Compartilhar

Capítulo 7

Autor: Mara Santos
last update Data de publicação: 2026-06-07 23:49:53

Rosário

​— Como eu vou fazer agora, Marcinha? — perguntei, sentindo as lágrimas de puro nervosismo queimarem o fundo dos meus olhos. O pânico subia pela minha garganta. — Você ouviu o tom de voz dele? Ele me ameaçou na cara dura! Ele acha que o que aconteceu com a Rossandra e com o meu pai é só "passado", uma desculpa boba para eu dar um fora nele!

​— Ele é o herdeiro do morro, amiga. Eles acham que são donos de tudo, até das pessoas — Marcinha disse, olhando preocupada em direção à rua pela janela de vidro. — Todo mundo abaixa a cabeça para o Augusto, ele não está acostumado a ser rejeitado.

​— O sangue sumiu da minha cabeça na hora! — passei as mãos pelo rosto, tentando afastar o fantasma do medo. — O que importa é que a dona Roberta trabalha duro como empregada doméstica, a Rosa se mata de trabalhar naquela loja, e eu estou aqui tentando ter um futuro limpo. Se a minha mãe sonhar que esse rapaz veio aqui me encurralar, ela infarta. Ou pior, ela vai tentar me proteger e o pessoal do morro faz alguma maldade com ela!

​— Calma, respira — Marcinha segurou minhas duas mãos, tentando me acalmar. — Ele disse "da próxima vez". Isso significa que hoje você está segura. Mas você não vai poder ficar bobeando sozinha nessa biblioteca no fim do expediente.

​— Eu não posso deixar esse emprego, Marcinha. É o meu meio período, é o que me ajuda a respirar e a juntar meu dinheiro... — Olhei para os livros nas estantes, que de repente pareceram não ter páginas suficientes para me esconder do mundo real. — Mas eu não vou ceder. Eu disse não, e vai continuar sendo não. Eu só preciso... preciso dar um jeito de não cruzar com ele. De sumir da vista dele.

​— E como você faz isso na nossa comuna, onde todo mundo se conhece e os caras dele estão em cada esquina? — o questionamento de Marcinha caiu como uma bigorna no meu peito.

​Ela tinha razão. O morro tinha olhos. E, infelizmente, todos esses olhos pareciam estar voltados para mim agora.

​Ficou perfeito assim com o nome corrigido!

​— Vamos para casa, eu te acompanho — Marcinha insistiu, pegando a bolsa dela atrás do balcão. — Você não tem condições de ficar aqui nem mais um minuto.

​Olhei para as minhas mãos, que ainda tremiam discretamente. Ela tinha toda razão. A biblioteca, que sempre foi o meu refúgio, agora parecia sufocante.

​— Vamos... Eu realmente não consigo mais ficar — respondi, engolindo em seco.

​Tranquei as portas da biblioteca com as chaves que pareciam pesar uma tonelada, e fomos. Caminhamos pelas ladeiras da comuna em silêncio, com a Marcinha atenta a cada moto ou passo que vinha atrás de nós. Quando finalmente dobrei a esquina da nossa casa, senti um pequeno alívio, embora o bolo no meu estômago continuasse ali. Nos despedimos com um olhar cúmplice e eu entrei.

​Chegando em casa, minha mãe já estava lá.

​— Oi, mãe, cheguei — falei, tentando manter a voz o mais normal possível.

​— Chegou mais cedo, filha — ela estranhou, erguendo os olhos do que estava fazendo. — Você está bem?

​— Estou sim — respondi rápido, já dando passos em direção ao corredor para passar logo por ela, rezando para que ela não percebesse o quão nervosa eu estava.

​— Filha, vem cá. Senta aqui.

​O tom de voz dela não dava espaço para discussões. Dei meia-volta e fui até a cozinha. Me sentei à mesa e, em silêncio, ela colocou um copo de suco para mim e uma fatia daquele bolo que ela faz e que eu amo. O cheiro doce de bolo quentinho costumava me alegrar na hora, mas hoje foi difícil sorrir.

​— O bolo ficou lindo hoje, mamãe — comentei, cutucando a massa com o garfo.

​— Filha... — ela começou, apoiando as mãos na mesa e me olhando bem no fundo dos olhos. — Me disseram que o Augustinho andou rondando a biblioteca de novo. É verdade?

​Meu coração perdeu o ritmo por um segundo. As fofocas na comuna corriam mais rápido que a luz.

​— Sim, mamãe... Ele foi lá — admiti, abaixando a cabeça.

​— Filha, eu não quero você perto desse rapaz! Já basta o que aconteceu com a sua irmã, a Rossandra...

​A voz dela sumiu no final da frase. Minha mãe abaixou a cabeça, e ver aquela postura me cortou o coração. Dona Roberta guardava essa tristeza e essa culpa no peito há mais de dez anos, envelhecendo um pouco mais a cada dia em que pensava no mistério do sumiço da Rossandra e na morte do meu pai.

