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A obsessão do capo
A obsessão do capo
Penulis: Nu.Ferreira

O Trono de Espinhos e Vinho

Penulis: Nu.Ferreira
last update Tanggal publikasi: 2026-04-27 00:53:20

​O ar na sala de reuniões da mansão Medici em Florença era denso, carregado com o cheiro de tabaco caro, couro e o aroma terroso de um Chianti recém-aberto. No centro da mesa de carvalho maciço, Vincenzo Medici permanecia em silêncio. Seus 1,90m de altura, mesmo sentado, impunham uma presença que sufocava qualquer tentativa de insurreição.

​Ao seu lado direito, Vittorio, seu irmão, mantinha a mesma postura gélida. Eram como duas torres de granito, espelhando a seriedade que o sobrenome exigia. Atrás deles, postados como sombras vigilantes, estavam Giovanni, Luca, Marco e Giuseppe. Eles não eram apenas guarda-costas; eram extensões da vontade de Vincenzo.

​— Os lucros com a exportação de vinhos subiram 15% este trimestre — declarou um dos chefes das famílias menores, tentando quebrar o gelo. — Mas a rota do Adriático está… instável.

​Vincenzo finalmente levantou o olhar. Seus olhos eram perspicazes, capazes de desarmar um homem antes mesmo de ele terminar uma frase. Ele girou lentamente a taça de cristal entre os dedos longos.

​— Instável por causa de incompetência ou por causa de traição? — A voz de Vincenzo era um barítono baixo, quase um sussurro, mas que ecoou por cada canto da sala.

​— Houve ataques, Don Medici. Cargas de armamento foram interceptadas.

​Vincenzo deu o primeiro gole no vinho, o líquido vermelho-sangue manchando brevemente seus lábios antes de ele voltar à expressão impenetrável.

​— Meu pai, Antônio, me ensinou que um vinhedo só prospera se cortarmos os galhos podres — disse ele, levantando-se. A cadeira arrastou no chão com um ruído seco. — Vittorio, cuide para que o responsável por essa "instabilidade" entenda que a família Medici não tolera perdas. Seja impiedoso.

​— Com prazer — respondeu Vittorio, um meio sorriso sombrio surgindo em seu rosto enquanto se levantava também, acompanhando a imponência do irmão.

​Enquanto isso, em um bairro modesto de Roma...

​A luz da manhã entrava timidamente pela janela da cozinha, onde Luna organizava seus livros de pedagogia. Aos 20 anos, seu mundo era feito de sonhos de alfabetização e do riso das crianças no orfanato onde ajudava a Tia Maria.

​No entanto, o som da porta da frente batendo com força interrompeu seus pensamentos. O cheiro de álcool e estagnação entrou na sala antes mesmo de seu Tio José.

​— Estudando de novo, Luna? — José se aproximou, o olhar percorrendo o corpo da sobrinha de uma forma que a fazia sentir necessidade de um banho imediato. — Devia estar procurando um jeito de trazer dinheiro de verdade para esta casa.

​Luna sentiu um arrepio na espinha e apertou o caderno contra o peito. Ela olhou para o lado e viu sua irmã, Mila, de 18 anos, descendo as escadas apressada para se colocar entre eles, o olhar vigilante e protetor apesar da pouca idade.

​— Deixe ela em paz, José — Mila disse, a voz firme, mas as mãos levemente trêmulas.

​— Só estou sendo amigável — ele murmurou com um sorriso perverso antes de se retirar para o quarto.

​Luna suspirou, o coração martelando. Ela não sabia que, enquanto lutava contra os monstros dentro de sua própria casa, o destino estava prestes a colidi-la com um monstro muito mais poderoso, elegante e perigoso, que comandava a Itália do alto de um trono de vinhos e sangue.

​O dilema entre a pureza de seus sonhos e a escuridão do mundo de Vincenzo estava apenas começando.

