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Hannah Brooks
Se alguém me dissesse que o auge dos meus vinte e três anos seria resumido a disputar um cabo de guerra contra um ciclone por causa de um guarda-chuva de dez dólares — e perder —, eu teria rido. Mas aqui estava eu: ensopada até a alma, equilibrando três sacolas plásticas pesadas que cortavam a circulação dos meus dedos, enquanto tentava enfiar a chave na fechadura de casa. A chave, claro, decidiu fazer greve. Quando eu era criança, assistia aos filmes da Disney e genuinamente achava que seria a princesa salva por um príncipe em um cavalo branco. Hoje? Não acredito em príncipes, e meu ranço por cavalos é vitalício, cortesia de um tombo homérico num passeio escolar aos quinze anos. A realidade é um balde de água fria. Ou, no meu caso atual, uma tempestade inteira. A porta finalmente destrancou com um estalo seco. Entrei deixando um rastro de lama no tapete, parecendo uma versão piorada da Samara saindo do poço. Na sala, o cenário de sempre. Meu pai estava fundido ao sofá, hipnotizado por um jogo de futebol qualquer, enquanto minha mãe tricotava na poltrona como se o mundo não estivesse desabando lá fora. Ela ergueu os olhos, me avaliando de cima a baixo com um sorriso perfeitamente ensaiado. — Hannah, querida, finalmente — disse ela, sem mover um músculo para me ajudar com as sacolas que rasgavam nas minhas mãos. — Sua irmã estava perguntando por você. Algo sobre precisar de duzentos dólares emprestados. — Que bom que ela tem expectativas — mutilei entre dentes, ignorando o comentário e seguindo direto para a cozinha "Empréstimo", na linguagem da Amelie, significava doação compulsória sem direito a reembolso. Deixei as compras na bancada e respirei fundo ao olhar para a pia. Uma cordilheira de pratos, copos e panelas gordurosas me encarava de volta. Se eu não lavasse, aquela louça criaria ecossistema próprio e exigiria direitos trabalhistas. Mas hoje não. Eu tinha uma prova de macroeconomia na manhã seguinte que definiria se eu continuaria na faculdade ou se passaria o resto da vida fritando hambúrguer. Guartei as compras no piloto automático, peguei uma maçã para enganar o estômago e comecei a subir os degraus, rezando para ser invisível. Não funcionou. — Hannah, querida? — a voz da minha mãe ecoou da sala, cirúrgica. — Onde vai? Não vai preparar o jantar? E não esqueça da louça na pia. Parei no meio da escada. Olhei para as minhas roupas coladas ao corpo, para o meu cabelo pingando no chão e me virei. — A Amelie tem duas mãos funcionais, mãe. Ela pode muito bem fazer os dois. Preciso estudar para uma prova importante amanhã. O tom da minha mãe mudou instantaneamente, ganhando aquela rigidez defensiva de sempre. — Não fale assim da sua irmã. Você sabe que a nossa Mel é sensível. Ela tem alergias severas e não pode nem chegar perto de detergente. E quanto ao jantar, ela não sabe cozinhar. — A Amelie não tem alergia, mãe. Ela tem preguiça crônica. São diagnósticos bem diferentes — respondi, sem um pingo de paciência. — E para o jantar, existe delivery. Girei nos calcanhares antes que ela pudesse começar o melodrama, subi o resto dos degraus e bati a porta do quarto, trancando-a em seguida. Se eu não tomasse um banho fervendo nos próximos cinco minutos, a pneumonia deixaria de ser um risco e viraria uma certeza. Viver sob o teto dos meus pais era um exercício diário de sobrevivência psicológica. A dinâmica da nossa casa não era apenas complicada; era o Groundhog Day do favoritismo. Desde que me entendo por gente, o roteiro era o mesmo: Amelie era a porcelana frágil que precisava ser guardada na cristaleira; eu era o trator que aguentava o tranco. Se você está se perguntando por que uma mulher de vinte e três anos ainda se sujeita a isso, a resposta tem cinco letras: D-I-N-H-E-I-R-O. Ou a falta dele. Meu salário de meio