​Me levantei da cadeira em um pulo e a abracei por trás, apertando meus braços ao redor dos ombros dela.

​— Eu sei, mamãe. Eu juro que não sou eu que estou indo atrás dele! Ele é quem vai lá. Eu já pedi para ele parar de ir, já dei o fora, mas ele não entende, não aceita...

​Minha mãe segurou as minhas mãos que estavam presas no abraço dela e soltou um suspiro doloroso, olhando para o nada.

​— Filha... Eu só queria ter condições de tirar vocês duas dessa cidade.

Apertei o abraço na minha mãe por mais alguns segundos, tentando transferir toda a força que eu não tinha para ela, antes de me despedir com um beijo na sua bochecha e caminhar em direção ao quarto. Precisava ficar sozinha. Precisava desabar sem que os olhos atentos da dona Roberta pesassem sobre mim.

Ouvi o barulho da porta da frente se abrindo e, pouco depois, passos leves no corredor. A porta do quarto se abriu devagar, revelando a silhueta doce da Rosa. Ela tinha acabado de chegar do trabalho na loja, mas, ao contrário de mim, que trazia o caos no olhar, a Rosa transmitia uma paz quase angelical. Ela era a mais velha, a minha calmaria, o meu porto seguro.

​— Rosário? — a voz dela soou suave, como uma carícia. Ela fechou a porta atrás de si e se aproximou da cama, sentando-se na borda. — A mamãe me contou que você chegou mais cedo... e me falou sobre o Augustinho. O que aconteceu, mi hermana?

​Eu me impulsei para cima na cama, sentando-me de pernas cruzadas. O furacão dentro de mim, que estava contido, começou a se agitar de novo, misturando raiva com desespero.

​— Rosa, ele foi até a biblioteca! — desabafei, gesticulando com as mãos, a voz saindo num sussurro tenso para a mamãe não ouvir na cozinha. — Ele me encurralou contra o balcão. Eu dei o fora nele de novo, disse que não queria e que ele conhecia o passado da nossa família. E sabe o que ele fez? Ele cresceu para cima de mim! Disse que a paciência dele acabou, que não é o homem que levou a Rossandra e que não aceita "não" como resposta!

​Rosa me ouvia em silêncio, com aqueles olhos calorosos e cheios de empatia. Ela esticou a mão e segurou os meus dedos trêmulos, acariciando-os devagar para tentar baixar o meu ritmo.

​— Ele te ameaçou, Rosário? — Rosa perguntou, com a voz falhando de preocupação.

​— Sim! — disparei, sentindo as lágrimas finalmente rolarem pelo meu rosto, quentes e rápidas. — Eu estou com tanta raiva, mas com tanto medo! Se eu pudesse, quebrava a cara dele, mas sei bem quem ele é e o que ele pode fazer!

​— Oh, minha boneca, vem cá... — Rosa se inclinou na minha direção e me puxou para um abraço apertado. O jeito meigo dela era a única coisa capaz de acalmar o meu gênio forte. — Respira. Eu estou aqui com você. Nós duas vamos dar um jeito nisso.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • A esposa errada do chefe da máfia   Fim

    Rosário Antes que eu pudesse rir da reação dele, Alejandro já estava de pé logo abaixo de mim, os braços firmes estendidos para me segurar caso eu despencasse. Mas eu não caí. Com um movimento controlado, desmanchei a posição e escorreguei pela barra direto para os braços dele, que me suspenderam no ar num piscar de olhos, colando meu corpo ao seu. ​Ele me apertou contra o peito, a respiração quente batendo no meu pescoço, o rosto marcado por uma mistura de alívio e loucura. ​— Você estava deliciosa, minha rainha... Você me mata do coração, sabia? — ele murmurou contra a minha pele, a voz rouca e trêmula, me carregando como se eu não pesasse nada até o sofá grande de couro. ​Deitei sobre ele, rindo baixinho enquanto ajustava meu corpo por cima do dele, sentindo o calor do seu tronco me envolver. Levei uma mão até o rosto dele, acariciando a barba por fazer com um sorriso vitorioso. ​— Eu treinei para dançar para você, meu amor. O que você achou? ​Ele fechou os olhos por um insta

  • A esposa errada do chefe da máfia   Capítulo 162

    Rosário silêncio do apartamento em Bogotá era o refúgio perfeito depois daquela maratona de viagens e despedidas. Mas o tempo, implacável e generoso, fez questão de acelerar o ponteiro. Três meses se passaram em um piscar de olhos, transformando a rotina, os ânimos e o formato do meu corpo. Agora, com sete meses de gravidez, a barriga avantajada exibia o milagre que crescia dentro de mim, me deixando com uma aura diferente, mais plena, embora a curiosidade e os caprichos típicos dessa fase estivessem a mil por hora.​Numa tarde cinzenta e fria na capital colombiana, enquanto ele revisava alguns relatórios na sala de estar, decidi que a calmaria tinha durado tempo demais.​— Marido — chamei, arrastando os passos até ele e me inclinando sobre o braço da poltrona. — Vamos sair. Quero ir à boate.​Alejandro ergueu os olhos do papel, a expressão endurecendo na mesma hora. Ele fechou a pasta com um suspiro pesado, já sabendo exatamente de qual boate eu falava — a nossa, fechada ao público

