LOGINNo auge da guerra do reino de Elyndor, durante um ataque sombrio guiado por forças ocultas, nasce Emma — filha da profecia, marcada pelo brilho da rara Lua Azul. Para protegê-la dos que desejam usar seu poder para mergulhar o mundo na escuridão, sua mãe, a rainha, ordena que ela seja enviada em segredo para outro mundo: o nosso. Criada sem lembranças de sua origem real, Emma vive uma vida comum, até completar 14 anos. Na noite do seu aniversário, durante uma nova aparição da Lua Azul, seus poderes finalmente despertam — junto com sonhos estranhos e visões de um castelo. Agora, Emma precisa reunir coragem para enfrentar a verdade: ela não é uma garota comum, mas herdeira de um trono, de um legado mágico que pode salvar ou condenar dois mundos. Para isso, terá que retornar a Elyndor, enfrentar seus inimigos e descobrir quem realmente é... antes que a Lua Azul brilhe pela última vez.
View MoreA dor rasgava meu corpo com força crescente, mas eu não podia me entregar a ela. Não agora. O reino estava sob ataque, e eu estava prestes a dar à luz. A coincidência — ou destino — dessa noite me causava calafrios. Sabia que o que estava acontecendo era mais do que uma invasão. Era o início da profecia.
A cada contração, sentia minha respiração falhar. O mundo ao redor parecia distorcer-se, as paredes do castelo tremiam, e o som metálico das espadas e gritos distantes penetrava pelos corredores. Apoiei-me no parapeito da janela e olhei para o céu. Lá estava ela, plena e cruelmente bela: a Lua Azul. Sua luz atravessava as cortinas como lâminas de gelo, cobrindo o chão dos meus aposentos com um brilho prateado. Era exatamente como o velho pergaminho dizia. Era esta noite. E meu bebê… o bebê que carregava em meu ventre, ainda desconhecido em sua essência, seria a chave de tudo. O vento frio entrava pelas frestas, cortando minha pele e fazendo meus pensamentos dançarem entre a dor e o medo. Eu sentia cada batida do meu coração como um tambor de guerra. E, em meio a tudo isso, uma sensação de dever me dominava: não podia fraquejar, não podia deixar que o pânico me dominasse. Não agora. A porta se escancarou com violência, interrompendo meus pensamentos. — Majestade! — Era Clara, minha dama de companhia, confidente e amiga mais leal. Seu rosto estava pálido, os olhos arregalados, mas ainda assim havia determinação em seu porte. Ela também tinha visto a Lua Azul, e compreendia seu significado. — Precisamos sair daqui, antes que cheguem até a senhora e o bebê — disse, já vindo me apoiar. — Onde está meu marido? — perguntei, esforçando-me para andar com ela. — O rei está na linha de frente com a tropa. Ordenou que a senhora fosse levada imediatamente ao abrigo. O feiticeiro já está esperando. Mas precisamos ser rápidas. Cada passo era um martírio. Meu corpo queimava, minhas pernas tremiam e minhas mãos se fechavam em punhos, tentando segurar a dor que parecia rasgar cada fibra de meu ser. Um estrondo sacudiu as paredes. Algo havia atingido o castelo. — Clara… nosso povo? — perguntei entre uma contração e outra, engolindo o medo que ameaçava sufocar minha voz. — Assim que o sino tocou, os guardas começaram a evacuação. A maioria já está nos abrigos, mas não posso garantir que todos chegaram a tempo — respondeu ela, descendo comigo mais um lance de escadas. Estávamos perto da cozinha real. Seguimos por um corredor escuro, as tochas tremeluzindo lançando sombras sinistras nas paredes. Quatro guardas nos esperavam. Três abriram a passagem secreta e entraram, formando um bloqueio protetor atrás de nós. O último permaneceu, vigilante, como uma estátua viva de ferro e sangue. Mas eu parei. O medo me travou por um segundo — não por mim, mas pelo rei. — Augusto… — disse ao guarda. — Vá até o rei. Diga a ele que precisa deixar o general no comando. Ele prometeu que estaria ao meu lado… e precisa estar aqui. — Minha voz falhou. As lágrimas desciam quentes pelas bochechas. — Soldado, isso é uma ordem da sua rainha. Vá agora mesmo! Ele hesitou por um instante, mas assentiu. Correu pelo mesmo corredor de onde viemos, e então, finalmente, entrei na câmara secreta. A porta de pedra se fechou com um baque surdo atrás de mim. Do outro lado, o silêncio. Senti o feitiço selando a entrada, como uma brisa mágica que arrepiava a pele. Olhei em volta. A sala era aconchegante, com mantas limpas, água fervida e um altar de runas brilhando com energia azulada. Cada símbolo pulsava suavemente, como se respirasse junto comigo. Era um refúgio, mas também um palco de destino. — Majestade — disse uma voz familiar —, podemos começar? Mesmo agora, ele mantinha aquele tom debochado, mas havia uma gravidade que não podia ser ignorada. Lá