período na lanchonete do centro mal dá para cobrir a mensalidade da faculdade e os custos dos meus próprios livros, embora eu ainda tente ajudar com as contas de luz para não ouvir piadas. Minha mãe está desempregada há tanto tempo que acho que esqueceu o que é um currículo. Meu pai se desdobra como contador em um escritório médio. E Amelie? Bem, ela continua sendo "jovem demais para o estresse do mercado de trabalho". Sair daqui agora era um suicídio financeiro. Minha única luz no fim do túnel era o casamento. Ryan e eu estávamos juntos há pouco mais de dois anos. Ele apareceu na lanchonete em um dos meus piores dias, pediu um café puro e um sorriso, e acabou levando meu número. Seis meses atrás, durante um jantar na casa dos pais dele, ele me deu um anel simples, mas que representava a minha carta de alforria. Eu aceitei sem hesitar. Eu o amava. Ele era a única parte da minha vida que não parecia uma obrigação exaustiva. Saí do banho, vesti um moletom velho e desbotado e me joguei na cama. Meu celular, que tinha ficado carregando, vibrou na escrivaninha. Uma mensagem do Ryan. "Pensando em você." Logo abaixo, uma foto borrada de um novo esboço em que ele estava trabalhando. Ryan era um artista de alma livre — o que, na prática, significa que ele é um aspirante a pintor e músico que atualmente paga o aluguel repondo caixas de cereal no Walmart na escala da madrugada. Ele ainda não teve sua grande chance, e o nosso casamento esta sendo adiado há meses porque nenhum de nós consegue pagar as taxas do cartório, quem dirá uma festa. Mas olhando para a foto dele com os dedos sujos de grafite e aquele sorriso torto que desarma qualquer mau humor meu, eu não me importo. Eu acredito no talento dele. E, honestamente, no meio do meu caos diário, saber que alguém esta do meu lado faz o guarda-chuva quebrado e a louça suja parecerem problemas absurdamente pequenos.Narradora. Na sala, o clima continuava leve, mas a porta pesada de carvalho do escritório se fechou logo em seguida com um baque surdo - marcando o limite exato onde o conforto suave da sala dava lugar à tensão de verdades que ainda estavam por vir.O baque seco da porta de carvalho do escritório selou a transição entre o aconchego de minutos antes e a difícil conversa que teriam pela frente. O estalo da madeira ecoou no corredor longo, extinguindo o som distante das risadas na sala de estar.A iluminação suave do cômodo de paredes revestidas em madeira e estantes repletas de tomos jurídicos parecia insuficiente para dissipar a névoa pesada que Axel trouxera consigo do galpão nos fundos da propriedade. O ar ali dentro cheirava a papel antigo, couro importado e ao prenúncio de um escândalo.Cael caminhou em passos largos até a sua mesa de mogno, contornando o móvel e parando de pé, com as duas mãos espalmadas sobre a superfície polida. Ele não se sentou. As costas da camisa de linho e
NarradoraA atmosfera na imensa sala de estar da mansão Sterling oscilava em um equilíbrio peculiar entre o conforto absoluto e o prenúncio constante do caos. No centro do cômodo, sobre o tapete persa de valor incalculável, Theo e Henry travavam uma verdadeira batalha contra fatias gigantescas de pizza de pepperoni, completamente alheios ao mundo e hipnotizados pelas cores vibrantes de Pokémon que saíam da tela da televisão.Sentados em uma das poltronas da sala estavam Cael e Hannah. Ele, como sempre, tentava manter a indiferença em sua expressão, mas quem os visse de longe saberia de cara que aquele era um dos poucos momentos em que ele se permitia relaxar.Seus braços estavam envoltos no corpo da mulher em seu colo, protetores e ainda assim suaves, de forma que ela estivesse confortável.Hannah, por sua vez, tinha a cabeça deitada contra o peito dele, com os olhos focados na TV, onde um dos episódios de Pokémon passava. Mas, sejamos sinceros: ela não estava prestando atenção na ani