  • A esposa errada do chefe da máfia   Capítulo 161

    Rosário Chegou o grande dia da nossa partida, e o coração apertou. Eu confesso que não queria ficar longe da minha mãe. Estávamos todos nos despedindo na sala, um clima gostoso de despedida em família, embora a Andréia ainda estivesse para chegar. Como tínhamos passado os dias todos juntinhos, a saudade antecipada já batia forte. Minha mãe me abraçou forte e se despediu dizendo que ia me ver em breve, afirmando que, se precisasse, iria me visitar sozinha mesmo sem a Rosa — elas ainda estavam decidindo se a Rosa ia junto ou não.Com o peito cheio de carinho, nos abraçamos mais uma vez e começamos a caminhar em direção à saída. Quando já passávamos pelo portão, o carro do Gustavo estacionou de repente. Achávamos que seriam apenas ele e a Andréia, mas, para a nossa surpresa, a porta de trás se abriu e o Henrique desceu correndo em minha direção, me abraçando com força:​— Titia, que saudade de você! Eu vou sentir muita falta.​O Alejandro que caminhava ao meu lado, parou de inopino, arr

  • A esposa errada do chefe da máfia   Capítulo 160

    AlejandroDeixamos a casa para trás sem prolongar as despedidas e seguimos direto para o hotel no centro da cidade. Itajubá tinha aquela atmosfera de refúgio, uma calma que parecia blindar a nossa pequena suíte elegante de qualquer tempestade externa.​Assim que trancamos a porta do quarto, o silêncio aconchegante nos envolveu. Ela suspirou fundo, os ombros caídos pela exaustão da viagem e das emoções do dia.​— Preciso de um banho, marido... tô tão cansada — murmurou, com a voz manhosa.​Me aproximei sem pressa, passei os braços ao redor da sua cintura e a puxe para perto, colando o corpo dela no meu.​— Vem, eu te ajudo — falei baixinho, beijando o topo da sua cabeça.Desnudei-a com gestos lentos e cuidadosos, tirando cada peça com a devoção de quem queria apagar qualquer vestígio de cansaço daquele dia. Tirei minha roupa em seguida e a levei pela mão para o interior do box. Girei o registro e deixei a água morna cair sobre nós, lavando o mundo lá fora.​Ela encostou a cabeça no meu

  • A esposa errada do chefe da máfia   Capítulo 159

    Alejandro Enquanto as mulheres ficavam na sala entre risadas e embrulhos de presente, chamei o Gustavo para ir até a área da piscina. Pegamos duas garrafas de cerveja gelada e fomos para o lado de fora. O ar puro e o som suave da água pareciam o cenário perfeito para aquela conversa que nós dois sabíamos que precisava acontecer.​Dei um gole na cerveja, observando o reflexo do sol na água, dando espaço para que ele se sentisse à vontade. Gustavo respirou fundo, me encarou de frente e decidiu abrir o jogo, com uma honestidade que eu soube respeitar no mesmo instante.​— Olha, Alejandro, eu te respeito de verdade por você tratar a minha cunhada da melhor forma. É nítido para todo mundo o quanto a Rosário está feliz ao seu lado, e eu te agradeço do fundo do coração por isso. Mas tem algo que eu preciso falar com você... É sobre o Henrique.​Ele fez uma pausa, pesando as palavras, e continuou com a voz tomada pela firmeza de um protetor:​— Para mim, Alejandro, o Henrique é um filho. Ele

  • A esposa errada do chefe da máfia   capítulo 158

    Rosário ​O café da seguiu em clima de festa, entre risadas, pedaços generosos de bolo e conversas leves que pareciam apagar de vez as sombras do passado. Quando finalmente nos levantamos da mesa, o grupo naturalmente se dividiu.Enquanto os homens — Alejandro e Gustavo — seguiram para a área da piscina com garrafas de cerveja na mão para conversar longe das fofocas, nós, mulheres, nos reunimos na sala. A mesinha de centro rapidamente se transformou em um verdadeiro mostruário de amor.​Comecei a desamarrar as fitas das sacolas que havíamos trazido, com os olhos brilhando de empolgação.​— Gente, nós compramos várias coisinhas sem saber o sexo do bebê, então tem um pouco de tudo — fui explicando, tirando pacotinhos e caixas de dentro da bolsa.​Minha mãe olhou para aquela pilha de mimos, com os olhos marejados de novo, e balançou a cabeça carinhosamente:​— Ai, minha filha... não precisava de nada disso. Só de ver vocês aqui, bem e reunidas, já é o maior presente que eu podia pedir a

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status