estava ele: o feiticeiro. Alto, vestindo mantos negros com detalhes em azul profundo. Seus olhos tinham o mesmo brilho travesso de quando éramos crianças, mas agora havia uma intensidade que me gelava a espinha. Meu irmão. Sempre soubera, mas sempre esquivei-me de confrontar essa verdade até que a profecia exigisse. — Vamos lá, irmãzinha — disse ele com um sorriso sereno, caminhando até mim com as mãos erguidas em preparo. — Eu disse que seria na Lua Azul. A dor veio com força dobrada. Agarrei uma das mantas e cerrei os dentes, tentando não gritar. Clara segurava minha outra mão, firme, me lembrando que ainda havia quem lutasse ao meu lado. Cada gemido, cada respiração ofegante parecia ecoar pelas paredes mágicas da câmara. — Respire, Majestade — instruiu meu irmão, enquanto movia as mãos sobre o altar, traçando símbolos que brilhavam intensamente. — O bebê sente cada emoção sua. Ele — ou ela — precisa nascer protegido, mesmo que o mundo esteja desmoronando lá fora. As palavras dele misturavam-se com a dor. Era um equilíbrio delicado: a força da magia e a força do meu corpo. A cada contração, sentia o peso do destino pressionando meus ombros, mas também uma estranha clareza. Este não era apenas um nascimento. Era o nascimento de esperança, de promessa. Enquanto isso, o som do castelo em guerra chegava atenuado pelas paredes encantadas, mas ainda perceptível: o metal chocando-se, ordens gritando, cavalos relinchando. Meu coração se partia ao imaginar Augusto lutando, preocupado comigo e com o bebê, incapaz de estar presente neste momento crítico. — Clara, você sempre disse que me protegeria — murmurei entre uma dor intensa, apertando sua mão. — E sempre farei, Majestade. Até o fim — respondeu ela, firme, com uma determinação que me deu forças. Meu irmão começou a entoar cânticos antigos, palavras que pareciam não pertencer a nenhum idioma conhecido, mas que ressoavam no ar como cordas invisíveis. Cada som parecia atravessar minha carne e alcançar o bebê, aquecendo-o, protegendo-o. A luz azul da Lua penetrava pela pequena janela da câmara, refletindo nas runas, criando padrões sobre meu corpo que pareciam dançar junto com os latidos do meu coração. — Está quase — disse ele, a voz firme. — Lembre-se, a Lua Azul marca este momento. A criança é a chave. Tudo depende dela. As contrações aumentavam em intensidade, mas eu comecei a perceber algo estranho: não era apenas dor. Era uma sensação de poder, de pertencimento a algo maior. Como se a profecia não fosse apenas sobre medo ou perda, mas também sobre força e renascimento. Cada respiração parecia carregar energia, cada batida do coração, coragem. Em meio ao esforço, Clara começou a cantar suavemente. Uma canção antiga, passada pelas gerações, que falava de esperança e coragem. Cada palavra dela parecia acalmar minha mente, dando ritmo à dor, fazendo-a suportável, quase transformando-a em força. Meu irmão, concentrado, guiava cada movimento, cada respiração. Suas mãos brilhavam com magia, formando barreiras invisíveis, dissipando sombras, protegendo o bebê de qualquer influência externa. O suor escorria por minha testa, misturando-se à luz azul que banhava a câmara. Cada segundo parecia uma eternidade, cada instante, uma eternidade de esperança e medo entrelaçados. E então, senti o primeiro choro. Um som frágil, mas cheio de vida. O feiticeiro sorriu, Clara soluçou de alívio, e eu, apesar da exaustão, tremendo e coberta de suor, encarei o bebê colocado sobre meu peito. Um momento de silêncio absoluto nos envolveu. Eu olhei para ele — ou seria ela? — e meu coração quase parou quando percebi: era uma menina. O mundo pareceu prender a respiração junto comigo. A Lua Azul iluminava seu rosto pequeno e perfeito, e cada feição parecia carregar a promessa de algo maior. Eu tocava sua mãozinha, sentindo a vida pulsando nela, e a compreensão me atingiu como um raio: a profecia falava de uma filha, e não de um filho. Todo o peso daquilo caiu sobre meus ombros, misturado à alegria e ao medo. — Ela… é uma menina — sussurrei, com lágrimas escorrendo pelo meu rosto. — Minha filha. Clara sorriu, segurando minha mão com força, como se dissesse que tudo ficaria bem. O feiticeiro colocou uma mão sobre a menina e outra sobre meu ombro. Uma onda de energia percorreu a sala, e senti algo mudar. A sensação de medo, que me dominara por toda a noite, começou a se dissipar. A filha estava protegida, e, de alguma forma, havia esperança. — A profecia começou — disse meu irmão, sua voz séria agora. — Mas isso é só o começo. O mundo lá fora ainda precisa de nós, e o destino desta menina será determinante. A dor ainda persistia, mas agora misturada com uma sensação de vitória