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Capitulo 6

last update Data de publicação: 2026-02-11 00:07:02

 Lidar com a angústia e a indecisão estava sendo um desafio excruciante para Isabella. Naquele momento da sua vida, sozinha, garota de programa, com pressão e cobranças de clientes, enjoos matinais e a rejeição do pai, ela já estava se sentindo exaurida.

A indecisão sobre o que fazer a envolvia como uma névoa densa. Ser mãe não estava nos planos, principalmente em um contexto em que a estabilidade financeira e emocional parecia inatingíveis. A profissão que escolhera, por necessidade mais do que por vontade, parecia uma barreira intransponível para a maternidade.

Decidir sobre a maternidade é uma das escolhas mais difíceis que alguém pode enfrentar. E quando essa escolha ocorre num contexto como o de Isabella, a complexidade é ainda maior. Ela pondera sobre o amor que poderia oferecer a uma criança, mas também sobre as dificuldades que enfrentaria para criar um filho sozinha, lidando com estigmas sociais e desafios financeiros.

Ou então, a alternativa dolorosa do aborto, uma decisão que não é simples, que carrega consigo um peso emocional significativo e que, para ela, representa interromper uma vida em seu início.

Isa sabia que, independentemente da decisão que tomasse, era extremamente importante ter uma rede de apoio, com quem pudesse contar, mas isso era exatamente o que Isabella nunca teve, agora, a única saída era contar para o progenitor da criança e esperar que através da reação dele, ela pudesse tomar uma decisão sábia e segura.

Todos os dias Isabella pegava o celular para ligar para Aléssio, mas o medo da rejeição e desprezo, era muito maior do que o desejo dela de uma decisão.  Então ela decidiu esperar, já que ele era um cliente fixo e algum dia a procuraria.

Destoando das rotinas convencionais, Aléssio tardou em estabelecer comunicação com Isabella. Algum evento havia transcorrido, talvez dona Morgana tivesse comunicado a ele acerca do distanciamento de Isabella, ou ele encontrava-se em apuros de alguma natureza. O fato era que Isabella já estava perdendo as esperanças, suas emoções estavam exaltadas e o medo a consumia profundamente.

Perdida em pensamentos, Isabella passava seus dias angustiada e sem saída, ela não conseguia decidir nada sobre sua vida e seu futuro. Pegou o celular para fazer outra tentativa de pedido de ajuda e discou o número que ela jamais esperava ligar em nenhum momento.

— Alô?… — a voz fria do outro lado da linha embargou a voz de Isabella, todos os gatilhos de dor e desespero voltaram em seu corpo, ela não conseguia expressar uma palavra sequer — quem é?

O pavor de Isabella foi maior que suas forças, ela desligou depressa o celular e o jogou sobre a cama. Foi até a cozinha, colocou um copo embaixo da torneira para que o enchesse, escorou seus punhos sobre a pia e sucumbiu a sua dor sem perceber que o copo havia enchido e transbordava.

Voltando a si, Isa desligou a torneira e consumiu um pouco do líquido deixando escorrer em sua garganta. Antes que terminasse, um súbito ódio transcorreu o seu corpo.

A garota que outrora era equilibrada e serena, lançou o copo de vidro com água na parede à sua frente e os estilhaços espalharam-se pelo chão a fazendo recordar de quando sua mãe protagonizou semelhante gesto em uma de muitas brigas com seu pai.

Isabella decidiu então, ligar para seu pai e não deixar espaço para que ele falasse qualquer coisa, estava decidida a expor tudo de forma súbita e direta.

— Alô? — a voz era suave do outro lado.

— Pai, eu estou grávida e não sei o que fazer, preciso de ajuda.

— Sofia? É você, minha filha? — seu pai adotivo ironizou.

— Pai, eu não estou brincando. Preciso de ajuda, de apoio, eu não sei o que fazer. — Isabella falava com a voz embargada e deixou suas lágrimas denunciarem a sua dor.

— Agora você precisa de ajuda? Você me procurou quando decidiu fugir com aqueles delinquentes? Ou quando decidiu se enfiar nas drogas sem pensar em mim, ou nas consequências?

Isabella ouvia enquanto chorava, ela não sabia realmente como explicar e não tinha forças para discutir com seu pai.

— Quando você decidiu se entregar para uma porção de homens em troca de dinheiro, você pensou em procurar minha ajuda? — Paulo deu uma pausa e sua voz embargou, ele parecia muito ressentido — Eu sempre quis te ajudar Belinha. — era assim Paulo chamava Isabella carinhosamente. Ao chamá-la de Belinha, Isa não se conteve e caiu em prantos. — eu nunca neguei nada à você. Enfrentei a ira da minha esposa por você. Te adotei porque sua mãe não te queria. Eu estava disposto a pagar aluguel para você ter sua própria vida, só estava esperando você ter idade para emancipar. E o que você fez Belinha? Fugiu com maconheiros delinquentes, desapareceu sem deixar rastro e eu fiquei aqui desesperado, angustiado. Sabe quantas noites eu passei em claro imaginando se você estaria bem ou se estava com fome ou frio? Sabe como eu insisti para os policiais continuarem te procurando mesmo depois que eles disseram não poder mais? — Paulo chorava copiosamente do outro lado da linha e um nó se formou na garganta de Isabella, pois ela sabia que seu pai tinha razão. — até eu saber por bocas de homens desordeiros e porcos que você estava se prostituindo em um cabaré medíocre no subúrbio. Eu sinto tanto por você Belinha, mas você vai ter que suportar as consequências das suas escolhas, sozinha.

O som resultante do desligar abrupto do telefone ecoou como um suspiro eletrônico. O repente silêncio que se seguiu, interrompendo a conexão auditiva, deixou uma sensação de vazio, como se o eco da decisão unilateral de encerrar a comunicação ainda ressoasse nas linhas invisíveis que uniam os dois extremos da ligação.

O instante foi marcado por uma pausa palpável, um vácuo sonoro que refletia a quebra abrupta do diálogo virtual, reverberando o encerramento repentino da interação.

Isabella deixou seu corpo, outrora ereto, desmoronar sob o peso das emoções incontidas, suas mãos trêmulas buscavam, em vão, conter a tormenta que se desenrolava em seu interior. O ambiente se impregnava de melancolia enquanto lágrimas salgadas escorriam livremente pelas maçãs do seu rosto.

Na quietude da sala, um grito desgarrado de dor emocional rompeu o silêncio como um trovão estrondoso. A angústia, antes contida, encontrou uma via de escape sonora, reverberando pelas paredes como uma lamentação desesperada. O som cortante, impregnado de aflição, ecoou no espaço como uma sinfonia dissonante, marcando um ápice de sofrimento.

A expressão facial de Isabella, contorcida pela agonia, refletia a intensidade do tormento que invadia sua alma.

O eco do grito dissipou-se lentamente, deixando um vácuo emocional, como se a dor tivesse temporariamente esvaziado o peito da jovem garota angustiada. O estado de relaxamento momentâneo e a exaustão causada pela gravidez fez com que Isabella caísse em um sono profundo.

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