FAZER LOGINRosário
Ficamos ali, abraçadas no silêncio do quarto, até que o peso no meu peito diminuiu um pouco. Rosa se levantou com aquele sorriso doce para ir tomar banho, e eu fui direto para a cozinha fazer o jantar. Depois que comemos, a Rosa deu um pulo da cadeira, animada. — Tive uma ideia! Vamos fazer uma sessão de cinema na sala hoje? Faz tanto tempo que a gente não senta junto para ver um filme. — Ah, Rosa, o dinheiro está curto até para o aluguel, quem dirá... — mamãe começou, já suspirando. — Mas mamãe, é cinema em casa! — brinquei, puxando a dona Roberta pelo braço. — A senhora não gasta um tostão. Eu faço uma bacia de pipoca gigante e a gente usa o cobertor mais quentinho. Vamos, por favor? — Está bem, suas teimosas. Vocês me convencem muito fácil — mamãe sorriu, deixando o cansaço de lado enquanto ia para a sala. Fui para a cozinha e o barulho da pipoca estourando na panela preencheu a casa. Corri para a sala com a bacia cheia e me joguei no sofá entre as duas. A Rosa já estava com o controle na mão, com os olhos brilhando. — Já escolhi! Vai ser Cartas para Julieta — anunciou, vitoriosa. — Ah, não, Rosa! Romantismo de novo? — brinquei, fingindo uma careta. — Você sabe que eu não sou muito fã dessas melações, prefiro mil vezes um drama pesado. — Deixa de ser marrenta, Rosário! — Rosa riu, jogando uma pipoca em mim. — Você sempre me deixa escolher, não reclama hoje. Olha essa paisagem da Itália, que coisa mais linda! — É verdade, filha, o filme parece bonito — mamãe defendeu a Rosa, pegando um punhado de pipoca. — Deixa o romance passar um pouco na televisão, já que a nossa vida real é tão dura. — Está bem, está bem, vocês venceram — me rendi, rindo e me aconchegando no ombro da mamãe. — Mas se eu dormir no meio, não vale brigar comigo! — Se você dormir, eu te acordo com cócegas! — Rosa ameaçou, e nós três rimos juntas. Enquanto o filme passava e a sala era iluminada pela tela, a conversa diminuiu, dando lugar ao som das nossas risadas nas partes engraçadas. Por algumas horas, o plano funcionou. Sentindo o calor da minha mãe de um lado e a energia doce da Rosa do outro, o medo do Augusto e as ameaças da biblioteca pareceram ficar do lado de fora da porta. No meio do filme, senti o peso da cabeça da minha mãe ficar mais vivo contra o meu ombro. Olhei de relance e vi que os olhos dela já tinham se fechado, embalados pelo cansaço da rotina pesada no consultório. Dei um leve cutucão na Rosa com o pé e fiz um sinal com a cabeça, apontando para a mamãe. Rosa olhou, deu aquele sorriso doce que só ela tinha, e sussurrou bem baixinho para não acordá-la: — Ela está cansada... A nossa guerreira trabalha demais. — Demais — sussurrei de volta, ajeitando o cobertor sobre as pernas da mamãe com o maior cuidado do mundo. — Dá uma dor no coração ver ela assim, exausta. — Vamos continuar assistindo, já está perto de acabar — Rosa sugeriu, também baixando o tom de voz, os olhos voltando para a tela onde os personagens desvendavam os mistérios do amor na Itália. — Tá bem — concordei, me aconchegando mais no sofá. Pela primeira vez na noite, prestei atenção de verdade no filme. Vendo aquela busca por um amor do passado e os finais felizes que só o cinema sabe criar, meu pensamento acabou voando para longe da Itália. Pensei na nossa própria história, na Rossandra que sumiu no mundo sem deixar pistas. vida real na nossa comuna não tinha trilha sonora bonita, nem cartas de amor; tinha avisos perigosos Assim que a música dos créditos finais começou a ecoar baixinho pela sala, a Rosa pegou o controle e desligou a televisão. Olhei para o lado e balancei o ombro da mamãe de leve, com todo o carinho. — Ei, mamãe... — sussurrei perto do ouvido dela. — Acorda. O filme já acabou, vamos para a cama. Dona Roberta piscou os olhos, meio confusa, e soltou um bocejo longo, se espreguiçando no sofá. — Ah, minhas filhas... Me desculpem, acho que perdi o finalzinho — ela disse, com a voz rouca de sono, limpando os cantos dos olhos. — Esse sofá me abraçou de um jeito que não deu para aguentar. — Não tem problema, mamãe. A senhora precisava descansar — Rosa falou, levantando-se e segurando a mão dela para ajudá-la a levantar. — Vai lá deitar direitinho. — Boa noite, minhas bênçãos. Não fiquem acordadas até tarde, hein? — mamãe nos alertou, dando um beijo no topo da cabeça de cada uma antes