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Capitulo 7

last update publish date: 2026-06-02 05:59:56

A dor do desprezo era uma presença constante, penetrante, como uma ferida que jamais cicatrizava. Isabella sentia uma angústia tão profunda que às vezes lhe parecia impossível de suportar. Era como se o próprio mundo a rejeitasse, como se sua existência fosse um erro, um feto que não deveria ter prosperado, destinado ao abandono. A sensação de estar indesejada se tornara uma marca invisível em sua pele, um lembrete persistente de que, para muitos, ela era menos que nada.

Na manhã seguinte, Isabella foi arrancada de um sonho que parecia mais real do que qualquer coisa que já experimentara. O som do celular cortou o silêncio como uma lâmina, despertando-a bruscamente daquele refúgio onírico.

Ela estava vivendo, ainda que em sonho, uma vida que sempre quisera; uma vida onde o luxo e a segurança se uniam em um só. Em seu sonho, era dona de uma cobertura no prédio mais alto de Florianópolis, com vista para o mar, cercada pelo conforto que sempre lhe fora negado. Sentiu o calor do sol, ouviu o som das ondas e imaginou uma paz que raramente sentira.

Mas a realidade foi impiedosa. Ao abrir os olhos, tudo desapareceu, e seu coração foi invadido novamente pelo peso de uma solidão cortante. “espero que seja importante, se for aquela velha vou mandá-la se foder” Isa pensou em voz alta enquanto se levantava contra sua vontade.

Isa não reconheceu o número no visor do celular, então teve certeza de que não era a cafetina e nem Aléssio.

— Alô? — sua voz saiu arrastada anunciando que acabara de acordar.

— Bom Dia, musa do meu coração, raios que iluminam minha vida. Te acordei, princesa? — a voz de Aléssio era inconfundível para Isabella, se ele emitisse qualquer som à distância ela reconheceria.

O coração de Isabella agiu por conta própria e saltou no peito, sem conter a emoção, seu corpo estremeceu, suas mãos suaram e sem saber o que dizer, ela se jogou na cama com o sorriso arreganhado de orelha a orelha.

— Onde você estava? você sumiu. — foi o que a jovem conseguiu dizer ainda em êxtase.

— Pois é minha gatinha, ossos do ofício. Vou te explicar tudo, mas quero falar pessoalmente. Preciso matar a saudade. Posso te buscar hoje à tarde?

— Sim. Claro. — ela respondeu sem pensar duas vezes — preciso te dizer algo também.

— Hum… quer me adiantar do que se trata? Se apaixonou por algum cliente?

A pergunta de Aléssio não agradou a Isabella, mas ela lembrou do que ele mesmo disse. “São ossos do ofício”.

— Não… Te falo pessoalmente. — Isa esboçou nervosismo na voz, mas tentou manter a calma.

Aléssio desligou o celular e Isabella agarrou seu telefone pressionando-o no peito. A ansiedade invadiu seu corpo e um calor descomunal a acometeu. Ela correu para o banheiro, precisava refrescar aquele calor imenso que ela não tinha ideia de onde vinha.

O desejo de fazer amor com Aléssio manifestou de forma calorosa. Isa aproveitou o banho e tocou suas partes íntimas de forma suave e carinhosa enquanto pensava em seu cliente, amante fixo, seus dedos deslizavam de um lado para o outro friccionando levemente o clítoris, com toques gentis, aumentando a pulsação do seu ponto de prazer e conectando-a a sua própria feminilidade. Foi um momento de prazer solitário, onde ela se entregou à própria essência deixando seu corpo vulnerável após um orgasmo espontâneo e prazeroso.

No horário marcado, Aléssio apareceu. Buzinou na porta da casa de Isabella. Ao sair, ela não acreditou no que estava vendo, mas sua emoção deixou espaço para outro momento, o que ela queria era beijar Aléssio na boca e sentir seu sabor intenso de ervas e álcool.

— Que… Sau… da… de… — Aléssio falava entre os beijos urgentes que sua garota preferida o dava.

Como um cavalheiro, Aléssio abriu a porta e acomodou Isabella no banco de couro do passageiro, fazendo a garota se deslumbrar com cada detalhe do possante que trazia uma história misteriosa e perigosa, que Isabella adorava.

