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Capítulo 3

Author: Ell Marioti
last update publish date: 2026-07-22 22:45:37

As vozes chegavam até mim como ecos distantes.

Meu corpo parecia pesado.

Alguém segurava meu pulso.

Outra pessoa levantava minha cabeça.

Senti um líquido amargo tocar meus lábios.

— Ela está voltando.

Abri os olhos lentamente.

A luz das tochas fez minha cabeça latejar.

Demorei alguns segundos para reconhecer onde estava.

Ainda era o salão da alcateia.

Ainda havia dezenas de pessoas ao meu redor.

Quis me levantar.

A curandeira apoiou uma mão em meu ombro.

— Fique deitada.

— Eu... estou bem.

Minha própria voz soou estranha.

Fraca.

Ela ignorou minha tentativa de parecer forte e voltou a pressionar dois dedos contra meu pulso.

Seu semblante mudou.

Primeiro confusão.

Depois surpresa.

Então...

Ela empalideceu.

— Não...

Sussurrou para si mesma.

Franzi a testa.

— O que foi?

Ela olhou para mim.

Depois para o conselho.

Respirou fundo.

— Ayla... há quanto tempo você sente enjoos?

Pisquei.

— Alguns dias.

— Tonturas?

Assenti.

— Muito sono?

Outra vez.

Ela fechou os olhos por um instante.

Meu coração acelerou.

— Eu estou doente?

Ela demorou tanto para responder que comecei a ficar nervosa.

— Diga alguma coisa.

Quando voltou a me encarar, sua voz saiu firme.

— Você não está doente.

Fez-se silêncio.

— Você está grávida.

Meu mundo desabou pela segunda vez naquela noite.

Grávida?

Balancei a cabeça imediatamente.

— Não.

Ela manteve a expressão séria.

— Tenho certeza.

— Isso é impossível.

Minha respiração começou a falhar.

— Deve haver algum engano.

A curandeira respirou fundo.

— Não há.

Olhei para Mirella.

Ela parecia tão perdida quanto eu.

— Ayla...

Ela segurou minha mão.

— Você...

— Não!

Puxei minha mão de volta.

— Eu nunca...

As palavras morreram.

Nunca.

Nunca havia dividido uma cama com homem algum.

Meu peito apertou.

Então...

Uma lembrança.

Uma floresta.

Folhas úmidas.

Uma mão entrelaçada à minha.

Uma voz grave.

"Você está segura."

Levei a mão à cabeça.

A imagem desapareceu antes que eu pudesse alcançá-la.

— Não...

Murmurei.

— Isso não faz sentido.

As pessoas começaram a cochichar.

Cada vez mais alto.

Até que alguém falou sem se importar se eu ouviria.

— Ela mentiu esse tempo todo.

Outro respondeu.

— Tentou prender o Alfa com uma gravidez.

— Que vergonha...

— Sempre pareceu boazinha demais.

Meu estômago embrulhou.

Olhei para Ethan.

Ele continuava parado.

Pálido.

Mas havia algo novo em seu rosto.

Confusão.

Não raiva.

Confusão.

Ele caminhou até nós.

Seu olhar foi direto para a curandeira.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Ele voltou os olhos para mim.

— Ayla...

Balancei a cabeça antes que dissesse qualquer coisa.

— Não me olhe assim.

— Eu só quero entender.

Uma risada amarga escapou dos meus lábios.

— Entender?

Levantei-me com dificuldade.

As pernas ainda tremiam.

— Você acabou de me rejeitar na frente da alcateia inteira.

Agora quer entender?

Ele permaneceu em silêncio.

Aquele silêncio começou a me irritar.

— Diga alguma coisa!

Sua mandíbula travou.

— O filho...

Ele respirou fundo.

— Não é meu.

As palavras ecoaram pelo salão.

Algumas mulheres levaram a mão à boca.

Os cochichos aumentaram.

Meu sangue gelou.

— O quê?

— Eu nunca toquei em você.

Meu coração parou.

Porque...

Ele estava dizendo a verdade.

Eu também nunca havia estado com Ethan.

Olhei para minhas próprias mãos.

Elas tremiam.

— Eu...

Minha voz falhou.

— Eu sei.

Ele franziu a testa.

— O que quer dizer?

Levantei lentamente os olhos.

— Porque você realmente nunca tocou em mim.

O silêncio foi absoluto.

Ethan pareceu ainda mais confuso.

Helena Blackwood deu um passo à frente.

Seu rosto estava tomado pelo desprezo.

— Então está admitindo que se deitou com outro homem?

— Não!

Minha resposta saiu alta demais.

— Eu não sei como isso aconteceu!

Ela riu.

Uma risada cruel.

— Que desculpa conveniente.

Senti meu rosto queimar.

— Estou dizendo a verdade!

— A verdade?

Helena cruzou os braços.

— Uma loba solteira aparece grávida justamente na noite em que seria escolhida como Luna...

Ela me encarou.

— Você realmente acha que alguém vai acreditar nessa história?

Olhei ao redor.

Nenhum rosto conhecido.

Nenhuma expressão de confiança.

Apenas desconfiança.

Nojo.

Pena.

Meu peito começou a doer.

Não havia uma única pessoa disposta a acreditar em mim.

Uma única pessoa...

Não.

Havia.

Mirella.

Ela deu um passo ao meu lado.

— Eu acredito nela.

Todos olharam para ela.

— Ayla jamais faria isso.

Helena sorriu com desdém.

— Então talvez as duas devam deixar esta alcateia juntas.

Foi quando o Ancião Damian bateu seu cajado contra o chão.

O som ecoou pelo salão.

— Silêncio!

Todos obedeceram.

O velho me observou longamente.

Depois voltou os olhos para Ethan.

— Uma gravidez sem explicação... uma rejeição pública... e uma possível ameaça à sucessão da alcateia.

Ele respirou fundo.

— O Conselho precisará se reunir imediatamente.

Meu estômago afundou.

Aquilo não era bom.

Conhecia aquelas reuniões.

Raramente terminavam com misericórdia.

Enquanto todos discutiam ao meu redor, senti novamente aquele perfume.

Madeira.

Chuva.

Hortelã.

Levantei a cabeça.

Na porta do salão, o mesmo homem de olhos dourados permanecia imóvel.

Dessa vez, ele não olhava para mim.

Seu olhar estava fixo... na minha barriga.

E havia algo em sua expressão que eu ainda não conseguia compreender.

Era como se ele tivesse acabado de perder o chão.

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