de caminhar arrastando os chinelos em direção ao quarto dela. Quando a porta do quarto da mamãe se fechou, o silêncio da sala pareceu ficar ainda mais pesado. Comecei a juntar os copos e a bacia de pipoca vazia, tentando parecer ocupada para não deixar transparecer que o medo do Augusto tinha voltado com tudo assim que a televisão desligou. Rosa ficou de pé me observando por alguns segundos. Ela me conhecia melhor do que ninguém; sabia que por trás de toda a minha pose de furacão, eu estava apavorada. — Rosário... — ela chamou baixinho, fazendo com que eu parasse no meio do caminho para a cozinha. — Quer dormir comigo na minha cama hoje? Olhei para ela, e a armadura de garota durona que eu tentava vestir desmoronou na hora. Eu não queria ficar sozinha no meu quarto, olhando para o teto e imaginando o que o Augusto faria no dia seguinte. — Quero... Quero sim, Rosa — admiti, sentindo um nós na garganta e deixando a bacia em cima da mesa. — Então vem, deixa isso aí. Amanhã a gente limpa — Rosa disse com aquele tom meigo e acolhedor, estendendo a mão para mim. Nos deitamos na cama de casal, nos cobrindo até o queixo para espantar o frio que começava a fazer na comuna. A única iluminação vinha da lua que passava pela fresta da janela, desenhando sombras suaves no teto. — Você viu que lindo o filme, Rosário? — ela começou, com aquela voz sonhadora de sempre. — A Claire passou cinquenta anos longe do Lorenzo, mas o sentimento deles continuou exatamente igual. Eles se reencontraram velhinhos e o amor estava lá, intacto. Isso é que é amor verdadeiro.— É bonito na tela do cinema, Rosa... Mas aquilo é a Itália, é um roteiro escrito por alguém. — Não seja cética, boneca — Rosa sorriu de canto, virando-se para mim também. — O amor de verdade existe. Aquele senhor esperou por ela, e a Claire nunca o esqueceu. Eu acho que todo mundo tem uma alma gêmea em algum lugar do mundo, alguém que vem para trazer paz, e não medo. — Irmã... Eu não sei se acredito no amor — desabafei, e minha voz saiu tão baixinha que quase sumiu no quarto. Rosa me olhou com uma ternura que quase me fez chorar de novo. Ela esticou o braço e acariciou meu cabelo. — Por que você diz isso, Rosário? Você é a leitora mais romântica que eu conheço, vive com o nariz enfiado nesses livros de época. — Justamente, Rosa. Nos livros do século dezenove, os homens sofrem por amor, escrevem cartas, respeitam as mulheres. Mas na nossa realidade? — dei uma risada amarga, limpando uma lágrima teimosa que escorreu. — Na nossa realidade, o "amor" que b**e à nossa porta vem com ameaça. O amor levou a nossa irmã embora e destruiu o nosso pai. Para nós, o amor sempre custou caro demais. Eu tenho a impressão de que, no mundo real, o amor é perigoso.Rosário Antes que eu pudesse rir da reação dele, Alejandro já estava de pé logo abaixo de mim, os braços firmes estendidos para me segurar caso eu despencasse. Mas eu não caí. Com um movimento controlado, desmanchei a posição e escorreguei pela barra direto para os braços dele, que me suspenderam no ar num piscar de olhos, colando meu corpo ao seu. Ele me apertou contra o peito, a respiração quente batendo no meu pescoço, o rosto marcado por uma mistura de alívio e loucura. — Você estava deliciosa, minha rainha... Você me mata do coração, sabia? — ele murmurou contra a minha pele, a voz rouca e trêmula, me carregando como se eu não pesasse nada até o sofá grande de couro. Deitei sobre ele, rindo baixinho enquanto ajustava meu corpo por cima do dele, sentindo o calor do seu tronco me envolver. Levei uma mão até o rosto dele, acariciando a barba por fazer com um sorriso vitorioso. — Eu treinei para dançar para você, meu amor. O que você achou? Ele fechou os olhos por um insta
Rosário silêncio do apartamento em Bogotá era o refúgio perfeito depois daquela maratona de viagens e despedidas. Mas o tempo, implacável e generoso, fez questão de acelerar o ponteiro. Três meses se passaram em um piscar de olhos, transformando a rotina, os ânimos e o formato do meu corpo. Agora, com sete meses de gravidez, a barriga avantajada exibia o milagre que crescia dentro de mim, me deixando com uma aura diferente, mais plena, embora a curiosidade e os caprichos típicos dessa fase estivessem a mil por hora.Numa tarde cinzenta e fria na capital colombiana, enquanto ele revisava alguns relatórios na sala de estar, decidi que a calmaria tinha durado tempo demais.— Marido — chamei, arrastando os passos até ele e me inclinando sobre o braço da poltrona. — Vamos sair. Quero ir à boate.Alejandro ergueu os olhos do papel, a expressão endurecendo na mesma hora. Ele fechou a pasta com um suspiro pesado, já sabendo exatamente de qual boate eu falava — a nossa, fechada ao público