— Qual é? Sumiu por quase dois meses e apareceu com uma BMW? Roubou um banco, por acaso? — Isabella foi a primeira a quebrar o silêncio torturante que estava no carro. Onde só se ouvia o rangido do carro personalizado com motor potente.

Aléssio encarou Isabella com um olhar assustado e temeroso. Ele não conseguia esconder dela o desespero que trazia em seu peito. Isa era sua principal confidente, era como se ela fosse sua melhor amiga, se não fosse pelo fato de ter um sigilo cliente e prostituta.

— Vou te contar tudo, mas primeiro quero te levar em um lugar. — ele falou pegando na mão de Isabella e dando um sorriso tímido de canto.

O horizonte da estrada estava ficando aterrorizante com o mistério de Aléssio. Isa não sabia o que pensar, apesar de ter o seu próprio problema para resolver com ele, o suspense de Aléssio estava assustando mais do que a gravidez em si.

O jovem rapaz levou Isabella à um ponto turístico da cidade, um local muito visitado, mas estava em obras, por isso estava parcialmente fechado. Aléssio deixou seu possante com um rapaz em um estacionamento, pegou a mão de sua amada e a guiou pelo píer gigante de Balneário Camboriú.

— Meu Deus. Que lugar maravilhoso. Não acredito que me trouxe aqui.

— Você merece, minha Deusa. Eu queria te dar o mundo, mas isso é só o que eu posso oferecer. Não sei onde estarei futuramente, pelo menos terei certeza de que te fiz feliz em algum momento. — a voz de Aléssio soou embargada.

— Porque está dizendo isso. Aconteceu alguma coisa? — Isa parou bruscamente na metade do píer e ficou de frente para Aléssio.

— Eu tô “grilado”, gata. — Aléssio abaixa os olhos encarando os próprios pés — nesse mundo sujo em que vivo, qualquer vacilo é motivo de sentença de morte. Acho que tirei um chefão do sério, estou na mira dele.

Os olhos de Isabella lacrimejaram ouvindo a história de terror que Aléssio a contava. Vendo o desespero dele, ela imaginava que talvez não seria uma boa ideia contar a ele sobre a gravidez.

— Eu queria que você conhecesse alguns detalhes do meu trabalho, porque não tenho nenhum sucessor. Minha família foi toda dizimada pelo crime. Desculpa falar essas coisas tristes com você, gata, mas eu estou muito nervoso. Então… — Aléssio coloca as mãos nas bochechas de Isa encarando-a nos olhos. — O que você acha de herdar meu trono?

— Para de conversa boba, você não vai a lugar nenhum — Isa tentou encostar em Aléssio e ele se esquivou.

— Tô falando sério, gata. Eu até queria sair desse negócio, mas é a herança do meu pai. Para eu abrir mão, ou será preso ou morto.

— Um filho, talvez? — Isa jogou no ar sem deixar a verdade clara.

— Um filho? Seria uma dádiva, mas fico inseguro em ser pai, posso ser preso a qualquer momento. — Aléssio falou cabisbaixo.

Isabella olhou ao horizonte a água cintilando assim como a dor no seu peito em perceber que ela não era uma opção de mulher para se casar nos planos de Aléssio. Ela decidiu que não contaria à ele, não naquele momento. A vulnerabilidade de Aléssio sensibilizou Isabella.

O fato de ele desabafar, chorar para ela e nem sequer perguntar como ela estava, machucou bastante, mas Isa era uma garota de programa e não esperava mais que isso dos seus clientes, a não ser Aléssio, que ela acreditou ter uma conexão verdadeira de sentimentos.

Depois de uma tarde que parecia ser agradável, os assuntos tomaram conta do espaço deixando o ambiente fatigante. Aléssio levou Isabella para jantar e depois usou ela como sempre fazia, deixando um pagamento generoso na sua bolsa.

O sexo com Aléssio não foi como Isa esperava, porque tudo o que ela queria dizer, ficou entalado na sua garganta depois de ele ter contado sua história com fim previsto. Mas ela aproveitou, deu e recebeu prazer. Quando Aléssio foi embora, ela se encontrou novamente com a solidão e o desespero de estar esperando um filho até o momento com o futuro incerto.

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