FAZER LOGIN༺ Dafne Aslan ༻
O barulho dos meus próprios passos apressados ecoava como batidas de tambor dentro do meu peito. Eu não tinha tempo para chorar, nem para processar o peso das palavras cruéis que meu pai acabara de cuspir na minha cara. “Você não é minha filha.” Essa frase, que deveria ter me destruído, agora funcionava como o combustível que eu precisava para queimar todas as pontes que me ligavam a essa casa. Entrei no meu quarto que, na verdade, não passava de um quartinho pequeno e isolado nos fundos da propriedade, quase como um depósito que a minha tia fizera questão de me destinar para me manter longe dos olhos das visita e bati a porta em silêncio. Meus olhos varreram o espaço diminuto. Eu precisava ser rápida. A qualquer momento, o motor do carro do senhor Vicente cruzaria a entrada da fazenda, trazendo esse velho nojento e os capangas do meu pai para selar o meu destino em um contrato de sangue e ganância. Puxei uma mochila de lona gasta debaixo da cama e comecei a jogar lá dentro o mínimo necessário: duas trocas de roupas simples, uma muda de casaco para o frio da noite e o único dinheiro que guardei. Eram algumas poucas notas amassadas, fruto de pequenos trabalhos ocultos que eu conseguia fazer longe da vigilância da minha tia. Um valor ridículo que mal daria para pagar uma passagem de ônibus para longe dali. Mas era tudo o que eu possuía. Aquilo, e a minha dignidade. Ajustei as alças da mochila nos ombros, sentindo o peso da incerteza esmagar minhas costas. Olhei para a porta de madeira. Sair por ali era um suicídio; meu pai ou minha tia me interceptariam no corredor antes mesmo que eu pudesse alcançar a sala. Minha única opção era a janela baixa que dava para a lateral dos jardins traseiros, uma área sombreada pela vegetação densa que crescia junto às paredes de pedra antiga do casarão. Abri a tranca de ferro com cuidado, tentando não fazer nenhum ruído. Coloquei as pernas para fora, respirei fundo e pulei. Meus pés atingiram a grama úmida com um baque surdo. Agachei-me instantaneamente, o coração na boca, olhando para os lados. A noite já havia engolido a paisagem, e o calor típico daquela região trazia um mormaço pesado, misturado com o cheiro de terra seca. Quando me curvei para começar a correr em direção aos limites da propriedade, duas silhuetas surgiram abruptamente de trás das árvores frutíferas. Dei um passo atrás, sufocando um grito de pavor com a mão na boca, supondo serem os capangas. Mas a luz fraca da lua revelou os rostos conhecidos. Eram Zilá e minha irmã, Sofia. Sofia, que era mais nova que eu, segurava uma cesta de vime e olhava para mim com os olhos arregalados, sem entender absolutamente nada do que estava acontecendo. Ao lado dela, Zilá, a mulher de pele beijada pelo sol e mãos calejadas pelo trabalho, mantinha uma expressão de profunda preocupação. Zilá fora a única pessoa que me criara de verdade, a que me deu carinho, colo e amor maternal depois que a minha mãe fugiu desse inferno. Ela deu um passo à frente, seus olhos foram diretamente para a mochila em minhas costas e na minha respiração arfante. — Dafne… — Zilá sussurrou, a voz carregada de uma urgência protetora. — O que você está fazendo, menina? Aonde você vai com essa mochila no meio da noite? Aproximei-me delas com passos rápidos, segurando as mãos dela, sentindo o tremor dos meus próprios dedos. O desespero estava estampado no meu rosto, e eu não conseguia mais esconder a verdade. — Vou embora, Zilá. Preciso ir antes que meu pai volte com o senhor Vicente e os capangas dele — despejei as palavras, sentindo minha garganta arranhar. — Ele acabou de me dizer no escritório… ele quer me casar com aquele velho a qualquer custo. Eu não posso ficar aqui. Se eu ficar, eles vão me acorrentar àquela cama. Sofia soltou uma lufada de ar, seu rosto empalidecendo sob o luar. Ela deu um passo à frente, deixando a cesta de lado, o olhar chocado e genuinamente triste. Sofia não tinha a maldade da mãe, mas era submissa demais ao ambiente em que vivia. — Sinto muito, Dafne… — Ela comentou, seus olhos se enchendo de lágrimas ao compreender a gravidade da situação. — A mamãe e o pai… eles não têm limites. Ouvi os gritos do escritório, mas não imaginei que eles iriam tão longe. Casar você com aquele homem… isso é uma monstruosidade. — Eles não se importam comigo, Sofia. Nunca se importaram — respondi, olhando para a minha irmã com uma mistura de pena e despedida. Zilá permaneceu em silêncio por um breve segundo, mas o fogo da indignação brilhava em seus olhos antigos. Ela olhou para trás, em direção à casa principal, como se pudesse prever a chegada da tragédia, e