Rosário Chegou o grande dia da nossa partida, e o coração apertou. Eu confesso que não queria ficar longe da minha mãe. Estávamos todos nos despedindo na sala, um clima gostoso de despedida em família, embora a Andréia ainda estivesse para chegar. Como tínhamos passado os dias todos juntinhos, a saudade antecipada já batia forte. Minha mãe me abraçou forte e se despediu dizendo que ia me ver em breve, afirmando que, se precisasse, iria me visitar sozinha mesmo sem a Rosa — elas ainda estavam decidindo se a Rosa ia junto ou não.Com o peito cheio de carinho, nos abraçamos mais uma vez e começamos a caminhar em direção à saída. Quando já passávamos pelo portão, o carro do Gustavo estacionou de repente. Achávamos que seriam apenas ele e a Andréia, mas, para a nossa surpresa, a porta de trás se abriu e o Henrique desceu correndo em minha direção, me abraçando com força:— Titia, que saudade de você! Eu vou sentir muita falta.O Alejandro que caminhava ao meu lado, parou de inopino, arr
AlejandroDeixamos a casa para trás sem prolongar as despedidas e seguimos direto para o hotel no centro da cidade. Itajubá tinha aquela atmosfera de refúgio, uma calma que parecia blindar a nossa pequena suíte elegante de qualquer tempestade externa.Assim que trancamos a porta do quarto, o silêncio aconchegante nos envolveu. Ela suspirou fundo, os ombros caídos pela exaustão da viagem e das emoções do dia.— Preciso de um banho, marido... tô tão cansada — murmurou, com a voz manhosa.Me aproximei sem pressa, passei os braços ao redor da sua cintura e a puxe para perto, colando o corpo dela no meu.— Vem, eu te ajudo — falei baixinho, beijando o topo da sua cabeça.Desnudei-a com gestos lentos e cuidadosos, tirando cada peça com a devoção de quem queria apagar qualquer vestígio de cansaço daquele dia. Tirei minha roupa em seguida e a levei pela mão para o interior do box. Girei o registro e deixei a água morna cair sobre nós, lavando o mundo lá fora.Ela encostou a cabeça no meu
Alejandro Enquanto as mulheres ficavam na sala entre risadas e embrulhos de presente, chamei o Gustavo para ir até a área da piscina. Pegamos duas garrafas de cerveja gelada e fomos para o lado de fora. O ar puro e o som suave da água pareciam o cenário perfeito para aquela conversa que nós dois sabíamos que precisava acontecer.Dei um gole na cerveja, observando o reflexo do sol na água, dando espaço para que ele se sentisse à vontade. Gustavo respirou fundo, me encarou de frente e decidiu abrir o jogo, com uma honestidade que eu soube respeitar no mesmo instante.— Olha, Alejandro, eu te respeito de verdade por você tratar a minha cunhada da melhor forma. É nítido para todo mundo o quanto a Rosário está feliz ao seu lado, e eu te agradeço do fundo do coração por isso. Mas tem algo que eu preciso falar com você... É sobre o Henrique.Ele fez uma pausa, pesando as palavras, e continuou com a voz tomada pela firmeza de um protetor:— Para mim, Alejandro, o Henrique é um filho. Ele
Rosário O café da seguiu em clima de festa, entre risadas, pedaços generosos de bolo e conversas leves que pareciam apagar de vez as sombras do passado. Quando finalmente nos levantamos da mesa, o grupo naturalmente se dividiu.Enquanto os homens — Alejandro e Gustavo — seguiram para a área da piscina com garrafas de cerveja na mão para conversar longe das fofocas, nós, mulheres, nos reunimos na sala. A mesinha de centro rapidamente se transformou em um verdadeiro mostruário de amor.Comecei a desamarrar as fitas das sacolas que havíamos trazido, com os olhos brilhando de empolgação.— Gente, nós compramos várias coisinhas sem saber o sexo do bebê, então tem um pouco de tudo — fui explicando, tirando pacotinhos e caixas de dentro da bolsa.Minha mãe olhou para aquela pilha de mimos, com os olhos marejados de novo, e balançou a cabeça carinhosamente:— Ai, minha filha... não precisava de nada disso. Só de ver vocês aqui, bem e reunidas, já é o maior presente que eu podia pedir a