e alívio. Eu havia sobrevivido, nossa filha havia nascido, e mesmo sob o caos e a guerra, havia magia, amor e coragem suficientes para enfrentar o que viesse. Naquele instante, sob a luz da Lua Azul, percebi que o nascimento de nossa filha não era apenas um ato de sobrevivência, mas um símbolo de resistência. O destino, mesmo cruel, poderia ser enfrentado. E eu, mãe e rainha, sabia que lutaria por ela até o último suspiro. E assim, enquanto o mundo desmoronava lá fora, na câmara secreta do castelo, a profecia se cumpria, selando o início de uma história que mudaria para sempre o destino do reino, da menina, e de todos aqueles que ousassem enfrentar a escuridão.Ao amanhecer, Astérion não possuía sombras.Percebi isso antes mesmo de deixar o dormitório.A luz entrava pelas janelas, tocava as camas, os móveis e as cortinas, mas nenhum objeto projetava sua forma sobre o chão. Quando ergui a mão diante do rosto, meus dedos bloquearam o brilho sem produzir qualquer sinal escuro sobre a parede.Levantei-me depressa.— Lyuna — chamei, demonstrando inquietação ao olhar para a cama ao lado.Ela já estava acordada.Permanecia sentada, com a faixa prateada presa ao pulso e os olhos fixos na própria mão.— Eu também não tenho sombra — informou Lyuna, demonstrando tensão ao movimentar os dedos diante da luz.O cobertor da terceira cama foi afastado.Luiza surgiu com os cabelos desalinhados e uma folha presa perto da orelha.— Talvez tenham decidido retirar uma coisa assustadora da prova — sugeriu ela, demonstrando sonolência ao procurar as próprias botas. — Depois de cinco fases, seria uma demonstração tardia de responsabilidade.Seus pés tocaram o chão.
— Finalmente — sussurrou a primeira Raiz, demonstrando alívio ao usar a boca de Luiza para pronunciar as palavras. — Vocês se lembraram de mim.Meu corpo inteiro ficou imóvel.A voz não pertencia à minha amiga.Era mais grave, atravessada por um cansaço tão antigo que parecia ter passado quatrocentos anos tentando alcançar aquele único instante. Ainda assim, por trás dela, reconheci a respiração assustada de Luiza e o tremor de seus dedos agarrados ao meu braço.Ela continuava ali.Elara não a havia substituído completamente.— Luiza? — chamei, demonstrando medo ao tocar seu rosto.O olho castanho de minha amiga voltou-se para mim.O negro permaneceu fixo na pedra verde que pulsava dentro da flor.— Eu consigo ouvir você — respondeu Luiza, demonstrando esforço ao lutar contra a segunda voz. — Mas ela também está aqui.A parede de raízes estremeceu atrás de nós.Lyuna lançou outra corrente de luz prateada contra a barreira. O impacto iluminou toda a floresta, mas as raízes absorveram a
Meu tio contou tudo o que sabia. Não foi suficiente. A primeira versão da profecia não estava entre os livros do reino. Luarena nunca a vira completa. Miguel conhecia apenas trechos que haviam sido copiados por conselheiros antigos, e Ronnie e Alba não possuíam respostas sobre uma história que começara séculos antes de nascerem. Ainda assim, ninguém tentou encerrar a conversa. Falamos até a luz do grande espelho mudar de dourada para azulada. Falamos sobre a marca de Lyuna, sobre o fragmento prateado e sobre as primeiras famílias que haviam protegido os registros da Lua Azul. Meu tio admitiu que suspeitava da existência de outra força ligada à profecia, embora nunca tivesse imaginado que se tratasse de uma pessoa. Ou que essa pessoa fosse Luiza. Quando regressamos a Astérion, o sol já começava a descer. As sete torres lançavam sombras compridas sobre os jardins, atravessando os caminhos como ponteiros de um relógio imenso. Observei cada uma delas pela janela da carruagem,
A queda não terminou. O lago desapareceu sob nossos pés, mas nenhum chão surgiu para nos receber. Lyuna continuava segurando minha mão enquanto despencávamos por um vazio formado por sombras, lembranças e pequenos fragmentos de luz. O vento não tocava meu rosto. Ainda assim, meus cabelos se agitavam ao redor da cabeça, misturando-se às linhas prateadas que escapavam do braço de Lyuna. A marca em seu pulso pulsava com tanta força que eu conseguia sentir cada batida atravessar sua mão e alcançar a minha. — Não solte — pedi outra vez, demonstrando desespero ao apertar os dedos dela. — Não vou soltar — prometeu Lyuna, embora o medo já começasse a enfraquecer sua voz. A escuridão se abriu abaixo de nós. Caímos dentro de uma lembrança. Eu tinha seis anos. Estava encolhida debaixo da mesa da cozinha, com os joelhos apertados contra o peito e as mãos sobre os ouvidos. A chuva batia contra as janelas. Trovões faziam os vidros estremecerem, e a energia havia acabado havia pouco
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