depois voltou-se para mim. Sem hesitar, ela enfiou a mão no bolso do seu avental de trabalho, tateando o fundo do tecido até puxar um maço de dinheiro dobrado com cuidado. Eram as economias que ela guardava da semana de trabalho pesado. Ela segurou minha mão e forçou o dinheiro contra a minha palma, fechando meus dedos sobre as notas. — Vai, Dafne. Leva isso com você e vai embora, menina — falou firme, mas suas palavras embargada pela emoção, enquanto seus olhos procuravam os meus com uma intensidade avassaladora. — Aquele velho Vicente é ruim. Conheço o tipo de homem que ele é, a escuridão que carrega. Eu não vou deixar você, uma menina tão bela e cheia de vida, ter o seu futuro acabado e destruído nos braços de um homem desses. O seu pai… Deus me perdoe, mas ele um dia vai se arrepender amargamente do que está fazendo com o próprio sangue. Uma hora a verdade aparece criança… Olhei para o dinheiro na minha mão e depois para o rosto acolhedor de Zilá. Uma lágrima solitária e quente cortou minha bochecha. O sacrifício dela era a coisa mais pura que eu já tinha recebido naquela vida. — Zilá, eu não posso aceitar tudo isso… é o seu dinheiro — gaguejei, tentando devolver, mas ela empurrou minha mão de volta com firmeza. — Não discuta comigo, Dafne. Use isso para salvar a sua vida. É tudo o que me importa. Apertei as notas contra o peito, olhando profundamente nos olhos da mulher que fora minha verdadeira mãe. — Prometo que vou te devolver cada centavo, Zilá. Juro por tudo o que é mais sagrado, eu vou voltar e te pagar — declarei, com uma determinação que surpreendeu até a mim mesma. — Você não me deve nada, minha menina. Só me deve a certeza de que vai ser livre — ela respondeu, puxando-me para um abraço rápido, apertado e doloroso, que carregava o peso de um adeus definitivo. Desvencilhei-me do abraço, olhei para Sofia uma última vez, vendo-a acenar com a cabeça em um apoio silencioso e sofrido, e me virei. Não olhei para trás. Corri. Meus pés afundaram na terra batida enquanto eu abandonava os limites do jardim e entrava no campo aberto. A propriedade do meu pai era cercada por vastas plantações e pastagens que se estendiam sob as colinas, um território que eu conhecia desde a infância, mas que agora parecia um labirinto perigoso sob a penumbra da noite. O vento quente batia contra o meu rosto, desfazendo meus cabelos, enquanto a adrenalina limpava qualquer resquício de cansaço do meu corpo. A lua alta iluminava fracamente a vegetação rasteira, criando sombras distorcidas que pareciam me perseguir. Tenho que alcançar a estrada principal, a rota que ligava aquela região isolada às cidades vizinhas mais modernas, onde eu poderia pegar qualquer transporte que me levasse para longe da influência do nome Aslan. Cada galho que estalava sob meus sapatos parecia o som de um capanga se aproximando, e as sombras olhos vigilantes do meu pai. Sentia o suor escorrer pelo meu pescoço, o ar faltar nos meus pulmões, mas a imagem do senhor Vicente e o asco que eu sentia por aquela casa me davam forças para continuar correndo. Estou cruzando os campos dourados, deixando a arquitetura antiga e opressora da fazenda para trás, avançando em direção ao completo desconhecido, impulsionada pelo único desejo que me mantinha de pé: o direito de ser dona de mim mesma.༺ Joseph Aslan ༻Minha perna queimar como se estivesse em carne viva. O sangue quente escorre pela minha calça jeans desbotada, sujando o chão de madeira do alpendre onde governei este lugar por mais de trinta anos.A espingarda pesa nos meus braços, inútil agora, enquanto o cheiro amargo de pólvora se espalha pelo pátio destruído.Observo o capitão da polícia caminhar até a varanda. Ele traz o papel da ordem judicial amassado na mão e guarda o revólver no coldre com um movimento lento, sem coragem de me encarar.— Joseph, acabou — ele declara, com a voz gasta, tentando manter uma postura neutra diante dos homens armados que cercam a propriedade. — Foi inútil a sua resistência. A ordem de desapropriação e o mandado de prisão por porte ilegal e tentativa de homicídio vão ser cumpridos agora.Tranco os dentes com tanta força que o maxilar estala. Cuspo o sangue que acumulou na minha boca direto na madeira da varanda, dando um passo para a frente.— Você prometeu me ajudar! — brado, rasg
