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༺ Dafne Aslan ༻
Na minha vida nada era fácil. Meu pai fazia questão de tornar a minha existência um verdadeiro inferno desde o dia em que a minha mãe fugiu com outro homem, um capataz mais jovem e bonito que trabalhava em nossas terras. Para piorar a minha ruína, a minha tia Francisca irmã dela, que sempre fora doentiamente apaixonada pelo meu pai, aproveitou-se do momento de fragilidade dele. Ela o seduziu, os dois dormiram juntos e ele acabou se casando com ela logo em seguida. Desde que ela se tornou a senhora desta casa, eu não tive um único dia de paz. Na época, eu era apenas uma criança indefesa. Com uma frieza cirúrgica, ela fez meu pai acreditar que eu não era sangue do seu sangue, mas sim o fruto proibido de um dos muitos amantes que a minha mãe supostamente mantinha. Com isso meu pai passou a me tratar como a pior pessoa do mundo, uma mancha na honra de um casamento fracassado, fazendo-me sofrer as mais dolorosas humilhações. Agora, de pé diante dele no escritório imponente, recebo a notícia devastadora de que ele vendeu o meu destino. Ele vai me casar à força com o senhor Vicente, um fazendeiro viúvo de cinquenta e sete anos. Um velho horrível, conhecido por sua crueldade e por seus olhos asquerosos que me despiam sempre que nos cruzávamos na alta sociedade conservadora da região. Porém, desta vez, o medo que sempre me calou transformou-se em uma fúria cega. Senti o sangue ferver nas minhas veias, enfureci-me como nunca e gritei com todas as forças que guardava no peito: — Eu não vou me casar com este homem nunca! O silêncio que se seguiu foi cortante, interrompido apenas pelo som pesado da respiração do meu pai. Seu rosto mudou de cor, atingindo um tom vermelho de pura cólera. Ele desferiu um soco violento contra a mesa de madeira maciça, fazendo os papéis e os copos de cristal tremerem. — Você vai se casar sim! — o grito dele ecoou pelas paredes altas do escritório, uma ordem absoluta que não admitia contestação. — Você não tem escolha, Dafne! O senhor Vicente é um ótimo partido, um homem de posses, respeitado por toda a elite e com uma fortuna que consolidará o poder do nosso nome. Você deveria me agradecer de joelhos por arrumar um teto e um marido que limpe a sua reputação, em vez de agir como uma imunda ingrata! O enfrentei, dando um passo à frente, erguendo o queixo e sustentando o seu olhar assassino. As lágrimas de raiva queimavam meus olhos, mas eu me recusei a deixá-las cair. — Um ótimo partido para os seus negócios, não para mim! — rebati, com indignação, mas firme o suficiente para fazê-lo recuar um milímetro. — Ele tem idade para ser meu avô! É um monstro de aparência asquerosa e alma podre. Prefiro a morte a ser entregue a um velho nojento como ele por pura ganância de vocês! No canto da sala, sentada confortavelmente na poltrona de veludo como se assistisse a um espetáculo, minha tia Francisca soltou uma risada anasalada, carregada de deboche e veneno. Ela ajeitou as joias caras no pescoço e se levantou com uma elegância falsa, fingindo uma postura de autoridade moral que nunca possuiu. — Deixe de ser dramática, menina. Olhe para o seu estado, gritando como uma louca varrida dentro desta casa — ela disse, caminhando calmamente em nossa direção, com um sorriso cínico nos lábios perfeitamente pintados. — Seu pai está fazendo o que é melhor para o seu futuro. Você deveria abaixar a cabeça, ser obediente e aceitar o milagre que é um homem digno como o senhor Vicente aceitar carregar o fardo de um sobrenome manchado pela promiscuidade da sua mãe. Você é um peso morto nesta família, e este casamento é a única utilidade que você tem. Toda a dor, toda a humilhação que engoli na infância, os anos de rejeição e as noites que passei chorando trancada no quarto explodiram dentro de mim. Eu não vi mais nada. Antes que ela pudesse terminar a última palavra ofensiva, meu corpo agiu por puro instinto de sobrevivência. Avancei como uma leoa e dei um tapa violento na cara dela. O barulho do impacto da minha mão contra a pele do rosto dela preencheu o cômodo com uma força ensurdecedora. O golpe foi tão forte que a cabeça dela virou para o lado, desfazendo o coque alinhado e fazendo seus anéis arranharem a própria bochecha. Minha mão ardeu, mas a sensação de vê-la cambalear para trás foi o primeiro momento de justiça que senti na vida. — Cale a sua boca maldita! — berrei, apontando o dedo trêmulo contra o rosto dela, que agora estava vermelho com a marca dos meus dedos. — Tudo isso é culpa sua! Toda a desgraça da minha vida, cada lágrima que derrubei, cada vez que meu pai me olhou com nojo… foi você quem plantou! Você sempre foi uma sombra invejosa da minha mãe, uma cobra-rasteira que não sossegou até roubar o marido dela e destruir o que restava de mim! Você é um monstro