Hannah Brooks.Observo com genuína satisfação a imagem do homem parado à porta da sala de estar. Ele mantém os braços firmemente cruzados sobre o peito e ostenta um semblante fechado, endurecido, encarando-me com uma cara de pouquíssimos amigos. Cael não parece nem um pouco feliz em me ver feliz; na verdade, sei perfeitamente que ele está furioso só porque resolvi pedir pizza em vez de comer o caldo que ele havia preparado com tanto esmero.Para ser justa, eu comi o tal caldo. Sopa, caldo de legumes ou seja lá como ele prefere chamar aquilo. Estava realmente divino, mas as minhas lombrigas estavam implorando por uma pizza de pepperoni transbordando queijo derretido - e parece que Theo e Henry compartilhavam exatamente do mesmo desejo.Os dois estão acomodados no chão, devorando fatias que parecem maiores do que suas próprias cabeças, enquanto assistem hipnotizados a mais um episódio de Pokémon.Ah, sim. Eles já voltaram do barbeiro. Ambos ostentam agora um corte baixo estilo militar,
Narradora. Axel anotava cada palavra sem piscar, a mente trabalhando em alta velocidade para cruzar as informações com os bancos de dados privados a que tinha acesso. - O que mais sabe sobre a garota Celeste ? Não me faça ter de usar outros metodos para conseguir o que eu quero.- Axel pressionou, o tom firme. - Ninguém dá à luz e desaparece no ar sem deixar um único rastro. - Eu não sei o nome completo! - Celeste praticamente gritou, lágrimas de puro desespero finalmente escorrendo por sua maquiagem arruinada. - Eu juro pela minha vida que não sei! A garota estava desacordada quando a enfermeira me entregou o bebê enrolado em um lençol imundo. A única coisa que aquela pirralha usava... era uma correntinha de prata com uma medalha gravada. Axel fez uma pausa, a caneta parando sobre o papel. - Que tipo de medalha? - Tinha um brasão... e um nome gravado no verso - Celeste sussurrou, abaixando a c
Narradora. Enquanto o caos se instalava nos andares superiores da mansão Sterling, o silêncio no galpão no fundos da imensa propriedade era quebrado apenas pelo pingar ritmado de uma torneira mal fechada e pelo som dos passos lentos e pesados de Axel Stone. Com as mãos afundadas nos bolsos da calça de alfaiataria e a postura impecável de quem tem a situação sob controle absoluto, o detetive particular observava o casal através das grades de ferro. No chão frio de concreto, Celeste e Arthur pareciam dois espectros da opulência que um dia ostentaram - desgastados, sujos e visivelmente abalados pela privação e pelo pânico. Axel deu leve sorriso com aquela imagem. " O que algumas horas sendo tratado pior que um animal, não faz ao ser humano. " era divertido de uma forma distorcida, mas ele não estava ali para diversão de fato. Ainda que revirar a vida alheia fosse um tipo de prazer doentio que ele tinha, uma diversão sombria q
Hannah Brooks. - Henry Maddox... - a voz de David ecoa, um tom exasperado vibrando no ar. - Filho, pelo amor de Deus, você não pode virar para os outros e dizer que...- Mas eu quero um irmãozinho, papai! - a voz do minihumano ecoa com uma convicção tão firme que faz David encarar o filho em uma mistura de carinho e puro desespero. - O Theo vai ganhar um irmãozinho! O Henry também quer um irmão!- É, tio... é fácil - a voz de Theo sobressai, um sorriso sapeca se desenhando em seus lábios enquanto ele balança o corpo para a frente e para trás. - É só o senhor fazer... hmmm... eu não sei...Ele faz uma pausa dramática, encostando o indicador minúsculo sobre o lábio inferior, exatamente como quem está prestes a desvendar um dos maiores segredos do universo. Então, vira-se para mim, o sorriso travesso se alargando enquanto os olhos azuis intensos brilham de pura empolgação.- Naná, você e o papai... vocês podem ensinar o tio David e a tia Mia a como fazer um irmãozinho pro Henry? Igual







