos quase chegando. Talvez eu estivesse apenas nervosa porque aquela era a primeira vez que saía de casa para trabalhar.

O carro finalmente entrou por um portão enorme de ferro. Dois homens estavam posicionados ao lado da entrada, e um deles se aproximou do veículo para verificar alguma coisa antes de liberar a passagem. Fiquei olhando pela janela, cada vez mais desconfortável. A propriedade era enorme. Havia uma estrada interna cercada por árvores, jardins perfeitamente cuidados e câmeras espalhadas pelos muros. Mais adiante, consegui ver uma construção imponente, muito maior do que qualquer casa em que eu já tivesse entrado. Não parecia uma residência comum. Parecia uma fortaleza.

O motorista estacionou diante da entrada principal.

— Chegamos.

Olhei para ele.

— Aqui?

— Sim.

— Onde exatamente estamos?

Ele abriu a porta.

— A senhora deve entrar.

Desci devagar, segurando minha pequena mala.

Assim que meus pés tocaram o chão, senti uma coisa estranha. Não era apenas a beleza do lugar. Era a presença dos homens espalhados pela propriedade. Havia vários deles. Alguns próximos aos carros, outros nos jardins, outros diante das portas. Todos usavam roupas escuras e tinham uma postura que me deixou imediatamente alerta. Não eram seguranças comuns. Havia algo nos olhos deles, na maneira como observavam tudo ao redor, que me fez lembrar das conversas que eu tinha ouvido na mansão.

Eu apertei a alça da mala.

— Desculpe…

Um dos homens olhou para mim.

— Sim?

— Eu vim para trabalhar.

Ele não respondeu.

— É aqui mesmo?

Ele apenas fez um gesto para que eu entrasse.

Meu coração começou a bater mais rápido.

Entrei.

O interior era ainda mais impressionante. O hall tinha um pé-direito enorme, lustres de cristal, móveis escuros e uma escadaria larga. Tudo era sofisticado, mas havia uma frieza naquele ambiente que me causou arrepios. Não parecia uma casa onde uma pessoa trabalhava. Parecia um lugar onde pessoas importantes faziam negócios.

Ou onde pessoas perigosas escondiam segredos.

Uma mulher apareceu no final do corredor.

— Celine?

— Sim.

— Venha comigo.

Segui seus passos, ainda segurando minha mala.

— Desculpe perguntar, mas onde fica o quarto onde vou ficar?

Ela continuou andando.

— Você vai descobrir.

Franzi a testa.

— Eu deveria começar a trabalhar hoje?

Ela parou e me olhou.

— Acho que é melhor esperar o senhor chegar.

— O senhor?

— Sim.

Meu estômago se apertou.

— Quem é ele?

Ela não respondeu.

Voltou a caminhar.

Eu parei.

— Espere.

Ela olhou para trás.

— Eu preciso saber onde estou.

— Na propriedade do senhor Adalberto.

O nome atingiu meu peito como uma pancada.

Adalberto.

O mesmo nome que eu tinha ouvido Valquíria mencionar naquela noite.

O homem que ela parecia temer.

O homem que estava ligado àquela dívida.

Meu coração disparou.

— Adalberto?

— Sim.

A mulher saiu.

Fiquei parada no corredor.

Não.

Não podia ser.

Talvez existissem muitos homens chamados Adalberto.

Talvez fosse apenas uma coincidência.

Mas então me lembrei da conversa que havia escutado.

“Ele não pode descobrir.”

“Se ele vier pessoalmente…”

“Adalberto.”

Minha respiração ficou pesada.

Olhei para o meu celular.

Peguei o número de Valquíria e liguei.

Chamou.

Uma vez.

Duas.

Três.

Nada.

Liguei novamente.

Nada.

Mandei uma mensagem.

Onde estou?

A mensagem foi visualizada.

Meu coração parou por um instante.

Valquíria tinha visto.

Mas não respondeu.

Liguei outra vez.