disfarçado de santa! Francisca levou a mão à bochecha atingida, seus olhos arregalados em choque absoluto. A máscara de dondoca sofisticada caiu instantaneamente, dando lugar a uma expressão de puro ódio. Ela se encolheu teatralmente, olhando para o meu pai para buscar apoio e encenando o seu papel de vítima. — Você viu o que essa garota fez? Ela me agrediu dentro da minha própria casa! — ela gritou dramaticamente, tentando forçar um choro falso enquanto se defendia. — Passei anos aguentando a sua presença, sustentando a filha de um adultério sob o meu teto, e é assim que sou recompensada? Ela é perigosa, uma marginal! Você precisa colocá-la no lugar dela antes que ela termine de destruir o que restou da nossa dignidade! Sou a sua esposa. Meu pai, cego pela fúria de ver a autoridade da sua casa ser desafiada daquela maneira, deu a volta na mesa com passos pesados. Ele me segurou pelo braço com tanta força que seus dedos se enterraram na minha pele, sacudindo-me com violência. — Chega! — ele rugiu, e o ódio em seus olhos castanhos era quase palpável. Jogou na minha cara toda a frustração de uma vida inteira de amargura. — Você é exatamente igual à sua mãe! Uma sem-vergonha, uma vagabunda que não respeita o teto onde come! O mesmo sangue podre e infiel corre nas suas veias. Ela destruiu o meu orgulho fugindo com aquele caipira, e você está aqui tentando fazer o mesmo, agindo como uma rebelde sem moral! Eu tentava me soltar do aperto dele, mas a dor física não era nada comparada à dor de ouvir aquelas ofensas cuspidas pelo homem que deveria ter me protegido do mundo. — Não fale da minha mãe! Você não sabe o que ela passou para decidir fugir de um homem frio e cruel como você… — gritei de volta, enfrentando-o cara a cara, sem medo das consequências. — Você me odeia porque é um covarde que não consegue aceitar que foi abandonado! Usa as mentiras dessa mulher nojenta para justificar a sua própria ruína e desconta em mim a sua frustração! Ele apertou ainda mais o meu braço, seus dentes trincados, e aproximou o rosto do meu, desferindo o golpe final, a frase que ele guardara por anos para me destruir por completo: — Você supõe que é importante, não é, Dafne? Pensa que tem o direito de exigir algo, de impor condições nesta casa? Acorde para a realidade! Você não é nada. Você não é minha filha! Você é o rastro da traição que aquela maldita deixou para trás para me envergonhar. Eu não tenho nenhuma obrigação de te amar ou de te poupar. Irei te entregar ao Vicente e lavar as minhas mãos da sua existência de uma vez por todas! Aquelas palavras deveriam ter me quebrado e me feito desabar de joelhos no chão e implorar por misericórdia. Mas, em vez disso, algo se rompeu dentro de mim, a última corrente que me prendia àquele lugar e àquele homem. Uma clareza fria e afiada tomou conta da minha mente. Olhei bem, no fundo dos olhos dele, puxei o meu braço com toda a força que me restava e me libertei do seu aperto. Dei um passo para trás, encarando ambos os monstros que moldaram o meu inferno. — Se eu não sou sua filha, então eu não te devo absolutamente nada — rebati com uma calma cortante que o pegou de surpresa. — Eu não pertenço a este lugar, não pertenço a você e, acima de tudo, eu nunca serei propriedade de nenhum homem que você escolher. Virei as costas sem esperar por mais nenhuma palavra, ignorando os gritos do meu pai que ordenavam que eu voltasse. Saí do escritório direto para o meu quarto. Eu não tinha tempo a perder. A noite estava caindo sobre a cidade antiga, e essa seria a última noite que eu respiraria o mesmo ar que eles. Eu iria fugir, mesmo que isso significasse correr sem rumo em direção ao completo desconhecido.༺ Dafne Aslan ༻Santiago está parado no batente, apoiado na madeira com os braços cruzados sobre o peito largo. O olhar dele passa de mim para Mateo, fixando-se na proximidade perigosa entre nós dois e na caixa de primeiros socorros esquecida sobre a cama. Um sorriso sombrio e perigoso surge no canto dos seus lábios.— Olha só para o nosso médico certinho — Santiago provoca, com uma ironia venenosa que faz a espinha arrepiar. — Veio cuidar do curativo da garota ou resolveu aproveitar a oportunidade, Mateo?Mateo se levanta da cama de pulo, ajeitando a armação dos óculos enquanto assume uma postura defensiva na minha frente.— Pense bem no que fala antes de falar bobagem, Santiago — Mateo rebate, mantendo a voz fria, embora os punhos fechados ao lado do corpo entreguem a sua irritação. — A Dafne se cortou na cozinha e eu só estava tratando o ferimento.— Ah, claro — Santiago caminha para o interior do quarto com passos lentos e ameaçadores de um predador, ignorando completamente a res