​

​O salão de festas da Villa Medici estava deslumbrante, decorado com arranjos de peônias brancas e cristais que refletiam a luz das velas. Para Luna, aquele luxo parecia um cenário de filme, muito distante da realidade apertada que vivia com a tia Maria e o medo constante das investidas do Tio José.

​Ela vestia um uniforme elegante de serviço, ajustado perfeitamente ao seu corpo, e carregava uma bandeja de prata com taças do melhor espumante da reserva Medici. Se estava ali, era graças a Julia. Sua melhor amiga de faculdade e prima de Vincenzo sabia que Luna precisava desesperadamente de independência financeira para tirar a irmã, Mila, daquela casa tóxica.

​— Você está indo bem, Luna — Julia sussurrou ao passar por ela, dando um aperto encorajador em seu braço. — Sorria, hoje é o começo da sua liberdade.

​Luna respirou fundo, tentando ignorar o nervosismo. Ela se movia com cautela entre os convidados da alta sociedade italiana e os membros da cúpula da máfia, cujos ternos sob medida escondiam armas e segredos.

​Ao contornar um grupo de homens altos que bloqueavam o corredor em direção ao terraço, Luna não calculou bem o espaço. Seu ombro colidiu suavemente com o peito de um homem que parecia uma parede de músculos.

​— Oh, me perdoe! — ela exclamou, equilibrando a bandeja com habilidade para não derramar o líquido precioso.

​— Cuidado, pequena. O Don não gostaria de ver esse vinho no chão — uma voz calma e bem-humorada respondeu.

​Luna levantou os olhos e encontrou o rosto de Luca. Entre os homens de confiança de Vincenzo, ele era conhecido por ser o mais acessível. Luca deu um sorriso genuíno, sem a malícia que Luna estava acostumada a ver no Tio José, o que a fez relaxar minimamente.

​— Mil desculpas, senhor… — ela murmurou, com um sorriso sem jeito e as bochechas coradas.

​— Apenas Luca. E não se preocupe, você se move melhor que metade dos seguranças desta casa.

​Ele piscou para ela e seguiu caminho, deixando Luna com o coração acelerado pela adrenalina do quase acidente.

​No entanto, o clima leve evaporou no instante em que ela sentiu um peso no ambiente. Do outro lado do salão, sentado em uma poltrona de veludo negro como se fosse um imperador, estava Vincenzo Medici.

​Ele não estava sorrindo. Seus olhos escuros e gélidos estavam fixos em Luna desde o momento em que ela esbarrou em Luca. Vincenzo observou cada detalhe: a pele clara dela, o modo como ela mordia o lábio inferior quando estava nervosa e a doçura do seu sorriso desajeitado.

​Ao lado dele, Vittorio percebeu a distração do irmão.

— Algum problema, Vincenzo? — perguntou o irmão mais novo, seguindo a direção do olhar dele.

​Vincenzo não respondeu de imediato. Ele apenas apertou a lateral de sua taça, uma chama de possessividade desconhecida acendendo em seu peito. Ele não sabia quem era aquela garota, mas o jeito que ela sorriu para Luca — mesmo que sem maldade — o irritou profundamente.

​— Quem é a garota com a Julia? — Vincenzo perguntou, sua voz saindo mais rouca do que o normal.

​— Uma amiga da faculdade, eu creio. Por quê?

​Vincenzo se levantou, seus 1,90m de altura comandando a atenção de todos ao redor, mas ele só tinha olhos para a pequena figura que tentava desaparecer entre os convidados.

​— Quero que descubram tudo sobre ela — ordenou Vincenzo, sem desviar o olhar. — E avise ao Luca que ele tem trabalho a fazer. Ele está sorrindo demais para quem deveria estar vigiando o perímetro.

​O perigo estava agora formalmente apresentado à inocência. Luna ainda não sabia, mas ao aceitar aquele emprego, ela não apenas entrou em uma festa; ela entrou no radar do homem mais implacável da Itália.

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