Dessa vez, a chamada caiu diretamente na caixa postal.

Senti meus olhos encherem de lágrimas.

— Não…

Comecei a entender.

As peças que estavam espalhadas começaram a se encaixar.

A dívida.

Os cobradores.

O medo de Valquíria.

As perguntas sobre minha idade.

A insistência sobre trabalhar fora.

O carro.

A propriedade.

Adalberto.

Meu corpo inteiro ficou frio.

Não era emprego.

Eu não havia sido contratada.

Eu havia sido entregue.

Sentei-me em um dos sofás do hall porque minhas pernas não estavam conseguindo me sustentar.

Olhei para minha mala.

Tudo o que eu tinha colocado ali acreditando que estava começando uma nova vida parecia, de repente, ridículo.

Eu havia levado minhas poucas roupas.

Minha pintura.

Meu caderno.

Minha pequena esperança.

Eu havia acreditado que Valquíria finalmente tinha feito alguma coisa por mim.

Mas ela havia mentido.

Ela tinha me vendido.

Comecei a chorar.

Não queria.

Passei rapidamente as mãos pelo rosto.

Eu não queria que aqueles homens me vissem chorando.

Não queria parecer fraca.

Levantei-me e peguei o celular novamente.

Liguei para Valquíria.

Nada.

— Atende…

Minha voz saiu baixa.

— Por favor.

A chamada caiu.

Tentei mais uma vez.

Dessa vez, o telefone estava desligado.

Foi nesse momento que senti a dor mais profunda.

Não era apenas medo.

Era traição.

Eu tinha confiado nela.

Mesmo depois de tudo.

Mesmo depois de anos sendo tratada como uma estranha naquela casa, uma parte de mim ainda acreditava que Valquíria jamais faria algo realmente cruel comigo.

Eu estava errada.

Olhei para a porta principal.

Dois homens estavam parados ali.

Um deles me observava.

— Eu quero ir embora — falei.

Ele não respondeu.

— Eu quero voltar para casa.

Silêncio.

— Por favor.

Nada.

Meu desespero começou a crescer.

— Eu não fiz nada.

Um dos homens finalmente falou:

— Espere o senhor Adalberto.

Aquele nome me fez recuar.

— Eu não quero falar com ele.

— Você vai precisar.

— Eu nem conheço esse homem.

O homem não respondeu.

Ouvi passos.

Lentos.

Firmes.

Vindos da escada.

Todo o ambiente pareceu mudar.

Os homens se endireitaram.

Alguns baixaram os olhos.

Eu virei o rosto.

E então o vi.

Adalberto.

Ele descia a escadaria como se aquele lugar inteiro pertencesse a ele.

E pertencia.

Era alto, forte, imponente. Vestia uma camisa preta perfeitamente ajustada ao corpo e uma calça escura. Tinha o rosto sério, o olhar frio e uma presença que fazia o ambiente parecer menor. Não precisava levantar a voz. Não precisava ameaçar ninguém.

Todos simplesmente obedeciam à presença dele.

Eu senti medo.

Muito medo.

Mas não queria demonstrar.

Apertei os dedos ao redor do celular e ergui o queixo.

Ele continuou descendo.

Quando chegou ao último degrau, seus olhos encontraram os meus.

Por alguns segundos, nenhum de nós falou.

Eu não sabia o que esperar.

Ele me observava com uma expressão indecifrável.

Não havia sorriso.

Não havia gentileza.

Não havia qualquer sinal de que aquele homem tivesse vindo me receber para um trabalho.

Ele caminhou na minha direção.

Eu permaneci parada.

Meu coração batia tão forte que parecia querer sair do peito.

Adalberto parou diante de mim.

Olhou para a mala.

Depois para o meu rosto.

— Celine?

Minha garganta ficou seca.

— Sim.

Ele sustentou meu olhar.

— Você sabe por que está aqui?

Não consegui responder.

E, naquele instante, percebi que minha vida nunca mais seria a mesma.

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