༺ Dafne Aslan ༻Alguns dias se passaram desde aquela grande confusão que tive com o meu próprio pai na entrada da propriedade. Mas sei perfeitamente que essa não vai ser uma batalha fácil. Alejandro me informou hoje cedo que Joseph dobrou o reforço de homens armados na fazenda. Sei melhor do que ninguém que isso é puro desespero da parte dele.Enquanto corto alguns pedaços de frutas frescas para fazer uma salada na cozinha, uma lembrança antiga e dolorosa vem à minha mente. Minha mãe andava completamente desesperada pelos cantos da casa naquela época.Eu tinha apenas dez anos quando presenciei uma discussão terrível entre os dois na sala, escondida atrás da cortina.“Meu pai segurava uma pasta cheia de papéis, tentando obrigar minha mãe a assinar os documentos de qualquer jeito.— Você vai assinar essa porcaria agora mesmo, mulher! — ele esbravejava, puxando o cabelo dela com violência enquanto a encostava contra a parede. — Vai assinar nem que seja preciso morrer para isso.Minha mã
༺ Alejandro de La Vega ༻Seguro o pulso de Joseph com a mão direita, apertando o osso da junta dele até ver o desgraçado franzir o rosto de dor. Encaro esse sujeito com um ódio que queima no peito.Jamais permitiria que qualquer tipo de agressão contra a Dafne acontecesse na minha frente. Meus irmãos se aproximam pelas minhas costas, formando uma barreira viva.Santiago, Mateo, Diego e Dante parecem dispostos a qualquer coisa para quebrar a cara desse sujeito nojento ali mesmo, sem importar quem está olhando.— Você não vai levá-la para lugar nenhum daqui — aviso, soltando a mão dele com um empurrão seco. — Ela declarou claramente que não deseja ir e que não permanece no nosso domínio por obrigação.Joseph massageia o punho avermelhado, me medindo da cabeça aos pés com a cara fechada.— Alejandro, não é? Esse é o seu nome — ele rebate, tentando aparentar uma coragem que não possui. — Fique fora disso. A conversa e a pendência são entre mim e a minha filha.— Sinto muito, senhor Joseph
༺ Dafne Aslan ༻Continuo observando meu pai com a mandíbula travada, tomada por uma fúria ardente que consome meu peito ao ver até onde vai a coragem dele de expor minha vida na imprensa.Mas não deixarei ele sair daqui com um sorriso vitorioso. A repórter se aproxima com o microfone e os olhos brilhando de pura curiosidade, percebendo que a pauta do dia acabou de tomar um rumo completamente inesperado.O cinegrafista ajusta o enquadramento na minha direção enquanto as viaturas da polícia mantêm os giroflex ligados atrás da multidão.— Então absolutamente tudo o que o seu pai falou aqui na frente das câmeras é uma mentira? — a repórter questiona, buscando confirmação. — Você não está sendo mantida em cárcere privado por essa família?— Eu não estou sendo sequestrada por ninguém — respondo com firmeza, encarando a lente da câmera. — Na verdade, estou sendo impecavelmente bem cuidada por esses homens. Acabei sofrendo um grave acidente na estrada justamente quando fugia do meu próprio pa
༺ Dafne Aslan ༻Estou lendo um livro que Mateo trouxe da cidade especialmente para mim. Era uma comédia romântica clichê. No começo, achei a história meio boba e sem graça, mas, aos poucos, o enredo acabou me prendendo de um jeito gostoso, fazendo o tempo passar sem que eu percebesse.De repente, barulhos altos de discussão vindos do pátio cortam a paz do meu quarto. Me levanto da cama de pulo e vou até a janela. Ao puxar a cortina para ver, me deparo com uma equipe de repórteres cheia de câmeras, viaturas da polícia e o meu próprio pai no centro do tumulto.Não acredito que ele estava fazendo isso, descendo a um nível tão baixo. Mas eu não sei por que eu não me surpreendo. Ele deve estar realmente muito desesperado. A audácia desse homem me faz travar a mandíbula de pura raiva.Como ele tem a audácia de continuar enfrentando homens poderosos que já sabem de todas as suas sujeiras? Recuso-me a ficar trancada assistindo ao circo. Saio do quarto furiosa e desço as escadas a passos largo
༺ Dante de La Vega ༻ Observo Dafne se alimentar em silêncio, sentado na beirada da cama enquanto ela saboreia cada pedaço do café da manhã que preparei. Foi a primeira vez que vi essa garota quebrar totalmente a muralha de durona que carrega desde que pisou nesta casa. O choque com a verdade sobre o pai com certeza a levou ao limite de aguentar tudo sozinha. Quando ela termina finalmente a refeição, me aproximo e recolho a bandeja prateada com o prato e os utensílios. Entrego um copo de água fresca para ela e aproveito para me inclinar, deixando um beijo carinhoso e demorado na sua testa. — Descansa mais um pouco, passarinha — recomendo com voz amena. — Você continua meio fraca devido a todo esse estresse. Ela somente concorda com um gesto leve de cabeça, permanecendo sentada na cama. Seguro a bandeja com firmeza e caminho até a saída do quarto. — Voltarei mais tarde com o seu almoço — aviso, dando um último olhar na sua direção antes de puxar a porta. Fecho a porta devagar e si