༺ Dafne Aslan ༻A fumaça da pólvora ainda paira pesada sobre o pátio da fazenda quando vejo o rastro de passos acelerados da minha mãe.Mary corta o caminho entre os mourões derrubados e avança como uma doida no meio do caos, ignorando o perigo e marchando direto para os degraus da varanda, onde o Joseph tenta se arrastar para dentro de casa.— Mãe! Espera! — grito.Corro atrás dela, pisando fundo com as botas no cascalho para tentar alcançá-la antes que aquele velho engatilhe a espingarda de novo. Santiago e Alejandro vêm logo atrás de mim, mantendo as armas em riste para cobrir qualquer imprevisto, mas Mary não diminui o passo um segundo sequer.Quando finalmente chego perto da varanda, encontro minha mãe parada no topo dos degraus, com a espingarda firme entre as mãos e a feição tomada por uma fúria que sufocou anos de covardia.Joseph está encostado na amurada de madeira, limpando o sangue do rosto com o dorso do braço, arrastando a perna ferida.— Aonde você vai, Joseph? — Mary
༺ Mateo de La Vega ༻Ajustei meu óculos no rosto, sentindo o suor frio escorrer de leve perto da fonte. O portão de madeira recém-derrubado jaz estraçalhado na terra batida, e a poeira baixa devagar, revelando a linha de frente dos pistoleiros do Joseph.Eles estão posicionados atrás dos mourões da cerca e das pilhas de lenha espalhadas pelo pátio. O velho continua firme no centro, segurando aquela espingarda pesada com as mãos trêmulas, mas tomadas por uma loucura cega.Fico ao lado do Dante, mantendo a minha arma em riste, o dedo repousado com cuidado junto ao gatilho. O ar da manhã cheira a poeira, mato seco e perigo iminente.— Ele não vai recuar — digo para o Dante, sem tirar o olho do movimento dos capangas do velho. — Se viemos pelo bom senso, perdemos viagem. Ele quer bala, então que venha bala.— Se é isso o que ele quer, é isso o que terá — Dante reafirma, ajeitando a empunhadura da pistola com precisão calculada. — Ninguém sai desta fazenda sem resolver essa pendência hoje
༺ Dafne Aslan ༻O capitão da polícia me encara rígido, ajeitando o quepe na cabeça enquanto tenta manter uma autoridade que claramente já não tem.Ele olha para mim, depois para Alejandro e Santiago parados bem ao meu lado, e solta um suspiro pesado que quase se perde no barulho dos motores.— Não é tão fácil assim, garota — o policial responde, balançando a cabeça devagar. — A lei tem seus trâmites, os horários e as burocracias. Não podemos simplesmente derrubar um portão dessa propriedade sem garantia de segurança.— Não é tão fácil? — pergunto, dando meio passo à frente e soltando uma risada irônica que faz o capitão dar um sobressalto. — E o que tem de difícil aqui, seu capitão? O Joseph está morando em algo que não é dele! Ele é um invasor num terreno que pertence ao nome da minha mãe. O mandado de desapropriação está assinado pelo juiz, a papelada tá na mão do oficial e vocês estão aqui parados na entrada feito estátuas!O homem limpa a garganta, desconfortável. Ele corre os olh
༺ Dafne Aslan ༻Subo no banco do carona da caminhonete preta, batendo a porta com força para terminar naquela bagunça no meio da sala. Alejandro assume o volante ao meu lado, enquanto Dante se acomoda no banco traseiro, checando o pente da pistola antes de guardá-la no coldre. Na outra caminhonete, logo atrás da nossa, vão Santiago, Mateo e Diego, acompanhados por parte dos homens armados da fazenda.Alejandro dá a partida e o motor ronca pesado. As rodas cantam no cascalho do pátio antes de pegarmos a estrada de terra.Encosto a cabeça contra o vidro da janela, observando as árvores passarem rápido pela paisagem envoada do início da manhã. A poeira sobe em densas nuvens amarelas. Sei perfeitamente que o confronto com o meu pai não será simples. Aquele homem transformou a propriedade da minha mãe num verdadeiro campo minado, cercado de pistoleiros e corrupção. Ele vai tentar utilizar tudo o que tem para me ver destruída, para garantir que eu nunca ponha as mãos no que me pertence
༺ Santiago de La Vega ༻Aperto os dentes com tanta força que sinto o osso do meu maxilar estalar. Movo o corpo de um lado para o outro perto da janela, sem conseguir parar quieto um segundo. O dia mal começou a dar as caras lá fora e o meu sangue já fervilha nas veias, como se estivesse prestes a explodir.Minha bochecha esquerda ainda queima ao lembrar. Aquele estalo ressoa na minha cabeça toda vez que fecho os olhos. Puta que pariu. A garota me meteu a mão na cara sem pensar duas vezes, com uma fúria que quase me fez perder a cabeça no corredor.Passei a mão no rosto devagar, sentindo a pele um pouco inchada. Por dentro, um sentimento incômodo se misturava com uma pontada de fascínio que odeio admitir. A audácia dessa loira dos infernos me irrita, mas me atrai de um jeito totalmente descontrolado. Ela não se encolhe. Não baixa a cabeça para nenhum de nós. Quanto mais tento prensar a passarinha contra a parede, mais ela me mostra as garras.— O que aconteceu com a sua cara? — Die







